Entrevista com Conrado Paulino

Conrado Paulino, violonista, improvisador, compositor e professor fala sobre seus CDs gravados, composições, arranjos, seu livro "Como construir, distribuir e cifrar os acordes", timbres de violão, influências musicais e muito mais.

Rodrigo Chenta- Eu gostaria que falasse como define o título dos teus CDs.
Conrado Paulino-
O primeiro CD chama "Quarteto", e tem esse nome porque eu estava sem ideia nenhuma, e acabei destacando a formação do grupo no título. Na capa o texto "Conrado Paulino" tem uma cor diferente de "Quarteto". A ideia era diferenciar o artista do título do CD. Mas não foi uma boa ideia, não ficou muito claro. Meu segundo CD foi gravado ao vivo na Argentina por encomenda do Museu Renault de Buenos Aires, que fez um show comemorando os 50 anos da Bossa Nova. Eu não pude escolher o nome desse trabalho, que ficou "Conrado Paulino: Uma noche em el Museo". O meu terceiro CD é de violão solo, e saiu em 2010. Nesse caso escolhi o nome mais conscientemente. Chamei-o de "Wrong way", no sentido de "contramão". E, de fato, na época da gravação eu me sentia – e me sinto ainda - um violonista na contramão da sonoridade atual do violão brasileiro, que em alguns casos se tornou "pesado", muito virtuose, com muitas notas. Isso não significa que seja ruim, mas é o oposto do meu som e, por estar numa corrente minoritária estilisticamente, começou a me dar uma certa solidão. O meu estilo é introspectivo - poderia até chamá-lo de delicado - e com uma forte preponderância de harmonia e não de "groove". Não há melhor nem pior, mas, pelo menos naquele momento, eu estava entrando em "Wrong way", na contramão. Por último, o meu quarto CD teve sim um nome planejado. Mais do que isso, o CD todo tem um conceito geral que influenciou a escolha das músicas e a sequência delas no CD. O nome é "Quatro Climas" e eu associei cada música a uma das quatro estações do ano, classificando-as de "musicas-primavera", "musicas-verão" e assim por diante. Na época da gravação eu estava saindo de uma situação pessoal delicada e me sentia saindo de um escuro inverno, já entrando em uma promissora primavera. Por isso cada música tem essa associação afetiva com as estações e isso é indicado a través de ícones na capa.

RC- É fato que nos CDs que gravou mesclou músicas de autores consagrados a tempos e outras escritas por você. Qual o teu critério para eleger o que fará parte efetivamente de um álbum?
CP-
Exceto no último trabalho, não planejei muito o que ia gravar nos outros três trabalhos. Gravei o que tinha vontade de tocar e o que tinha disponível no momento da gravação. O que sim foi planejado foi, no caso dos CDs do Quarteto, quem fazia os improvisos e a ordem dos mesmos. No CD "Quarteto" as músicas já faziam parte do repertório do grupo, fazia falta gravá-las. No CD "Wrong Way" aconteceu o contrário: fiz uma pré-produção, escolhi vários arranjos meus de violão que eu achava bacana, estudei e fui para o estúdio. Mas, quando comecei a gravar as músicas, percebi que o CD estava ficando mais próximo do trabalho de violonista clássico – que não sou – do que de alguém que lida com música popular e improvisação. Por ironia, justamente num CD que tinha feito um certo planejamento do repertório, acabei mudando boa parte das músicas, desperdiçando takes e horas de estúdio com algumas (poucas) músicas que foram gravadas mas que não foram aproveitadas. Já o CD "Quatro Climas" teve mais planejamento graças à questão do conceito geral que expliquei antes. Um detalhe interessante é que em todos os CDs fiz uma lista das músicas separando-as por tom, andamento, estilo, se tem improvisação, quem faz essa improvisação, etc, para dessa forma encontrar a sequência ideal das músicas.

RC- Fale sobre a maneira que usa para compor suas músicas.
CP-
Não tenho um processo definido nem uma rotina para compor, nem sou do tipo de compositor que "senta para compor". A maioria das minhas composições surgiram de forma espontânea, sem muita elaboração. Na maior parte das vezes, eu estou tocando violão ou piano e de repente surge uma ideia, vou seguindo a intuição e pronto. Não sei se isso é bom ou é ruim, mas comigo sempre foi assim. Mas nem todas as ideias prosperam. Pelo contrário, muitas são descartadas ou acabam esquecidas.

"O meu estilo é introspectivo - poderia até chamá-lo de delicado - e com uma forte preponderância de harmonia ..."

Conrado Paulino RC- No CD "Quarteto" gravou a música "Samba da minha terra" que posteriormente saiu em nova gravação em "Wrong way" como bônus track. Como surgiu esta ideia de usar a mesma música?
CP-
Eu gostei muito desse arranjo e achei que merecia uma nova oportunidade de ser notado. Além disso, o CD "Wrong Way" tinha um certo excesso de músicas lentas, fazia falta um tema mais animado para equilibrar o mix do CD. Tem um detalhe curioso: essa faixa foi re-mixada para entrar no Wrong Way. Era necessário aproximar o som do violão dessa música com o som médio do CD. E, além disso, na versão original usei um timbre Midi junto com o violão, na época eu curtia. Mas no CD Wrong Way usei somente o som do violão natural, então aquele som Midi não combinava com o resto do disco.

RC- No álbum "Wrong Way" atuou basicamente o trabalho todo de maneira solo. Conte como foi o processo de captação do teu instrumento para chegar no timbre deste CD?
CP-
Infelizmente não sou do tipo que presta atenção e conhece a questão técnica. Tem colegas que entram no estúdio já sabendo qual microfone querem usar, onde posiciona-lo, qual é o pré-amplificador e outros detalhes, como é o caso do mestre Marco Pereira. E muitas vezes até levam seu próprio (bom) microfone para o estúdio. Eu tenho uma ideia de microfonação básica, aquela de um microfone perto do cavalete e outro apontando para a 12ª casa. Mas já gravei de dezenas de jeitos diferentes e também deram bons – e maus - resultados. Pela minha experiência, não há um jeito melhor. Depende demais da sala, do instrumento, do instrumentista, do pré-amplificador e do técnico. Se o técnico for experiente e de bom gosto, o melhor jeito de gravar vai ser o que ele indicar, visto que ele conhece a sala, sentiu o tipo de pegada do violonista e a sonoridade do instrumento, etc. É como um médico, tem que confiar no profissional.

RC- Neste mesmo trabalho escreveu no encarte três tipos de arranjos identificados por ícones. Esta informação é interessante e mostra um pouco do pensamento do músico. Comente este ponto.
CP-
Foi consequência do que comentei antes: eu não queria um CD de alguém que toca as peças sempre igual, como um violonista erudito (e não há crítica nisso, são propostas estéticas diferentes). Quando tive a lista do repertório definitivo senti necessidade de mostrar ao ouvinte a diferença entre um arranjo "fechado" – aquele que sempre toco quase 100% igual – um arranjo semi-aberto, que tem uma parte improvisada, e um arranjo absolutamente improvisado, como é o caso de quatro das quatorze músicas do CD. Também achei importante e até didático que o ouvinte – principalmente o leigo – saiba que há partes que foram improvisadas no momento, eu acho que isso muda a apreciação.

RC- Em "Wrong Way" há uma questão interessante, pois, em algumas músicas usou percussão como em "Olha para o céu" e sopro como em "Só danço samba". Como você definiu isso nos teus arranjos?
CP-
Em "Só danço samba" eu sentia falta de um reforço na melodia, e além disso o arranjo tem um tipo de "improviso escrito" ("improfixo", como diz o meu querido colega Omar Campos), que são uma série de frases que ficam bem mais impactantes e incisivas quando tocadas em uníssono com outro instrumento, principalmente um que tenha bom "sustain" e ataque, como é o caso do clarinete. Também senti falta de uma condução rítmica mais explícita em "Olha para o ceu" (Jobim), por isso coloquei percussão. E no caso de "Ai ai ai ai ai", que foi tocada com ritmo de Son montuno cubano, a percussão era imprescindível.

"A maioria das minhas composições surgiram de forma espontânea, sem muita elaboração."

Conrado Paulino - CD 4 Climas
RC- No encarte houveram algumas homenagens que fez ao dedicar músicas ao Guinga, Hélio Delmiro, Baden Powell e Joe Pass. O que estes nomes representam para você?
CP-
São minhas quatro principais influências no instrumento, muito importantes na minha formação e na minha memória afetiva. Em "Manhã de Carnaval" eu cito a introdução original feita pelo Baden na sua versão em trio ao vivo na Alemanha. "Don’t blame me" tem todo o jeito do Joe Pass, sem querer comparar, claro. Mas é essa ideia de fazer chord melody, rearmonizar, improvisar na reexposição do tema, usar bastante inversões, bem no estilo do mestre. O Hélio Delmiro tem um lado muito próximo do Joe Pass, basta ver os vídeos dele tocando standards de jazz de forma improvisada, principalmente um vídeo já lendário em que ele toca "All the things you are", é impressionante. Eu achei que minha versão de "A saudade mata a gente" tinha um pouco a cara dele. E o Guinga é, além de compositor genial, é um grande harmonizador. Basta ver a versão dele de "Estrada Branca", de Jobim. Como eu gravei "Dindi" bastante rearmonizada, decidi dedicar essa música a ele, quem considero um dos maiores gênios da história da música brasileira e um marco na história, como foram Pixinguinha e Jobim.

RC- No CD "4 climas" propôs uma formação instrumental maior comparada com o trabalho anterior. Tocar em grupo é bastante diferente de tocar de maneira solo. O que você poderia salientar de diferenças nestas duas experiências?
CP-
Eu tenho dois trabalhos bem diferentes, como solista e com o meu Quarteto, e adoro ambos. Como solista de violão se destaca meu lado de intérprete e de criador de arranjos para violão, eu viro uma espécie de "versionador" de canções. Já no meu Quarteto posso mostrar meu lado compositor e improvisador, além de arranjador. É bem diferente. Por um lado, no Quarteto a exigência técnica é menor já que a interpretação da música é dividida entre os outros colegas. Mas a exigência musical é maior, é preciso prestar atenção à dinâmica, às sugestões rítmicas da "cozinha", às ideias da pianista, e tudo isso é bem diferente em cada apresentação. Tem que estar mais "antenado" e concentrado musicalmente. Mas mesmo nos shows do Quarteto sempre reservo uma parte do set list para uma ou duas peças de violão solo. Eu particularmente sinto um pouco de dificuldade de me manter em dia para as duas atividades. O trabalho de solista me exige praticar as peças, repeti-las muitas vezes, prestar atenção em detalhes técnicos e praticar a improvisação do tipo "auto-acompanhada". Já para tocar com o Quarteto tenho que me manter esperto na improvisação "single note", ou seja, a improvisação jazzística, mais próxima da guitarra. Isso é bem diferente do que praticar peças, tanto a nível de musicalidade como – principalmente – a nível de raciocínio musical.

RC- Neste álbum você usou tanto o violão como a guitarra. Tem músico que toca quase de maneira igual nos dois casos. Como você entende a dialética destes instrumentos?
CP-
Eu acho que isso de tocar violão ou guitarra de forma indiferente é característico da escola brasileira. Vários dos grandes referentes tocam guitarra e violão sem fazer diferença entre um e o outro. Toninho Horta, Lula Galvão, Hélio Delmiro, Chiquito Braga, Romero Lubambo, Chico Pinheiro, Juarez Moreira, e outros passam de um instrumento para o outro sem mudar praticamente nada. Acredito que isso vem da guitarra-jazz, que é muito próxima do violão. Inclusive o primeiro disco importante de Joe Pass, o lendário "Catch me", foi gravado com violão (com cordas de aço). O meu mega ídolo Lenny Breau tocava indiferentemente guitarra e violão, e há vários guitarristas de jazz que, assim como tem uma guitarra entre as mãos, poderiam ter um violão e não mudaria nada. É o caso de Martin Taylor, Ted Greene, Tuck Andress e outros. Acho que a escolha entre um e outro passa mais pela questão do timbre. Por exemplo, na música "Gêmeos" eu achei que o timbre da guitarra combinava mais com o contexto geral, assim como em "It might as well be spring". Mas tanto no violão como na guitarra eu toco com os dedos, sem palheta, assim como Helio Delmiro, Lenny Breau, Martin Taylor, Ted Greene, Mick Goodrick e até rockeros como Mark Knofler.

RC- No encarte deste CD consta uma identificação das 4 estações vinculadas a cada música. Fale sobre esta relação?
CP-
Na ocasião da gravação do CD eu estava numa fase bem ruim, tinha acabado de me separar, entre outros problemas pessoais, e vinha de um outono nublado que me mergulhou numa espécie de inverno triste. Mas pouco a pouco a situação foi melhorando e comecei a sentir um novo ânimo para ir em frente, e esse ânimo me levaria a uma primavera – símbolo do renascimento – e, se tudo desse certo, a um verão, a estação da alegria. Eu senti que as músicas do CD refletiam esses estados de ânimo, havia músicas que foram feitas nos tempos alegres – o verão antes do outono – e outras que eram fruto dos tempos ruins. Mas, no fim, chegava uma primavera que anunciava um novo verão. Associa-las com as estações do ano me pareceu natural. Fiquei feliz de ver meus sentimentos traduzidos em canções e, mais uma vez, achei importante explicar isso para o ouvinte através dos ícones.

"Fiquei feliz de ver meus sentimentos traduzidos em canções ..."

Conrado Paulino RC- Comente o arranjo da música "Anna Julia" de Marcelo Camelo?
CP-
Eu adoro arranjar músicas "improváveis", ou seja, aquelas canções que meus alunos juram que eu nunca ouvi e/ou nem sei que existem. Tenho vários arranjos de músicas de axé, sambão, brega, etc. Eu acho muito divertido. E tem várias dessas composições que na realidade não são ruins e tem muito potencial para um bom arranjo. O que é ruim é o arranjo original, a instrumentação ou a sonoridade datada. E esse é o caso de "Ana Julia" na minha opinião. Acho uma boa composição que precisa ser "resgatada" da versão original e colocada no contexto certo. É o caso de muitas das composições dos Beatles, ou de Caymmi.

RC- Você tem alguns livros e métodos já lançados e que abordam assuntos como improvisação, harmonia, etc. Como descreveria o diferencial destes materiais?
CP-
Sem falsa modéstia, analisando o que é oferecido no mercado, acho meus métodos bastante úteis e originais. O método "Construção, distribuição e cifragem de acordes" não tem similar, não conheço outro que explique tão detalhadamente a formação dos acordes, o que funciona e não funciona. E os meus métodos de improvisação tem uma abordagem oposta a muitos métodos que tratam desse assunto. A maioria tende a ensinar "desenhos" de escalas, isto é, o estudante aprende "onde é que aperta" e não música e criatividade. A minha proposta é justamente combater a memorização de desenhos de escalas e fazer o aluno estudar de forma a desenvolver equilibradamente a musicalidade, o raciocínio musical e a técnica através da improvisação. Tenho ainda um álbum com alguns dos meus arranjos para violão. Não há muito material similar na praça.

RC- No livro "Como construir, distribuir e cifrar os acordes" falou sobre as 19 regras principais da construção de acordes. Alguns pensariam no porquê de não serem 18 ou 20 regras. Como chegou a esta conclusão?
CP-
Vou pensar se sobrou alguma ou se ficou faltando uma... Não lembro porque ficou esse número, mas certamente foi fruto da minha experiência como professor. Algumas das "regras" citadas em esse método são bem conhecidas e sem discussão, outras eu adicionei porque são consequência de erros comuns entre os alunos, era necessário prever esse erro recorrente.

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