Entrevista com Keila Abeid

Keila Abeid fala sobre o seu CD intitulado "Muito prazer", comenta sobre os arranjos, repertório e participações especiais. Fala sobre cuidados com a voz, improvisação musical, trabalhos como atriz e muito mais.

Rodrigo Chenta- Fale sobre o título do teu primeiro CD solo "Muito prazer".
Keila Abeid-
Muito Prazer é o nome de umas das faixas do disco, composição do Rogério Botter Maio (que toca sempre comigo e no disco também) com a Inma Lazaro! Na hora de escolher o nome, eu pensei que seria uma boa brincadeira de sentido duplo, Muito Prazer de estar conhecendo alguém, pois foi meu primeiro trabalho, e Muito Prazer em ouvir, no meu caso cantar o disco.

RC- Como foi a escolha dos músicos que gravaram este álbum?
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Eu, o Fábio Leandro, o Vinícius Gomes e o Ricardo Berti já nos conhecíamos de escola, a ULM. O Fábio conheci no Show Elis, uma sabiá, que minha professora Pat Escobar organizou, e depois veio Vinicius num show sobre a história do jazz, também concebido por ela. O Berti veio logo depois na escola. Sempre tocamos juntos na ULM. Todo o conceito do som que eu queria fazer nasceu com eles. Eles estão comigo desde o primeiro show. Que aconteceu no próprio auditório da escola. O Botter Maio tinha acabado de voltar pro Brasil com o disco dele, encontrei ele num show do Filó Machado. Ele me convidou pra cantar uma das músicas dele no show dele. Quando conheci as composições dele, não larguei mais! Foi assim que nasceu o quinteto que toca comigo até hoje. Eles foram a base do disco todo! E depois tive algumas participações especiais!

RC- Comente o processo de escolha do repertório.
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Eu queria que fosse um repertório onde todos os que estavam comigo se sentissem tão feliz quanto eu. Eu sempre flertei com a música instrumental, e queria muito que isso fizesse parte de alguma forma! Fui conversando com meus amigos músicos, escutando e estudando o trabalho de cada um e foi assim que escolhi o repertório. Da pá virada (Débora Gurgel/ Dani Gurgel) eu sabia que queria cantar antes de programar o disco. Sempre fui fã da Débora. A Agna Maria, compositora de Espinhos de Rosa, fazia parte da “turma de escola” na ULM também, foi numa das conversas no pátio, que ela começou a me mostrar as composições dela e eu simplesmente tinha que cantar! Foi também na ULM que conheci o Conrado Paulino que sempre me deu muita força no começo, e foi muito legal ele me ceder à música que tinha acabado de ser gravada pela Jane Duboc, muita responsa! Duas músicas tenho uma consideração especial: September Weekends do Henrik Mossberg, compositor sueco, foi uma amizade de Myspace! Ná época ele ouviu uma gravação minha de O Cantador (Dori Caymmi e Nelson Motta) e entrou em contato comigo pra me mostrar o trabalho dele. Foi logo quando começou essa coisa de intercambio virtual! Hoje é bem comum, na época era novo. Balanço Zona Sul, é do Tito Madi, e ele é família. Primo meu. Ele pra mim é dos nossos compositores mais importantes, eu precisava prestar essa homenagem.

"... a igreja dá uma bagagem vocal enorme."

Keila Abeid RC- Fábio Leandro ficou encarregado da direção musical deste projeto. Como foi esta experiência com ele?
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Antes de mais nada, o Fábio Leandro é meu amigo. A gente já tocava ha um bom tempo quando resolvi gravar o disco, e devido a nossa convivência eu me senti extremamente segura em deixar nas mãos dele essa produção. Ele me conhece bem tanto quanto amiga como cantora, e ficou fácil pra ele entender o conceito de tudo o que eu queria. Ele atua no campo instrumental e na canção, e eu queria justamente unir as duas coisas nesse disco! Foi uma parceria incrível pra mim.

RC- Fale sobre os arranjos deste CD.
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A gente dividiu os trabalhos! O Botter Maio já estava tocando comigo, gravei 3 músicas dele e ele se propôs a arranjar as músicas dele. O Conrado Paulino foi na mesma onda! Ele topou tocar, arranjar e ceder a música! O resto do disco ficou nas mãos do Vinícius e do Fábio. A ideia era que não fosse um “disco de cantora” que todos pudessem participar e ter Muito Prazer em tocar. (Risos) O disco é nosso e não meu. Cada um tem uma participação forte em cada arranjo!

RC- Muitos músicos interessantes participaram deste trabalho em faixas específicas. Como definiu quem tocariam em cada música?
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Definir as participações especiais foi uma delícia! Eu já sabia dos nomes que eu queria. Muitos amigos especiais! A primeira foi o Jota P. que colocou o sax em Canção de um Tempo só. Conheci o Jotinha nos sons do Filó e sou super fã do som dele! Quando vimos o arranjo que o Fábio fez pra Da Pá Virada, não tinha como não imaginar o Carlinhos Noronha no baixo! Eu gravei no estúdio do Itamar Collaço e ele sempre me deu muito apoio desde quando comecei! Ele escolheu a música que gravaria e quebrou tudo em Balanço Zona Sul. A Gabriela Machado tocou com o Botter no show dele, e foi quando conheci ela! Super flautista e ela fez um solo sensacional em 171, música do Beba Zanettini que fiz o Fábio Leandro cantar comigo (risos) a ultima participação, que me emociona foi da Lea Freire. Na verdade eu sempre fui fã da Lea, e a conhecia apenas pelo Face. Eu estudo flauta transversal e sempre acompanhei ela. Falei pro Fábio que seria muito legal se tivesse um solo da Lea. Ele me encorajou a pedir… ela topou de primeira e me emociono toda vez que escuto. Ganhamos duas participações dela, Reduto de Farol e Espinhos de Rosa. Um fato curioso é que ela deixou gravado dois solos finais em Espinhos de Rosa, pra gente escolher. Na hora da mixagem, sem querer, tocamos os dois ao mesmo tempo. Ficou tão sensacional que foram os dois pro disco!

RC- Sobre a ideia da interação musical como ela se deu em "Muito prazer"?
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Eu escolhi essa música do Rogério por conta desse solo vocal do meio. Na época ele disse que o solo era parte do arranjo e não necessariamente parte do tema. Mas eu sempre ouvi como parte do tema e é fisicamente prazeroso de cantar esse solo, por conta da construção e da região onde está escrito, faz um bem danado ao aparelho ressonador de qualquer soprano! Por isso que ficou como parte do tema mesmo! Está assim também no disco dele.

"... a melodia pode muito interferir na interpretação do texto."

Keila Abeid - CD Muito Prazer
RC- Muitas pessoas começam sua vida musical nas Igrejas como foi o teu caso. Há alguma coisa que aprendeu nesta época e que te marca até hoje?
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Foi minha primeira experiência com palco, com seis anos de idade, em uma convenção Batista. Meu cantar era intuitivo, mas lembro da sensação do palco até hoje. Trago muito comigo o aprendizado de grupo vocal até hoje, até mesmo como regente e professora de coro, a igreja dá uma bagagem vocal enorme.

RC- Quais são os cuidados necessários que você mantém para preservar a boa qualidade da voz?
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Muita água. Pra mim é o principal. Claro que a gente evita alguns alimentos antes de cantar, mas cada corpo reage de uma forma a essas coisas. Nunca tive sensibilidade com temperaturas, ar condicionado, bebida gelada… mas a alimentação fraca e pouca hidratação podem me comprometer bastante vocalmente. Então eu bebo muita água.

RC- De que forma surgiu a Keila Abeid em trabalhos como atriz?
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Acho que nesse caso a igreja tem uma participação maior na minha história. Há oito anos que frequento a Casa Da Rocha, e a conheci o ator Wellington Sabino. Ele dirigia o grupo a Casa Encena, comecei a namorar um moço do grupo e acompanhar ele nos ensaios, quando o Well sugeriu que eu tentasse fazer uma participação. O namoro acabou, mas continuo atuando até hoje (risos), e também dirijo as peças do grupo. Por conta da direção do Well, aprendi muita coisa sobre atuação e teatro e acabei participando de uma peça musical Tempo de Amar. Ali acabei trabalhando como atriz e como orientadora vocal dos atores. Daí comecei a me aprofundar mais no assunto, trazer pro universo da canção e atualmente aplico os conhecimentos do teatro na música. Fora isso fiz alguns trabalhos com vídeo. Mas ainda assim não é meu carro chefe!

RC- Comente a sua participação no tributo à Elis Regina.
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Foram dois. Um produzido pela Pat Escobar, chamado Elis uma sabiá. Lá eu me vi cantora profissional. Desde aquele dia não quis fazer outra coisa. Foi um espetáculo com pelo menos uns 30 alunos envolvidos, alguns solistas e eu tive a oportunidade de ser uma das solistas. Posso dizer também que foi minha primeira experiência com teatro musical. A Pat além de cantora é atriz e diretora, e foi um super ensinamento. O outro foi uma reunião de cantoras incluindo a Adriana Godoy e a Fatima Guedes. Foi um evento produzido por fãs da Elis.

"Entendo a improvisação como uma composição instantânea."

Keila Abeid RC- Como foi a produção do show "No balanço da pilantragem: um tributo a Wilson Simonal"?
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A primeira vez que eu ouvi Simonal minha referencia vocal mudou. Eu sabia que eu queria trazer pro meu canto, um pouco daquele balanço. Fiquei meses ouvindo e estudando o repertório e a história dele. Uma hora não fez mais sentido apenas ouvir, então resolvi montar o show! O Vinícius e o Fabio já estavam acostumados a fazer arranjos pros nossos shows e toparam na hora! É um repertório muito rico. Foi com esse show que tive a oportunidade de conhecer o filho dele Simoninha.

RC- Existem pessoas que privilegiam a letra da canção e outras que entendem que cantor é aquele que canta melodia. O que pensa a respeito?
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Esse é um assunto que tenho refletido e aplicado muito no meu canto, na maneira de dar aula e escolher repertório. Admito que no começo da minha carreira, eu me preocupava unicamente com a parte melódica. Mas as duas coisas caminham juntas. E a voz é o único instrumento que pode unir as duas coisas. Porque não valorizar as duas coisas? Apesar do movimento que coloca a palavra praticamente em primeiro plano, como a gente percebe na vanguarda paulista, o estudo do Tatit, Wisnik, Na Ozetti entre outros não podemos desconsiderar a escola dos melodistas. Acho que minha referencia mais forte, é a escola do João Gilberto, que acredito foi um dos primeiros a atrelar palavra e música de forma a respeitar a colocação rítmica da palavra junto com a música. O som da palavra pode sim influenciar na melodia, assim como a melodia pode muito interferir na interpretação do texto! Então estudemos as duas coisas simultaneamente!

RC- Do ponto de vista de uma cantora como você entende a improvisação musical?
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Entendo a improvisação como uma composição instantânea. Acho que ela está ligada a criação de melodias dentro do tema. Ela pode ser intuitiva. Mas o estudo da harmonia nos dá muito mais ferramentas pra criar coisas mais interessantes. Acho que do ponto de vista vocal, a improvisação é muito mais criação do que virtuosismo. A questão, é que não vejo uma aplicação mais sistemática ao estudo da harmonia e escalas no aprendizado do cantor, e muita coisa fica atribuída apenas pra intuição auditiva. Por isso sou a favor de todo melodista ter um mínimo de conhecimento em algum instrumento harmônico.

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