Entrevista com João Paulo Amaral

João Paulo Amaral, violeiro, compositor e professor fala sobre o grupo Conversa Ribeira, a Orquestra Filarmônica de Violas, seu CD "Viola brasileira", arranjos, gravações, mestrado sobre Tião Carreiro e muito mais.

Rodrigo Chenta- Em teu CD "Viola brasileira" gravou a música "Túnel do tempo" sozinho. Esta gravação privilegiou o belo timbre que tirou da viola caipira. Conte como foi o processo de captação do teu instrumento.
João Paulo Amaral-
Gravamos com três microfones. Os técnicos do Estudio Síncopa sugeriram que além da forma mais convencional utilizando um par de microfones iguais, posicionados próximos ao braço e cavalete, usar mais um terceiro centralizado entre esses dois. Nessa montagem usamos um par de Neumann km 184 (passando por um pre amp Neve 1073) e um centralizado Neumann U87 (passando por um pre amp Manley).

RC- Neste trabalho a viola caipira teve uma nova roupagem ao se unir com a formação instrumental de bateria e contrabaixo acústico. Fale sobre a concepção do projeto.
JPA-
Isso mesmo. Quando pensei em gravar meu primeiro disco solo, essa foi a ideia: utilizar minhas composições e arranjos para viola numa instrumentação mais moderna em relação ao que já havia sido gravado com esse instrumento tão tradicional. Até porque, as próprias composições e arranjos alinhavam-se com essa concepção em vários aspectos (harmônicos, melódicos, rítmicos, etc), mesmo que ao mesmo tempo as músicas estivessem sempre dialogando com as linguagens e toques tradicionais da viola. Somado a isso, tem a coisa da improvisação. Desde a época do Trio Carapiá, eu já procurava incluir espaços pra improvisação com a viola, coisa que ainda é bem raro de se encontrar com esse instrumento. Acho que essa vontade tem relação com minha experiência e estudo como guitarrista, com o interesse pelo jazz, a música instrumental brasileira, etc. Assim, pensando nessas características e influencias, queria uma formação que pudesse deixar a coisa um pouco mais livre, com abertura para momentos de improvisação e interação constante entre os músicos, e para isso a formação em trio é muito boa. No início do projeto, procurei o Alberto Luccas, que além de excelente músico, já era velho amigo e parceiro em outros trabalhos. Após experimentarmos algumas ideias apenas de viola e contrabaixo, pensamos em quem seria o baterista/percussionista certo, e então chegamos até o Cléber Almeida que para minha alegria topou completar o time. Fiquei muito feliz com o resultado que nasceu rapidamente. Após alguns ensaios, entramos no estúdio e gravamos ao vivo.

RC- A capa deste CD é curiosa. Comente o significado dela.
JPA-
Legal a pergunta, pois as pessoas as vezes tem essa curiosidade. Foi uma ideia do pessoal do Estúdio Risco que fez a arte gráfica. Eles ouviram o CD e conversaram comigo sobre a estética musical do disco. Como na proposta musical encontramos elementos da tradição da viola sob um olhar contemporâneo, sugeriram a foto dessa parede de concreto, que fica no interior do MASP. Nessa foto da parede pode-se identificar tanto a matéria prima mais bruta da areia, pedra e cimento (que simbolizam as tradições e linguagens da viola), quanto o concreto pronto e acabado, onde esses elementos estão fundidos, já manuseados e misturados de forma mais homogênea (o que simboliza a síntese estética e os elementos mais contemporâneos presentes no nosso som).

"... a viola e a música caipira nos ensinam que o simples muitas vezes é o mais bonito."

João Paulo Amaral RC- Quais afinações usou para tocar as músicas desta gravação?
JPA-
Utilizei três afinações: o Cebolão em Ré, Cebolão em Mi e a Boiadeira (5o par em Sol).

RC- Discorra sobre os quatro momentos da música "Serra do Itapety".
JPA-
Assim como outras musicas do CD, essa nasceu originalmente para viola solo. Compus esta em 2005 para integrar a trilha sonora do documentário "Divino Espírito Popular", de Pedro Abib, que documenta a centenária Festa do Divino Espirito Santo de Mogi das Cruzes, minha cidade natal. Serra do Itapety é a serra que margeia a cidade. Quando mais tarde resolvi regravar ela com o trio para o CD Viola Brasileira, ampliei um pouco a música inicial e acabou virando quase uma suíte, por isso posteriormente batizei os trechos como espécies de movimentos relacionados a eventos e temas da natureza: "amanhecer", "queimada", "mitos e bichos da mata" e "entardecer". Difícil colocar em palavras as características dos movimentos, mas dá para entender como cheguei nos respectivos nomes: o primeiro, "amanhecer", tal como o evento natural, é marcado por um tema curto, em andamento lento, que vai se desenvolvendo e se transformando de forma gradativa. O segundo, "queimada", é mais forte, violento e tenso, após um repouso, inicia e se alastra rapidamente guiado por um ponteio rápido da viola que desemboca no tradicional ritmo do pagode caipira. O terceiro, "mitos e bichos da mata" trás um improviso mais livre na viola acompanhado pelo baixo e bateria, e que oscila entre melodias tonais e atonais - o que me pareceu traduzir um pouco do espírito dos mistérios dos mitos e bichos da mata que inspiraram tantas lendas brasileiras. E finalmente o "entardecer" que retoma o ciclo do tema inicial do primeiro movimento, como se as coisas voltassem ao lugar e se harmonizassem, encerrando a música.

RC- Fale sobre a direção e a regência da Orquestra Filarmônica de Violas.
JPA-
A Orquestra Filarmônica de Violas foi e ainda é uma escola para mim. Surgiu em 2001 em Campinas, e é um projeto pioneiro do mestre Ivan Vilela. Assim como fazem os Ensembles ou orquestras de violões por exemplo, a ideia na Filarmônica era diferente das diversas orquestras de violas que começaram a surgir, pois sem abandonar as linguagens e ritmos da viola, aplicava arranjos mais elaborados, escritos em várias vozes, dividindo o grupo em naipes de violas. Ele permaneceu a frente do grupo por 10 anos, e nesse período gravamos 2 CDs e todos nós aprendemos bastante com ele. Depois que ele saiu, tivemos vontade de manter o grupo, e após um período de transição, naturalmente acabei assumindo a função de diretor. É bonito de ver que o grupo vem evoluindo naturalmente com os anos. Parte dos integrantes que no início eram em maioria músicos amadores ou estudantes de música como eu era, gradativamente vem se profissionalizando. Nos últimos anos, todos têm se empenhado em melhorar na busca por um resultado musical coletivo cada vez mais bonito. Essa vontade é também um desafio constante – trabalhamos bastante nos ensaios para aprimorar nossa interpretação, dinâmica, técnica, etc. No CD que vamos lançar em breve, "Encontro das Águas", além dos solistas convidados como Toninho Ferragutti, Fábio Presgrave, Proveta, Alexandre Ribeiro, Ricardo Herz e Chrystian Dozza, o disco traz arranjos que refletem o momento atual do grupo. Pensando na expansão estética que a viola vive, a vontade também foi de ampliar o tipo de repertório, indo de Tião Carreiro a Led Zepellin, passando por Villa Lobos e Milton Nascimento. Mas ao mesmo tempo, ainda somos um grupo heterogêneo, que além da moçada mais nova, conta inclusive com alguns violeiros e cantadores mais tradicionais, como no início do projeto. Isso mantém uma diversidade bonita e um espírito bacana de união dentro do grupo. Assim, além do desafio e responsabilidade, sinto uma grande honra e prazer em tocar para frente esse projeto.

"A Orquestra Filarmônica de Violas foi e ainda é uma escola para mim."

João Paulo Amaral - CD Viola brasileira
RC- Nesta orquestra o time de músicos é bastante variado onde alguns trabalham exclusivamente com música e outros não. O repertório e arranjo sofrem alguma influência destas diferenças na elaboração?
JPA-
Com certeza! Isso é assim desde o começo. Apesar do nível técnico ter subido na média, até hoje fazemos os arranjos de forma que contemplem variados níveis de dificuldade para incluir a todos. O fato de buscarmos um coletivo bonito e musicalmente interessante e apurado, não significa que necessariamente tenhamos que tocar coisas difíceis. Ao contrário, a viola e a música caipira nos ensinam que o simples muitas vezes é o mais bonito. Portanto, a técnica que buscamos melhorar não é o objetivo, mas sim uma ferramenta para fazermos uma música mais bonita, com inteligência, pensando na qualidade artística.

RC- O grupo "Conversa Ribeira" dividiu o palco com a Orquestra Municipal de Jundiaí, além de escrever o arranjo para a orquestra. Como foi este processo e fale sobre o que muda na performance com um grupo grande de músicos como este.
JPA-
Nossa, foi muito legal essa oportunidade. O processo foi muito respeitoso e gratificante desde o convite da maestrina Claudia Feres, passando pela confecção dos arranjos, ensaios e finalmente o concerto com a Orquestra. Olha, sobre a performance, algumas coisas mudam com certeza. A principal é que o prazer é muito grande quando a gente escuta aquela densidade e energia sonora toda que vem da orquestra. Tocar junto com um grupo bacana como este, principalmente sendo os seus próprios arranjos, é muito gostoso. Além dos arranjos novos criados para esse concerto, alguns nós já tocávamos no grupo, e, portanto, foram adaptados para formação da orquestra. Então, para gente que criou, ouvir esses arranjos expandidos na orquestra, percebendo cada detalhe, cada nota que escolhemos e etc, é muito bom. Agora é claro, é diferente de tocar só eu a Andrea e o Daniel, pois além das próprias alterações nos arranjos, tem também sempre uma dose a mais de atenção e concentração pela orquestra, para seguir a maestrina e as marcações do arranjo, tocar e respirar junto com um grupo grande de músicos, etc.

RC- São interessantes as releituras que fazem e a mistura do tradicional com o contemporâneo. Comente sobre esta interação.
JPA-
O Conversa Ribeira nasceu com a proposta de trabalhar principalmente com a música caipira e sua diversidade, já que essa música e cultura era enraizada na história familiar de nós três. Ao mesmo tempo, não queríamos apenas pesquisar o repertório tradicional e reproduzi-lo tal como já foi gravado. A ideia era que os arranjos, e mais tarde as nossas composições, trouxessem elementos para realçar a beleza e expressividade dessas canções, aí é que entra essa estética mais contemporânea que você comentou. A música caipira tradicional é muitas vezes singela e simples, o que é muito bonito. Nos arranjos buscamos respeitar essa simplicidade e ser criterioso ao escolher por exemplo quando incluiremos outros acordes, onde incluiremos um interlúdio, um dueto, um contracanto, etc.

RC- Nos dois CDs gravados pelo trio é possível perceber um caráter elegante nos arranjos e interpretações. Como vocês se organizam em relação ao repertório abordado?
JPA-
O trabalho é longo e criterioso. Fazemos sempre uma grande lista de músicas possíveis garimpadas nas pesquisas de cada um de nós, desde as mais caipiras até outras do vasto cancioneiro brasileiro que achamos possíveis de combinar com o estilo do Conversa Ribeira. Os compositores e intérpretes que gostamos são sempre um bom ponto de partida para essas pesquisas. Aos poucos vamos peneirando para formar um conjunto colorido e diversificado quanto a temáticas, ritmos, andamentos, etc, músicas que também se alinhem com o tema ou conceito do CD que pretendemos gravar. Conforme vamos definindo as músicas, dividimos as músicas entre nós para individualmente iniciarmos os arranjos, ao menos um esboço deles. Aí tocamos os arranjos no ensaio e coletivamente vamos propondo as ideias e lapidando as músicas até que o arranjo fique pronto para gravar. Muitas vezes chegamos a apresentar ao vivo os nossos arranjos novos para testar e amadurecer nossa interpretação antes de gravarmos.

RC- No livro/CD "Viola Caipira – arranjos instrumentais de músicas tradicionais" você teve algum tipo de preocupação em propor arranjos mais tradicionais ou eles foram criados naturalmente conforme o seu gosto pessoal e não se importando do uso de elementos da "modernidade"?
JPA-
Nesse livro, o ponto de partida era músicas de domínio público por dois motivos. O primeiro é que do ponto de vista pedagógico, o livro busca facilitar o ensino, então as músicas de domínio público normalmente já são conhecidas dos que querem aprender e isso motiva e facilita no aprendizado. O segundo motivo é que a verba do prêmio Ney Mesquita que viabilizou o livro/CD não seria suficiente para bancar direitos autorais de músicas caipiras conhecidas de outros autores. O segundo ponto, é que nos arranjos eu queria incluir conteúdos tradicionais da viola: ritmos caipiras e da viola (cururu, cateretê, guarânia, cana verde, pagode, etc), ponteios, arpejos, escalas duetadas, cordas soltas, arrastes, ligados, etc. Como o livro tem músicas de diversos níveis de dificuldade, aos poucos nas mais avançadas naturalmente inclui ao meu gosto outros elementos mais "modernos" em relação a viola tradicional, como harmonias mais trabalhadas, contrapontos, técnicas mais avançadas de execução, etc. Então acho que tem um pouco de tudo isso.

"Muitas vezes chegamos a apresentar ao vivo os nossos arranjos novos para testar e amadurecer nossa interpretação antes de gravarmos."

João Paulo Amaral RC- A viola caipira ainda não tem uma grande aceitação nas faculdades de música atuais já que é raro encontrar um curso de bacharel neste instrumento. Como entende esta situação?
JPA-
A escolarização da viola é um processo historicamente recente. Com o renascimento e crescente interesse pelo instrumento nas ultimas décadas, a viola vem entrando nas escolas, conservatórios e aos poucos nas faculdades. No entanto é um processo lento, até porque sempre foi instrumento de tradição oral, onde o aprendizado apesar de muito rico e diversificado passava longe de um ensino formalizado. Ainda existe um preconceito de ambos os mundos (alguns dos tradicionalistas acham que viola não se aprende na escola e alguns acadêmicos não querem mudar o modelo de ensino ortodoxo de forma a incluir o instrumento respeitando sua diversidade e contexto histórico cultural). Acho que é uma questão de tempo, e vejo que o caminho para a inserção da viola, o acordeom, o bandolim e de outros instrumentos brasileiros mais idiomáticos é o de somar as riquezas e ferramentas das duas escolas (a formal e a da cultura popular tradicional).

RC- Em sua dissertação de mestrado intitulada "A viola caipira de Tião Carreiro" discorreu dentre outras coisas sobre os elementos constituintes do estilo deste importante violeiro. Quais seriam eles?
JPA-
Olha, é uma coisa grande para resumir em algumas linhas (kkkk). Nessa pesquisa, além da investigação histórica sobre ele e a viola, eu tirei e transcrevi todas as músicas do LP instrumental "É isso que o povo quer". E aí para colocar no papel o que é o estilo dele é difícil, muito complexo, então a gente tentou dissecar todas as coisas que ele usa nos solos e acompanhamentos de viola. As partituras muitas vezes ficavam imprecisas ou simplificadas, pois não tinha como escrever exatamente o que ele tocava. Ele tinha algumas características principais: criou o genial ritmo pagode caipira, usava dedeira, tinha uma pegada forte, um toque expressivo, adornava as melodias simples com vibratos vigorosos, glissandos, usava pizzicato, ligados, cordas soltas completando e preenchendo a melodia principal, arpejos de mão direita inteligentes, entre outros. Enfim, o lance é que esses elementos todos separados não resultam no estilo dele, pois alguns deles inclusive são utilizados por diversos outros violeiros também. Mas se você juntar todos esses elementos, talvez chegue próximo do jeito dele tocar. O toque e o estilo dos violeiros é algo muito específico e pessoal, uma impressão digital difícil de imitar, cada um tem uma mão direita diferente, um jeito de tocar os ritmos e etc. Isso é uma riqueza muito grande do universo da viola.

RC- É possível afirmar que os ornamentos que relacionou com Tião Carreiro como ligados, apojatura, staccatos, notas percussivas e glissando estão presentes basicamente em qualquer violeiro dentro desta estética da música caipira?
JPA-
Não da para afirmar que está presente em qualquer violeiro, muitos usam esses elementos também, outros não. O Bambico por exemplo é um violeiro do que até usa parte desses recursos mas seu toque é completamente diferente, é mais leve, menos adornado, menos rítmico, mais limpo, sem cordas soltas preenchendo os espaços, etc, você ouve ele e já sabe que bem diferente do Tião. Ou seja, cada um faz o uso dos elementos a sua maneira, e combinado com outras técnicas e elementos, o que resulta no toque de cada um.

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