Entrevista com Bruno Buzzo

Bruno Buzzo, contrabaixista e compositor fala sobre os CDs que gravou com o Ventura Trio e em Duo com Janice Pezoa. Comenta sobre criação e arranjo, concertos no exterior, letras de músicas e muito mais.

Rodrigo Chenta- Como surgiu o Ventura Trio e o porquê deste nome?
Bruno Buzzo-
O Ventura surgiu da necessidade de registrar um trabalho próprio que vinha nascendo da minha parceria com a Janice. Nós participávamos de alguns grupos juntos, e inclusive eu fazia sub no trio dela, e tínhamos grande interação tocando. Eu compus uma música chamada Ventura, depois de um show do Christian Scott, e quando pintou uma chance de tocarmos no Festival de Santo Antônio do Pinhal, foi o primeiro nome que veio. Eu fiz faculdade, morei com o Marcos e tínhamos grande afinidade, daí ele também foi o nome que pensei para fechar a formação.

RC- O Trio fez uma campanha com 109% na plataforma do Catarse com objetivo de custear parte de uma turnê internacional. Muitos bons projetos não conseguem o sucesso que tiveram. O que é necessário para ter êxito com o crowdfunding?
BB-
Olha, eu acho que é a insistência. Tudo que fizer tem que se doar certo? Eu pesquisei e insisti muito divulgando. Encontrei os horários com mais acessos online e bombardeava com compartilhamentos, e-mails e mensagens pessoais. Acho que por não temos um nome tão conhecido, tínhamos que investir em transparência e foi o que fizemos. Persistimos e acho que foi por aí.

RC- Porque escolheu os EUA e Ásia para esta turnê internacional com o Ventura Trio?
BB-
Assim que o cd ficou pronto, nós enviamos nosso Press kit para várias aplicações nos mais diversos países. Foram destes lugares os contatos mais concretos, e que realmente queriam nosso som por lá.

"... eu adoro percussão no contrabaixo ..."

Bruno Buzzo RC- Como foi a recepção nos locais que se apresentou e o que percebeu de diferenças em relação ao Brasil neste contexto de concertos musicais?
BB-
Foi incrível. Podemos perceber a diferença no trato com a cultura no geral. Em Bali isso é visível, e tivemos status de grandes artistas por lá. Eles gostam muito de música brasileira e apesar de sermos daqui nosso som passeia pelo NUJAZZ, e eles pediam para tocar bossa-nova. E a gente fazia claro, com isso foram pintando outros shows e quase não curtimos o lugar que é maravilhoso. Foi uma experiência muito agradável. Quando você toca, todo mundo fica em silencio ouvindo, realmente apreciando.

RC- No encarte do CD "Ventura" consta que o Trio "... propõem uma fusão de elementos tradicionais com os não convencionais ...". Quais são os elementos não convencionais que exploram?
BB-
Acho que os não convencionais se dão na abordagem de compassos ímpares e harmonias não convencionais. No cd tem músicas em compassos variados, e nas composições harmonias e melodias com influências em Messian, Tritonalismo. Isso está muito presente na música instrumental contemporânea, mas tentamos misturar em alguns momentos com ideias bem tradicionais, por isso do texto.

RC- É interessante o arranjo que fez no contrabaixo acústico na introdução da música "13" ao tocar de forma percussiva. Fale sobre esta concepção.
BB-
Na verdade eu adoro percussão no contrabaixo, as vezes até exagero. Eu sou muito acostumado em tocar com formações sem bateria, e isto fica absorvido. Quando criamos a introdução, era só bongô e como eu tinha concebido o ritmo sempre tinha que passar para o Marcos nos ensaios, uma vez alguém falou não para não e ficou na gravação. Hehe.

"Eu adoro baixo solo ..."

Ventura Trio - CD Ventura
RC- A sua composição "Suíte" dividida em parte 1 e 2 é uma peça com vários climas. Comente sobre a forma e o processo de criação desta música?
BB-
Esta música é o xodó do cd, porque eu não imaginei que gravaríamos. Foi uma música composta para sexteto e além das várias partes existem situações não pianísticas (segundo Janice). A Janice sempre falava, não dá para tocar isso em trio, até que um dia ela mudou de ideia, "vamos tentar que eu acho que vai dar" e rolou. Eu sempre gostei de rock progressivo, e na faculdade tive muito contato com música erudita e percebi de onde vinha a influência deste tipo de rock. Na verdade, esta foi uma composição em que o tema vai se transformando e influenciando a ideia musical seguinte, e quando se pensa nisso é difícil parar, quando se trabalha os próprios motivos eles vão se alimentando até a ideia se concluir. Então eu pensei em uma forma diferente para música, começando com improviso e depois entrando o tema principal, um interlúdio o meio que une os movimentos, e muita influência de compositores como Phillip Glass e Charles Mingus.

RC- O duo que tem juntamente com a pianista Janice Pezoa gravou o disco "Simbiose". Esta formação é complexa e qualquer descuido aparece. O que é necessário para atuar neste formato?
BB-
Verdade, acho que você tem que ter muita parceria mesmo, e entender os defeitos e virtudes do outro músico. Assim se ajudando, você consegue esconder estes descuidos e enaltecer as qualidades. Eu e a Jan tocamos muito nesta formação, mais do que com bateria e por isso nos entendemos. Os dois tem que ser firme com o tempo porque fica muito evidente. Por outro lado, conseguimos fazer coisas a tempo e improvisar de forma mais fluida sem ritmo, e até acelerar ou retardar o andamento mais facilmente. Gosto muito!

RC- Como surgiu o patrocínio do FICC (Prefeitura de Campinas) para a produção deste CD?
BB-
Por meio do edital que acontece no Diário Oficial de Campinas, por algum motivo a Janice nunca conseguia e tem até uma música no cd solo que chama Não Ficc Triste.

RC- Além de contrabaixo acústico e piano existe o acréscimo das vozes e músicas com melodias letradas. Como os dois resolvem a escolha das composições?
BB-
Naquela época (2014) na verdade eu pus letra em 2 músicas instrumentais. Uma gravada no cd Ventura "Esphera" e outra do meu cd Walterama "Slow Boogie", não teve muita escolha, foi uma ideia de tornar nosso som mais acessível, e estávamos começando a cantar juntos, foi assim.

RC- Existem momentos em que o contrabaixo atua sozinho e isso cria interesse, pois difere nas texturas abordadas. Como você faz os arranjos?
BB-
Eu adoro baixo solo, na verdade minhas composições são a extensão disso, eu penso muito em trabalhar a melodia em voga, de um jeito bem diferente da executada. A rítmica é tudo para mim no baixo acústico, as vezes prefiro uma melodia simples com rítmica encrencada, do que o oposto. Então penso em modificar a estrutura e desenvolver o ritmo de maneira clara e digerível.

"... sempre gostei de rock progressivo ..."

Ventura Trio RC- Você escreveu a letra para a música "Esphera", de Janice Pezoa. Como entende a criação de um texto para uma melodia já pronta?
BB-
Difícil esta, a melodia de Esphera já é um plágio de uma música minha... hehehe, bom, na verdade nós trocamos muita informação para as composições e isso facilita, quanto a composição da letra, tenho mais facilidade com o inglês e foi isso que aconteceu.

RC- O teu instrumento musical influencia de alguma maneira no resultado da composição e arranjo?
BB-
Sim, sem dúvida, tudo o que os outros instrumentos tocam são aquilo que o baixo não pode fazer, hehe... mais ou menos, como se fosse uma extensão e complementação. E fora que adoro o groove e isso já me responsabiliza.

RC- Nos CDs "Ventura" e "Simbiose" você foi o responsável pela parte gráfica. O conteúdo musical destes trabalhos te influencia de alguma forma na hora de organizar os elementos dos respectivos encartes, capas, contracapas, etc?
BB-
No Ventura sim, a ideia de um som mexendo com a métrica foi o que me influenciou na escolha dos cubos da capa, e os cubos me influenciaram na escolha da cor e textos, assim como nas composições, para mim tudo é um grande improviso. Já no Simbiose, nós fizemos uma sessão de fotos, e as fotos levaram para aquela arte mais classuda, talvez eu ache o som mais despojado do que a arte sugere, mas foi do jeito que acabou ficando.

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