Entrevista com Hercules Gomes

Hercules Gomes, pianista e compositor fala sobre o seu CD solo intitulado "Pianismo" e o com a Orquestra Sinfônica de Campinas, prêmios recebidos, grupos instrumentais com quem já gravou, processo criativo e muito mais.

Rodrigo Chenta- Você tem experiência atuando tanto na música erudita de concerto como na que envolve momentos de improvisação, chamada por alguns simplesmente de "popular". A maioria das pessoas não caminha pelos dois mundos. Como você entende esta relação?
Hercules Gomes-
Eu comecei tocando violão como autodidata. Meu pai me ensinou os primeiros acordes. Logo depois, por conta, própria comecei a tentar passar esses acordes de ouvido para um teclado que depois de um ensaio haviam deixado lá em casa. Minha formação inicial foi assim: autodidata ao contrário da maioria dos pianistas. O contato com a teoria musical e o piano acústico só fui ter aos 17 anos quando entrei em um conservatório. Isso me serviu de base para que eu pudesse entrar na faculdade. Com 19 anos ingressei no curso de música popular na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). E foi essa a época divisora de águas. Em certo momento do curso eu quis aperfeiçoar a técnica. Até então eu nunca tinha estudado piano clássico efetivamente. Foi nessa época que conheci o Silvio Baroni. Silvio ensina uma técnica muito peculiar de piano e é um professor muito dedicado, que faz os alunos quererem evoluir, ir para frente. Isso foi tão impactante pra mim que tranquei o curso de música popular e passei a estudar só erudito com ele. Por uns 4 anos eu estava decidido a seguir carreira como intérprete (piano erudito), porém houve um concurso em que o Silvio não foi aprovado e isso afetou muito todos os alunos. Muitos pararam de tocar piano, inclusive. Eu voltei a tocar música popular, só que depois de descobrir um novo mundo estudando o clássico nunca mais consegui tocar piano da mesma forma que antes! E foi aí que comecei desenvolver a forma de tocar piano que toco hoje.

A maioria das pessoas não caminha pelos dois mundos simplesmente porque é impossível ser um pianista do nível da Marta Argerich e o Keith Jarret ao mesmo tempo. Não dá tempo, seriam necessárias umas 3 vidas rs... Então, respondendo à pergunta: na verdade não considero que caminho pelos dois mundos, mas sim que encontrei uma forma de tocar piano que une um pouco das duas coisas, ou seja, a liberdade de criação da música popular e ao mesmo tempo os desafios e o conhecimento da música clássica.

RC- Gravou em 2016 com a Orquestra Sinfônica de Campinas o CD "Concertos Cariocas". Interpretou o concerto nº 2 de Radamés Gnattali de forma brilhante. Fale sobre este trabalho.
HG-
Foi a realização de um grande sonho! Já fazia um tempo que a música do Radamés vinha me influenciando. Cada nova obra que eu descobria me impressionava mais. Radamés não foi um compositor que ficava em cima no meio do caminho entre o erudito e o popular. Ele era sim um compositor que fazia as duas coisas muito bem. E ao mesmo tempo fazia com muita propriedade um terceiro tipo de música que era a junção das duas coisas. É o caso dos Concertos Cariocas. Os integrantes do grupo Quatro a Zero, do qual participei muito tempo atrás, já vinham pesquisando sobre o Concerto Carioca nº 3 fazia anos. Então conseguiram tocar esse concerto, que era inédito, com a Orquestra Sinfônica de Campinas. Daí surgiu o convite para gravar CD da OSMC com o integral dos Concertos Cariocas do Radamés. Eles precisavam de mais um pianista, e foi aí que me convidaram. Já sabiam que eu era fascinado pela música do Radamés. O CD foi gravado em 2015 e lançado em 2016. Os 3 concertos gravados foram o Concerto Carioca nº1 (para piano, guitarra elétrica e orquestra), Concerto Carioca nº 2 (para piano, contrabaixo, bateria e orquestra) e Concerto Carioca nº 3 (para 2 pianos, guitarra elétrica, acordeom, contrabaixo, bateria e orquestra). Foi um trabalho extremamente desafiador em que aprendi muito. Sempre tive o sonho de tocar com orquestra, mas não imaginei que esse sonho se realizaria já em estúdio e com o REC apertado rs...

RC- Participou do grupo de música instrumental brasileira chamado "Amanajé" que lançou três CDs. No segundo, intitulado "Suíte Urbana", gravou sua interessante composição "Familia dell Rey" dividida em três partes. Comente esta obra.
HG-
Eu fiz baseado em uma novela (literária) que minha esposa estava escrevendo na época. No fim a história nunca ficou pronta, porém fiz a música assim mesmo. São 3 músicas que fazem parte da suíte e que seriam inspiradas nessa história completando 3 movimentos da suíte: O Poderoso Mark, Em Pleno Largo Melo Dote e Induzido ao Acaso. Cada uma com um ritmo diferente que retratava uma passagem da novela.

"... os pianistas que tocam música popular se interessam mais em estudar e tocar jazz do que a música brasileira mais tradicional. "

Hercules Gomes RC- Me parece que atualmente existe uma parcela grande de pianistas que se interessam mais pelo jazz do que pela música brasileira como o choro, por exemplo. O duo que tem com o flautista Rodrigo Y Castro seria uma forma de resgate do piano nesta estética musical?
HG-
Isso é um fato hoje em dia: os pianistas que tocam música popular se interessam mais em estudar e tocar jazz do que a música brasileira mais tradicional. Eu acredito que isso seja muito devido à falta de escola, métodos que ensinem música brasileira no piano. Além disso faltam referências. Já que estamos falando em choro, muitos grandes pianistas que tocavam bem choro são pouco lembrados hoje em dia. Radamés Gnattali, Tia Amélia, Maestro Gaó, Carolina Cardoso de Menezes são alguns exemplos. Muitos discos que foram lançados em 78RPM ou LPs não foram relançados em CD e muito menos em formato digital. Além de gravação encontrar partituras desses pianistas é muito difícil. Com isso a história acaba se perdendo um pouco. O DUO acaba sendo de certa forma um resgate desse estilo de se tocar piano sim. Tocar com o Rodrigo é uma verdadeira escola pra mim, pois além de chorão autêntico é um grande músico, grande instrumentista com um conhecimento gigante sobre música. Nos damos muito bem.

RC- No teu primeiro CD solo "Pianismo" ficou totalmente exposto e qualquer deslize aparece neste formato. Fale como foi o processo de captação do áudio na gravação.
HG-
Eu tive muito cuidado porque eu tinha uma ideia muito clara de como queria que o disco soasse. Por isso começou desde a escolha do piano (um Yamaha CFX Concert), pois havia coisas muito difíceis de se executar e se o piano não respondesse bem certamente eu não conseguiria o nível de execução que queria. Depois a escolha de um estúdio que tivesse uma boa sala e bons equipamentos (miss, presidente, etc.). E além de tudo a escolha de um técnico que pudesse captar bem o som da forma que eu pensava. Era um projeto que já sonhava há muito tempo. Felizmente consegui fazer da forma que sonhei!

RC- Neste trabalho há uma interação de gêneros musicais díspares e com obras tanto suas como de outros compositores. Como fez para decidir o que entraria ou não nesta produção?
HG-
Sim, mas ao mesmo tempo que os gêneros são diferentes a música brasileira os une. O conceito do disco é inteiramente de música brasileira. A decisão foi natural. Sempre gostei muito de rítmicos brasileiros, especialmente os tradicionais. Por isso gravei choro, baião, maracatu, valsa, jogo, etc. Gosto muito de explorar essa riqueza no piano, principalmente porque muitas coisas ainda precisam ser "inventadas" no piano, ou seja, transpostas de sua instrumentação e formato originais para o piano. Eu gosto muito desses desafios. Sobre composições, eu não queria gravar um disco inteiramente autoral porque gosto muito de criar em cima do que já existe. E ao mesmo tempo gosto de compor. Então fiz meio a meio rs...

"Sempre gostei muito de rítmicos brasileiros, especialmente os tradicionais."

Hercules Gomes - CD Pianismo
RC- Discorra sobre o título do CD "Pianismo".
HG-
"Pianismo" é uma palavra que oficialmente não existe no dicionário, porém é muito usada por pianistas pesquisadores para se referir ao estilo, às qualidades, às principais características de um pianista ou de um compositor. Por isso se fala por exemplo do pianismos de Chopin, ou seja, de sua forma de compor para piano. Do pianismo de Vladimir Horowitz, se referindo ao seu estilo avassalador de interpretar peças ao piano. É um termo mais usado no ambiente da música clássica.

RC- A tua composição "Apucarana", gravada neste álbum possui um clima onde trabalhou um interessante ostinato. Comente o teu processo de composição?
HG-
Meu processo de composição é bastante intuitivo. Geralmente sento ao piano e começo a improvisar. Guardo as melhores ideias e assim as composições vão nascendo... Apucarana foi uma música que compus pra ser gravada nesse disco (Pianismo). É uma composição com formato simples de tema e improviso. Algumas músicas componho como peças, totalmente escritas e para serem tocadas no piano. Outras, como Apucarana por exemplo, componho pensando em grupo e geralmente essas são composições mais fáceis de se adaptar quando toco em trio por exemplo. Então quando compus o ostinato foi pensando no contrabaixo e na condução rítmica da música.

RC- É possível afirmar que o disco tem muita parte escrita e que soa bastante rítmico com várias linguagens? Comente a questão.
HG-
Sim, esse disco é praticamente 90% escrito, mesmo alguns trechos que soam improvisos como na Duda no Frevo são escritos. Há dois compositores que me influenciam muito e apesar da distância geográfica e temporal tem coisas em comum: Radamés Gnattali e Nikolai Kapustin. Ambos pagam música popular e transformam em música escrita somando o conhecimento da música de concerto, do piano clássico. A diferença é que Radamés fazia isso muito bem com música brasileira, com o choro especialmente. E Kapustin faz isso com o Jazz. Porém o que me fascina é que ambos fizeram com muita propriedade, sem perder a linguagem. O que busco hoje é uma linha parecida, utilizando, entretanto, ritmos brasileiros tradicionais como choro/samba, forró, maracatu, frevo, etc. Obviamente já toquei de tudo e influências de jazz e música clássica sempre se somam a tudo isso.

RC- "PECH" e "Pano pra manga" são grupos onde participou gravando inteiramente os seus respectivos CDS. É interessante que em cada um existe uma pequena diferença na tua forma de tocar. Você concorda que tocamos conforme as pessoas que dialogamos musicalmente?
HG-
Sim, sem dúvida! Os dois grupos eram completamente diferentes e o som que faço hoje também é completamente diferente dos dois. Quando se toca em grupo, de duos até Big bands ou orquestras sinfônicas, sempre tento me adaptar à música, à linguagem trabalhada em cada situação. Obviamente quando você segue uma linha os convites que aparecem na maioria das vezes são para trabalhos que não fogem tanto dessa linha. Porém acho importante um músico não se ter nenhum tipo de preconceito com tipos de música diferente exatamente por isso: quanto mais experiências músicas vividas mais se amplia a capacidade de se adaptar a diversas situações. Sempre brinco dizendo que já toquei de banda de pagode a orquestra sinfônica, passando por grupo de jazz, choro, big bands rs... e é verdade.

RC- Fale sobre o projeto das transcrições nazarethianas.
HG-
A ideia das transcrições é exatamente fazer releituras contemporâneas da música do Ernesto Nazareth aplicando toda carga de influências que tenho de pianistas e também de outros instrumentistas que viveram principalmente depois do Nazareth. Então utilizo a palavra transcrição no sentido de um novo arranjo, uma nova versão, uma releitura das músicas dele. O desafio desse trabalho está no fato de criar algo novo, algo que as pessoas reconheçam como atual, entretanto sem perder a essência do original. As transcrições são também em sua maioria virtuosísticas, difíceis de serem tocadas tecnicamente falando, e essa é uma outra característica.

"Sobreviver de música não é fácil."

Hercules Gomes RC- Como foi a experiência de se tornar o vencedor do prêmio MIMO instrumental e do Nabor Pires Camargo?
HG-
Foi muito especial! Infelizmente hoje em dia existem pouquíssimos prêmios para instrumentistas no Brasil. O Prêmio Nabor e o Prêmio MIMO são dois que tem durado. E torço para que continuem durando porque a música brasileira precisa desse tipo de incentivo. O instrumentista brasileiro precisa desse tipo de incentivo!

O Prêmio Nabor serviu como um impulso para que eu decidisse gravar o meu primeiro disco, foi muito importante. O Prêmio MIMO também foi muito importante, mas principalmente pela visibilidade nacional que proporcionou. Muitas pessoas conheceram meu trabalho depois da MIMO. Foi muito bom ter participado!

RC- Existem músicos fantásticos e medíocres com apoio de várias empresas no ramo da música e você, me referindo ao primeiro caso, tem o apoio da Yamaha. Como surgiu esta parceria?
HG-
Faz muito tempo que gosto dos pianos Yamaha, muito antes de ser endorsee da marca. Quem sempre me apoiou muito foi o pessoal da A Loja de Pianos (representantes da Yamaha). Depois que gravei meu primeiro disco com um Yamaha CFX que era deles, eles passaram a apostar bastante no meu trabalho. A partir dessa amizade surgiu o convite para entrar como endorsse da Yamaha, efetivamente em 2016. Isso pra mim tem sido muito importante pois a marca me apoia muito sempre que preciso, principalmente nos eventos mais importantes em que preciso de excelentes pianos.

Os pianos da Yamaha são os que melhor respondem ao meu jeito de tocar. São muito bem equilibrados tanto na mecânica quanto sonoramente. Eles também têm uma precisão e uma durabilidade excepcionais. Sempre que vou tocar em Yamaha fico tranquilo, vou fazer o show despreocupado.

RC- É comum o músico profissional atuar em várias atividades como o ensino, gravações, concertos, transcrições, etc. Alguns pensam que o ideal seria se dedicar inteiramente a uma área. Como entende esta polêmica?
HG-
Sobreviver de música não é fácil. E um dos maiores desafios está relacionado a isso: tem que se ter um jogo de cintura, uma flexibilidade enorme e muitas vezes isso acaba definindo o perfil de músico que a gente se torna. Muito difícil viver só e tocar, só de show. Muito difícil também viver só de aulas ou só de produções e gravações. Na maioria das vezes a gente acaba tendo que fazer de tudo um pouco. E eu particularmente gosto muito de fazer um pouco de tudo. Acho que isso amplia a visão de música. Eu particularmente gosto principalmente de palco e aulas. Hoje em dia além dos shows dou oficinas, workshops e aulas particulares com frequência. Produções acabo fazendo mais as minhas próprias.

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