Entrevista com Klesley Brandão

Klesley Brandão, trompetista e compositor fala do CD "Primeiramente" gravado com o PedhiPano Quarteto, fala sobre arranjo, composição, participações especiais, interação, espaços para concertos e muito mais.

Rodrigo Chenta- Fale sobre o título do CD "Primeiramente" e a concepção da arte da capa.
Klesley Brandão-
O título do cd tem um caráter dúbio: por um lado, trata-se do meu primeiro cd, entretanto, a razão principal da escolha desse título diz respeito a um cânone surgido no Brasil após o golpe de 2016. Primeiramente é uma fala que denota o descontentamento de um povo que se posiciona contra o governo golpista, apontando para a urgência da saída de Temer da presidência. A escolha da capa está diretamente relacionada à questão política. Minha noiva sugeriu que a capa tivesse algum símbolo africano, porque geralmente são verdadeiras obras de arte. O símbolo escolhido foi o AYA, que significa, "eu não tenho medo de você" e também é associado à independência. O momento de escolha do símbolo para a capa coincidiu com o fechamento do Ministério da Cultura.

RC- Comente as participações especiais de outros músicos neste trabalho. Como se deu a escolha deles e de quem participaria de cada faixa?
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O critério utilizado foi puramente pessoal, não teve nada a ver com a composição, pois as participações foram decididas depois que o repertório já tinha sido escolhido. As participações foram escolhidas a partir da influência que esses músicos (Eduardo Guarnetti Johansen, Alexandre Peres, Edu Guimarães e Marília Andreani) tiveram na minha vida pessoal e musical entre o ano de 2002 até 2016.

RC- Como se deu a gravação deste álbum?
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Formei um quarteto no final de 2014 com o intuito de realizar parte do meu recital de formatura na Unicamp. Então convidei meus amigos João Casimiro, Ramon Del Pino e Gustavo de Medeiros para me acompanharem em duas composições. Na época eles já trabalhavam como o trio Pau de Arara. Depois do recital resolvemos continuar tocando minhas composições, então decidi aproveitar e gravar um Cd. Vendi um dos trompetes que tinha e juntei mais dinheiro. Quando foi na última semana de outubro de 2016 fomos para o estúdio do Mario Porto e começamos as gravações. Foram três dias de gravação no período da tarde, três músicas por dia, sendo que a cada dia tinha uma participação especial. A única exceção foi a Marília que gravou um mês depois durante uma tarde de mixagem.

"A escolha da capa está diretamente relacionada à questão política."

Klesley Brandão RC- Tudo foi gravado ao vivo ou teve momentos com overdubs?
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A maioria do trabalho foi gravado ao vivo, a participação da Marília como acima mencionado, ocorreu posteriormente. Existiram correções de alguns trechos, a faixa 2 intitulada Mariloves, eu regravei o tema e refiz o improviso inteiro.

RC- Nas composições deste trabalho é perceptível partes bastante contrastantes. Como funciona o teu processo de composição?
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As composições que perfazem o cd foram escritas em momentos distintos. A composição mais antiga (Mantra 2) é de 2005, e a mais recente (Seu Brandão e Dona Célia) de 2016. Meu processo composicional é muito variado. Algumas vezes começo pela melodia e no processo de harmonização já escrevo o arranjo (caso da música Brasil do seu Zé e Gramaniando). Posso começar da base harmônica e depois compor a melodia (Nosstres, Pop Night), às vezes faço laboratório (a melodia da Mariloves e o contraponto do final são séries de doze notas), começo primeiro pela bateria (samba do Pé), ou então, faço tudo de uma só vez (Seu Brandão e Dona Célia). Ou seja, não tenho um processo definido.

RC- A escolha da formação instrumental já nasce com as músicas? Como isso se dá?
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Na maior parte dos casos sim. A grande maioria dos grupos de música instrumental que tive contaram com a mesma instrumentação: guitarra, baixo, e bateria. Então, a partir daí, escrevo minhas músicas para essa instrumentação, buscando respeitar as possibilidades que os instrumentos oferecem.

RC- As músicas já nascem basicamente arranjadas ou isso acontece em fases posteriores?
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No que tange a contraponto e convenções, sim. Entretanto, na grande maioria dos casos, a escolha de solistas ocorre no processo de ensaio, também o caráter das conduções geralmente fica a cargo do instrumentista.

"... na grande maioria dos casos, a escolha de solistas ocorre no processo de ensaio ..."

Pedhipano Quarteto - CD Primeiramente
RC- Em relação aos títulos das composições como você procede para encontrar o nome para cada uma?
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Sou um péssimo nomeador de música. Algumas de minhas composições o título veio antes (Mariloves e Seu Brandão e Dona Célia), outras já tiveram mais de 3 nomes. Às vezes as músicas são nomeadas levando-se em conta a circunstância em que se deu a composição (Nosstress, Dia 5), ou baseado no caráter da própria música (Samba do Pé, Mantra 2, Pop Night, Gramaniando) ou mescla das situações supracitadas (Brasil do seu Zé).

RC- Muitos artistas da cena instrumental brasileira já optaram por abandonarem o uso do CD físico, usando somente os formatos digitais nas extensões mp3 e wave. Você manteve as duas abordagens. Fale sobre o assunto.
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Pensei bastante antes de mandar para prensagem, falei bastante com amigos. De fato o formato físico tem ficado cada vez mais obsoleto, hoje em dia nem todo mundo tem toca Cd. Não é com a venda de cds que geralmente o artista de música instrumental brasileira, sobretudo aquele que está no começo de carreira, irá pagar suas contas. Entretanto, ainda funciona como uma espécie de cartão. No meu caso, optei por gravar cds físico por ser meu primeiro Cd. Daqui para frente não sei como irei proceder a esse respeito.

RC- É possível pensar que hoje com o comum uso do crowdfunding parece ser mais fácil vender os CDs por ele antes de gravar do que sem ele e posteriormente?
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Pode ser. Eu não saberia dizer, pois nunca fiz uso de crowdfunding. Me parece mais garantida a venda pelo fato de que a captação de recursos financeiros e a venda de cds ocorrerem simultaneamente.

RC- Em "Primeiramente" há uma diversidade de conduções rítmicas e harmonias elegantes. Dentro deste contexto como você define quem participará das improvisações como solista?
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Procurei dividir os solos dos participantes fixos a partir da escolha deles mesmo. A única música que tem solo de todos os integrantes do quarteto é o Samba do Pé, como já mencionei, as participações especiais foram definidas depois que o repertório já tinha sido decidido e com exceção da Marília Andreani, todas as participações improvisaram cada qual na faixa que gravou (cada uma gravou uma música). A divisão dos solistas fixos do quarteto ficou assim; eu (trompetista) só não improvisei na primeira faixa, o restante solou no mesmo número de músicas: o baterista improvisou nas faixas, 5, 6, 8 e 9 o baixista improvisou nas faixas 4, 5, 6 e 9 e o guitarrista nas faixas 1, 3, 5 e 7.

"... ainda sinto falta de espaço, sobretudo para grupos que estão começando ..."

Pedhipano Quarteto RC- Como você entende a interação na tua música?
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Todos os participantes do grupo fizeram o curso de MPB e Jazz do Conservatório de Tatuí, com exceção do guitarrista (que estudou no nível avançado, mas permaneceu no máximo um ano como aluno). Todos os outros integrantes fixos do grupo se formaram lá. Nesse curso existe uma grande ênfase na interação durante os improvisos, talvez por isso, o processo de escuta e interação entre solista e cozinha (também solista) é sempre buscado. Inclusive, o tema da dissertação (ainda em andamento) do baixista do grupo é sobre essa temática.

RC- Há alguns anos que existe no Brasil uma proliferação de ótimos músicos produzindo excelentes CDs, mas que preferem não se apresentarem ao vivo devido à precariedade das condições em bares, teatros, escolas, etc... Qual a sua visão sobre isso?
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Realmente, muitos lugares oferecem estruturas muito aquém do que deveria ser considerado o mínimo. Entretanto, nós do quarteto não fazemos desse triste fato um empecilho para tocar. Como você mesmo menciona, existe muita gente fazendo muito som legal. Todavia ainda sinto falta de espaço, sobretudo para grupos que estão começando e que não possuem abastados recursos financeiros para investimentos em materiais.

RC- Muito se fala sobre uma luta da música instrumental em conquistar um espaço merecido. O que pensa a respeito?
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Emendando na resposta acima, acho que espaço e também público são problemas que os músicos que se dedicam à prática de música instrumental enfrentam. Muito amiúde, a gente tem prejuízo (acabamos pagando para fazer um som ao nosso gosto). Acho que temos um problema de base. No mundo em que vivemos (pelo menos o pouco que eu tenho visto), o desenvolvimento estético do sujeito é completamente negligenciado, o que acaba refletindo na relação dos indivíduos para como os produtos artísticos em geral. Essa relação tende a ser pautada apenas em consumo, e não de fruição. Assim, acho que para além da produção de excelentíssimos materiais, que de fato tem ocorrido muito no nosso cenário. Devemos, portanto, enquanto artistas, pensar um pouco mais também sobre a criação de demandas, para além de marketing, para que nossa forma de se expressar artisticamente encontre um público cada vez mais estésico que não aceite passivamente (o que ocorre em muitos casos) o que o "mercado" fonográfico tem oferecido. Resumindo, a luta da música instrumental é praticamente a mesma que a luta de outros segmentos artísticos e sempre perpassa pela questão da formação de um público.

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