Entrevista com Alexandre Silvério

Alexandre Silvério fala sobre assuntos relacionados ao seu CD chamado "Entre mundos", quarteto de fagotes da OSESP, inicio dos estudos no jazz, arranjo e composição; fraseado e dificuldades no fagote e muito mais.

Rodrigo Chenta- O CD "Entre mundos" foi premiado com o ProAc da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo na categoria música instrumental. Fale sobre este ocorrido.
Alexandre Silvério-
O Proac é um excelente programa de incentivo do Governo do Estado de SP onde qualquer músico do estado de SP tem a oportunidade de participar. A edição 2014 estava bem concorrida e com nomes de peso. O cd "Entre mundos" foi um projeto elaborado com muito cuidado nos detalhes, seja no repertório, na instrumentação, nos arranjos, nas letras, nas fotos que fizeram parte do encarte, no processo de gravação, tudo isso foi muito bem pensado para que ele realmente fizesse a diferença e se destacasse entre os outros projetos que estavam concorrendo. Imagino que deve ter sido muito difícil para os jurados do Proac selecionarem os melhores projetos. O nível estava muito alto! O projeto "Entre Mundos" foi importantíssimo para minha carreira, pois além do aprimoramento artístico, aprendi muito sobre todo o processo de produção de um CD, assim como organizar uma tournee como líder de um quinteto. Para mim, foi uma grande honra ter o projeto "Entre Mundos" selecionado pelo Proac.

RC- A capa, contracapa, parte interna da caixa do CD e traseira do encarte utilizaram a mesma pintura. Estas repetições de imagens possuem alguma relação com a concepção musical do trabalho gravado?
AS-
A capa foi escolhida após a conclusão das gravações. Como tenho amigos talentosos, pedi para a Elisa Monteiro (que além de violista atua no "mundo" das artes visuais) fazer a capa. Eu enviei as faixas de áudio para ela, e imediatamente ela comecou a procurar uma capa inspirada no contexto musical do disco. Tiveram alguns esboços até ela chegar no resultado final. Por ser uma arte tão bonita, achei que merecia estar presente em mais do que uma página do encarte. A arte se trata de uma pintura a óleo entitulada "Água - Viva".

RC- A música "My Funny Valentine", obra de Lorenz Hart e Richard Rodgers foi gravada com uma abordagem jazz-funk. Discorra sobre o arranjo desta obra.
AS-
Esse arranjo surgiu completamente por acaso. Um dia eu estava brincando com o Ipad, naquele App chamado Garage Band, onde você pode simular diversos instrumentos. Resolvi brincar de tocar contrabaixo. Conforme fui mexendo, resolvi adicionar um loop de bateria (levada estilo "New Orleans"). Coincidentemente a linha do baixo que eu criei estava no tom de dó menor (o 1º acorde original de "My Funny Valentine"). Fiquei uns dias curtindo aquilo, e essa linha de baixo sempre me remetia a algum tema de jazz, mas eu ainda não sabia qual… Resolvi colocar uns acordes de piano. Tive um estalo: achei que se encaixaria perfeitamente em My Funny Valentine. Eu sempre gostei dessa música, e eu queria um arranjo diferente do convencional para ela. Resolvi levar minha ideia para o ensaio da banda e experimentar. Lógico que tive que reharmonizar alguns acordes, mas todo mundo da banda gostou da versão, e eu também.

"... 'Entre Mundos' foi importantíssimo para minha carreira ..."

Alexandre Silvério Quinteto RC- Apesar do nome "Alexandre Silvério Quinteto" você abriu espaço ao inserir composições de Vinícius Gomes, Igor Pimenta e Fábio Leandro. Quais os critérios que usou para escolher o repertório que seria gravado?
AS-
Esse trabalho não é simplesmente o de um artista que se destaca, e os outros ficam apenas acompanhando. Em todas as músicas, tem sempre alguma ideia individual de cada músico do quinteto (além das improvisações), seja nas composições ou nos arranjos. Eu acredito que a variedade ajuda a dar mais interesse, tanto no repertório quanto nos arranjos. Como eles são músicos maravilhosos que admiro muito, eu também quis ter composições deles no disco, acho que foram essenciais para compor o CD.

RC- Como se deu a inserção da poesia "Saudade" de Almir Amarante no encarte do CD. Diga-me se há alguma interação dela com a música que abre este álbum musical?
AS-
Exatamente como aconteceu com a capa, assim foi com a poesia. Almir é um amigo contrabaixista da Osesp, que também atua em outros mundos além da música, se dedicando paralelamente à poesia. A poesia foi feita posteriormente à gravação. Após ouvir todas as faixas do cd, o Almir veio a mim com a poesia de "Saudade", e eu achei ótima. Também teve uma poesia para "Tarde em Berlim" mas o encarte já havia sido impresso, infelizmente não foi possível inseri-la no album.

RC- Discorra sobre o título "Entre mundos".
AS-
Esse título surgiu no final das gravações, no estúdio. Ainda não tinhamos um título para o disco. Após escutar os takes da gravação, o pianista Fábio Leandro sugeriu "Entre Mundos". A minha ideia original antes de ir pro estúdio era de fazer um disco só de jazz, mas conforme o projeto do disco foi amadurecendo e fui compondo mais músicas, acabaram saindo alguns temas de choro e bossa nova. No disco tem um tango também. Isso já remete a outros mundos. Mas também tem elementos da música erudita no disco. E como o fagote tradicionalmente não é muito usado na improvisação jazzistica, sempre pertencendo mais ao mundo do erudito, achei a ideia do titulo "Entre Mundos" bastante pertinente para este disco.

"Comecei a escrever arranjos e a compor muito por acaso"

Alexandre Silvério Quinteto - CD Entremundos
RC- Na música "Valsa para Bill" existe um belo contraponto entre guitarra, fagote e posteriormente o piano. Fale sobre este tipo de improviso.
AS-
Estavamos buscando um espaço em uma das músicas para explorar um pouco mais a diversidade de timbres, algo que saísse da marcação tradicional da bateria nos improvisos. Tirar a bateria de cena em alguns trechos já deu maiores possibilidades para o fagote interagir com a guitarra mais camerísticamente, surgindo mais espaço para dialogar através das peculiaridades timbrísticas de cada instrumento. Depois o piano entra no meio da improvisação, como se fosse mais uma pessoa que surgisse numa "conversa entre amigos", complementando o assunto. É um dos trechos que eu mais gosto do CD.

RC- Como funciona o teu processo criativo em relação aos arranjos e composições?
AS-
Comecei a escrever arranjos e a compor muito por acaso. Eu já tinha estudado técnicas de composição anteriormente, com o compositor Hudson Nogueira, tendo a finalidade de aplicar essas técnicas na improvisação Jazzistica. Aproveitei do meu conhecimento dessas técnicas para escrever meus arranjos e também compor. Geralmente começo com uma idéia melódica tocando uma frase inicial no fagote. Se a melodia é gostosa de tocar, eu tento desenvolvê-la. Mas isso demora vários dias. Fico com aquela ideia na cabeça, depois fico tocando várias vezes, e até gravo num gravador portátil pra ouvir depois. E a partir daí eu começo a passar pro papel. Acaba sendo algo como uma arquitetura, tento ir "construindo o prédio" aos poucos. Isso em geral demora. Faço isso por um periodo (semanas). Reviso a parte, os acordes e analiso a lógica de cada elemento. Depois faço uma gravação "guia", uma "demo". Me guio pelo ouvido. Se eu acho que soa bem, eu deixo como está.

RC- Em "Un tango para 'El Chico'" você utilizou um efeito no final de teu improviso, o que contribui para a diversidade de timbres. Você faz alguma pesquisa de timbre para contribuir com a sua intepretação?
AS-
Sim, já pesquisei muito sobre efeitos alternativos para dar mais variedade nas minhas improvisações. Já usei até uma pedaleira GT-10 de guitarra conectada ao fagote! Teve um tempo que eu usava muito os efeitos de pedais. Atualmente eu prefiro deixar o fagote mais acústico, preservando o timbre original. Mas é lógico que as vezes um efeito como esse usado no disco (efeito super shifter) é bem vindo!

RC- De que maneira você conheceu o jazz e passou a estudá-lo?
AS-
O jazz surgiu muito por acaso no meu estudo. Um dia estava com um antigo professor meu, o Formiga (o qual é meu amigo de orquestra atualmente) na busca de outros métodos que não fossem os tradicionais de fagote, com a intenção de expandir mais a técnica. Nós dois fomos lá na Casa Bevilacqua, e fomos nas seções de métodos para outros instrumentos. Violino, flauta, trompete… folheamos vários. Aleatoriamente na seção de saxofone demos de cara com um livro que parecia interessante: era o Omnibook, de Charlie Parker. A gente não tinha a menor ideia de quem era Parker, muito menos o Omnibook. Olhamos a parte, era difícil e parecia algo impossível de tocar no fagote. Foi aí que decidimos comprar o livro. Cheguei em casa, comecei a tocar aquilo imediatamente. Era muito interessante, e ao mesmo tempo muito difícil de tocar. Eu não tinha a menor ideia do que era a arte da improvisação. E eu queria entender o que eram aquelas frases do Parker. Foi a partir daí que eu quis começar a estudar jazz, improvisação, etc. Procurei o saxofonista Roberto Sion, e ele ajudou a me aprofundar nesse universo.

RC- Não é algo simples transitar pelo repertório orquestral e o da intitulada "música popular" com momentos de improvisação e grande interação entre os músicos. Como você divide estas abordagens para respeitar as linguagens em questão?
AS-
O repertório erudito é o que todo fagotista estuda, é a base tradicional. A história do fagote se desenvolveu pelos séculos através da música erudita. Só Vivaldi escreveu 39 concertos para fagote!! Como eu me formei no repertório erudito, toco na orquestra sinfônica e ainda formo meus alunos na música erudita, eu praticamente não ouço discos de música erudita. Eu praticamente só ouço jazz, faço isso todos os dias. Procuro sempre ouvir novidades e sempre rever os grandes clássicos. (Coltrane, Miles, etc). Logicamente que sempre procuro dividir minha rotina de prática entre o jazz e o erudito, e me apresento com a banda de jazz sempre que possível.

"Eu praticamente só ouço jazz, faço isso todos os dias"

Alexandre Silvério Quinteto RC- Você atua também como um dos intérpretes e arranjadores do "Quinteto de Fagotes da OSESP", fundado em 2011. Como funcionam os arranjos do repertório deste grupo?
AS-
Foi através do Quinteto de Fagotes da Osesp que comecei a escrever meus arranjos. O repertório de quinteto de fagotes era todo erudito, eu vi uma necessidade de adicionarmos jazz ao nosso repertório. Foi a partir daí que comecei a experimentar /escrever arranjos para esta formação. No quinteto, somos dois arranjadores. Eu escrevo os mais jazzisticos, e o contrafagotista Romeu Rabelo escreve os mais eruditos.

RC- O teu fraseado nos solos improvisados mostra uma influência dos saxofonistas. Isso confere?
AS-
Sim. Como eu disse anteriormente, foi através do livro do "Bird" (Charlie Parker) que eu comecei a experimentar o jazz no fagote. Ele me influenciou bastante. Depois passei a ouvir muito o baritonista Gerry Mulligan, por achar o sax barítono relativamente próximo ao som do fagote. Trascrevi alguns solos dele. Quando comecei a tocar jazz, eu não tinha a menor ideia se existiam outros fagotistas de jazz pelo mundo. Não existia Internet, Youtube, nada disso. Existiam pouquíssimos fagotistas tocando jazz pelo mundo, mas eu não tinha a menor ideia da existência deles. Então eles não exerceram influência sobre a minha maneira de tocar. Depois, com a globalização, aumento da tecnologia, passei a conhecer 2 importantissimos fagotistas de jazz, e eles também conheceram meu trabalho, através da Internet. São eles: Michael Rabinowitz (da Mingus Orchestra), e Paul Hanson. Em 2014, a convite de Rabinowitz, toquei com eles dois em Nova Iorque, em um evento da Sociedade Internacional de Instrumentos de palhetas duplas. (IDRS). Link do video desta apresentação está em https://youtu.be/NTxcgKEbMII. Mas eu procuro tocar o mais fagotístico possível, quero que o ouvinte sempre identifique meu som como de um fagote, não de um sax!

RC- Infelizmente não é algo comum o fagote atuar nos repertórios que envolvem muita improvisação. É possível supor que isso mudará cada vez mais?
AS-
Quando eu comecei a tocar jazz no fagote, algumas pessoas me recriminavam, dizendo que o fagote não tinha nada a ver com o jazz. Foi muito difícil continuar minha pesquisa, eu sofri muito com isso. O fagote tem algumas dificuldades técnicas que acabam assustando alguns instrumentistas a tocar jazz no fagote. Eu diria que as maiores dificuldades são:

1- A técnica do fagote é muito difícil.
Conheço alguns saxofonistas que tentaram o fagote e desistiram afirmando que a digitação do fagote é pelo menos 20 vezes mais difícil que o sax. E ainda por cima o fagotista tem que fazer a própria palheta!

2- A questão da amplificação.
Num combo de jazz, o fagote não tem a menor chance se não usar amplificação. Por mais que um baterista toque com volume pequeno, ao adicionar um baixo e um piano, o fagote já desaparece. Por ter um timbre predominantemente grave e ser um instrumento de madeira, ele não tem tanto volume quanto um trompete ou saxofone. Além disso, o fagote emite sons que saem através de diversas áreas do instrumento, não apenas pela campana. Por essa razão, 1 microfone apenas não dá conta de amplificar corretamente um fagote. Amplificar o fagote não é simples. Eu conheço um fagotista americano que usa 5 microfones!!

Eu já investi muito nessa questão da amplificação do som do fagote, já comprei diferentes microfones e amplificadores, até chegar na minha configuração atual de 2 microfones. Mas tive que pesquisar muito, não foi fácil. Nas primeiras formações da minha banda de jazz o fagote não era claramente ouvido, eu não conseguia encontrar uma boa forma de amplificar o fagote. E quando queria ampliar o som, dava muita microfonia, era complicado. Pensei em desistir por causa deste aspecto. Mas hoje estou satisfeito com o resultado que obtive. Atualmente vejo que estão surgindo cada vez mais fagotistas interessados em tocar jazz. Muitos fagotistas me perguntam sobre aulas de improvisação, não só aqui no Brasil, mas em outros países também. Pensando nisso, eu criei um Curso de Fagote Online (www.bassoonlesson.com), onde ensino desde fundamentos básicos do fagote e palheta até e principalmente, a improvisação jazzística. Fico feliz que as pessoas estão percebendo cada vez mais a versatilidade do fagote, utilizando e contribuindo para a história desse instrumento tão precioso e enigmático.

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