Entrevista com Manu Cavalaro

Manu Cavalaro, cantora, compositora e professora fala sobre seu CD intitulado "Cantora Não", seus arranjos e composições, música universal, técnicas vocais como falsete e scat singing, musicalização infantil e muito mais.

Rodrigo Chenta- O interessante título "Cantora não" de teu CD solo provoca no mínimo uma curiosidade. Comente sobre o porquê do uso deste nome.
Manu Cavalaro-
Vejo os cantores brasileiros em sua maioria como instrumentistas defasados. A grande maioria acredita que cantar bem é ter uma voz bonita, ou o famoso "dom" ou ainda ser um artista famoso. Cantor é aquele que toca a melodia e pouco se fala sobre isso. O nome Cantora Não é uma provocação nesse sentido para que possamos repensar o papel do cantor na música.

É claro que isso não é uma regra. Existem cantores e cantoras incríveis no Brasil, mas a mentalidade geral ainda é essa: o cantor canta canção e tem que zelar por sua interpretação como se a interpretação não servisse à música. Quando eu dizia para as pessoas que estava gravando um CD a primeira pergunta era se o Cd era de samba, de MPB, etc., e eu ficava pensando: Como vou responder essa pergunta, porque afinal de contas estou gravando um disco de música! O Cantora Não é quase um CD de música instrumental quase não tem letra nele.

Quero me libertar do rótulo que resume o cantor a alguém que canta letras/poesia entende? Cantor canta melodia com letra ou não e infelizmente isso ainda soa estranho por aqui. Não é muito comum uma cantora fazendo música instrumental no Brasil.

RC- Na gravação que fez de "Gratidão" de Itiberê Zwarg há o seguinte trecho na letra: "... propagar este som que é universal ...". Muito se fala e se questiona sobre a ideia da chamada "Música Universal" tanto em debates como em escritos. Como você endente este conceito?
MC-
Itiberê fala sempre nas suas oficinas de música universal que precisamos desenvolver a escuta, pois a música acontece fora e não dentro. Se a gente toca junto com o outro precisamos ouvir o que outro está nos "dizendo", precisamos dialogar, entende? Eu busco isso na minha música, eu prezo tocar com gente que pensa e toca do mesmo jeito, isso pra mim é música universal!

A música é a coisa mais importante, e a gente ouve, e obedece ao que ela pede. Por exemplo, tem uma faixa no CD chamada Funk com Tudo. Quando comecei a escrever essa música a ideia original era fazer um funk, mas de repente, ela virou um baião e depois um jazz. Eu não quis ou planejei isso foi a música quem me levou por este caminho. Pra mim isso é música universal!

"A música é a coisa mais importante ..."

Manu Cavalaro RC- Na música "Era pra ser maior" fala sobre a influência que teve como as do "... Fábio, André e o Clebão." Também é interessante a menção que fez dos intervalos musicais. Como surgiu esta ideia?
MC-
Essa ideia veio da música universal. O Fábio, André e Clebão aos quais me refiro são Fábio Leal, André Marques e Cleber Almeida. Quando cheguei em Tatuí eu já tinha ouvido muita música e já trabalhava com música, mas nunca tinha ouvido nada como o Grupo Mente Clara do qual Fábio Leal participava, ou o Curupira de André e Cleber. Depois vieram Hermeto e itiberê Orquestra família. Eu pirei! Não entendia nada e ficava imaginando: mas como é possível fazer esse som? Eu quero fazer esse som! (risos). Ouvi demais esses caras!

Anos mais tarde Itiberê foi para Tatuí fazer uma oficina de Música Universal a qual eu participei. Nesta época eu fazia aulas de improvisação com o Fábio e todo esse processo virou a chavinha da composição na minha cabeça e compus "Era pra ser maior". Eu estava estudando acordes maiores incessantemente aí num domingo depois do almoço sentei no piano, fechei o olho e saí tocando. Quando toquei o tal ré maior eu ouvi o acorde inteirinho, todas as extensões! Foi mágico! (risos).

Assim veio a música toda: harmonia, melodia e letra como numa psicografia. Foi a primeira música que tive coragem de mostrar para as pessoas. Fábio Leal me deu o presente de grava-la em seu último CD com o quarteto. Tenho um carinho muito grande por essa música, pois ela é um marco na minha vida. Chama-se “Era pra ser maior” porque eu queria inicialmente construí-la só com acordes maiores e também porque tinham muitos nomes importantes para colocar na música, muita gente que me influenciou, mas não deu pra colocar todo mundo, por isso era pra ser maior.

RC- Comente a participação especial da cantora Rinah Souto na composição "Diminuta".
MC-
Escrevi essa música há muitos anos atrás e engavetei. Quando decidi gravar me lembrei dela, mas ainda não era "aquilo" entende? Mandei a música pro Salomão Soares e perguntei se ele topava a parceria. Dois dias depois ele me escreveu perguntando se Rinah podia gravar com ele o resultado final para eu ouvir. Eles gravaram e me enviaram o áudio. Eu tive uma crise de choro ao ouvir! Rinah cantou aquilo com tanta alma, tanta verdade que eu seria muito doida se não a deixasse gravar essa música no CD. No estúdio foi a mesma coisa: um chororô só! (risos). Todas as participações deste CD aconteceram assim: pela música.

RC- É um pouco raro pessoas encararem a voz realmente como um instrumento independente de ter letra ou não em uma música. Em "Cantora não" você trabalha com vocalizações sem palavras. Fale sobre esta forma de uso da voz.
MC-
Descobri faz pouco que cantar melodias sem letras usando vogais ou sílabas que não fazem sentido é uma técnica chamada scat singing que foi "criada" por Louis Armstrong e é bem comum entre os jazzistas. Já no Brasil isso não é tão comum, pois nossa tradição é cancioneira.

Para mim isso sempre foi natural porque desde pequena eu cantava temas instrumentais. Quando eu compus a música Cantora Não eu estava pensando no fato dos cantores menosprezarem esse lance da melodia como citei anteriormente, por isso não cabia letra! (risos). Eu não sei nada sobre scat singing teoricamente apenas sigo minha intuição.

RC- Como se deu o processo de arranjo das músicas?
MC-
Uso o piano para compor e geralmente as músicas já vêm "arranjadas", ou seja, as convenções, mudanças de compasso, às vezes alguns contrapontos já surgem no momento da composição, mas, é claro que é um trabalho coletivo também porque sempre aceito sugestões dos músicos que tocam comigo. No CD mesmo Fabinho toca alguns contrapontos que ele mesmo criou, Salomão sugeriu a introdução de Frevendo. Todo mundo em algum momento acrescentou algo que não estava pré-estabelecido e assim o CD foi sendo criado.

"Valorizar a letra mais que a melodia é coisa de cantor que não sabe música ..."

Manu Cavalaro
RC- Comente a frase do encarte "Que deixemos nossos próprios rótulos e sejamos somente música, pois a música fala por si só!".
MC-
Como eu disse antes a intenção do "Cantora Não" é quebrar paradigmas e rótulos. Como você pode rotular a música? Durante muito tempo me senti descolocada, pois eu não conseguia "falar a língua dos cantores", mas também não conseguia "falar a língua dos instrumentistas". (risos).

Do mesmo jeito que tem cantor que não entende sua função na música, ou menospreza a música instrumental tem também muito músico que acredita que só música instrumental é música boa, ou que só o Jazz tem valor, etc. Acho isso tudo uma grande besteira! Música é música!

Imagina a dificuldade que enfrento para poder trabalhar com este CD? Nem em um edital comum eu consigo me inscrever porque ou você é isso ou é aquilo. O mundo nos classifica o tempo todo e aí eu que sou cantora, mas que tenho um CD que não é de canção não me encaixo em lugar nenhum. (risos). Alguns amigos queridos quando ouviram este trabalho me chamaram a atenção para a sua autenticidade, e ser autêntica não é tarefa fácil, por isso escrevi essa frase. Quero ter a liberdade de fazer canção ou música instrumental e busco sempre ser encarada como instrumentista! Sem rótulos!

RC- Fale sobre a tua composição "São Paulo e o cheiro de mijo".
MC-
Arrumei inimizades por causa dessa música (hahahaha). Brincadeira. Eu tinha acabado de me mudar pra Sampa e estava rolando a Virada Cultural. Me reuni com os amigos ali no Largo do Anhagabaú para ouvir música. Aí funciona assim: o povo vai bebendo cerveja e curtindo, os bares nos arredores com banheiros vão ficando lotados ou mesmo fecham os banheiros por conta da demanda muito grande de gente, então as pessoas fazem xixi aonde? No chão claro!

Lembro-me que no segundo dia da virada havia verdadeiros riachos de xixi correndo nas ruas. Imagina o cheiro? Aquilo impregnou tanto que decidi fazer uma música sobre isso, e assim nasceu o São Paulo e o cheiro de mijo. Mas vale salientar que eu não tenho nada contra São Paulo certo?! (risos).

RC- O CD "Terra brasileira" teve a sua participação na música "Amazonia" de Breno Ruiz e Cristina Saraiva gerando um videoclipe. Como foi participar deste projeto?
MC-
A Cristina Saraiva queria alguém desconhecido e que não tivesse um disco de carreira para poder gravar o CD Terra Brasileira (acho que seu quarto CD), e foi assim que ela chegou até mim. O Breno foi arranjador e produtor musical deste trabalho e foi ele quem me indicou para Cristina. Gravei o CD todo. O CD ficou lindo, músicos incríveis. Ganhei uma crítica do Aquiles do MPB4 muito bacana na época e o trabalho vendeu bastante.

O clipe foi feito para poder divulgar o CD. Foi uma experiência muito doida, pois nunca tinha gravado um clipe. Essa coisa de fazer caras e bocas para uma câmera é muito difícil! Acho que gosto mais é de fazer música mesmo. (risos).

RC- Existem pessoas que valorizam mais a letra/poesia do que a melodia. O que pensa a respeito?
MC-
Apesar da voz ser um instrumento incrível cantar é algo "perigoso", pois o cantor(a) geralmente vem de uma escola completamente intuitiva, a maioria nunca estudou música, e ainda tem aquela coisa de que cantor(a) é artista e não instrumentista. Isso é péssimo!

Como qualquer outro instrumentista o cantor deve estudar, e tem que estudar pra caramba, tem que tocar um instrumento harmônico, enfim, o cantor tem que saber música!

Valorizar a letra mais que a melodia é coisa de cantor que não sabe música na minha opinião. O cantor que não sabe música se preocupa com a interpretação. Aí você me diz: mas a interpretação não é importante? E eu respondo: claro que é importante, mas se você não sabe os intervalos que está cantando, não tem a sensação harmônica que dá base para sua melodia como você vai pensar em interpretação? É colocar a "carroça na frente dos bois".

Eu brigo muito com essa mentalidade "de cantor" sabe. Os meus alunos de canto sabem bem disso. Insisto que o cantor precisa ir muito além da técnica vocal, ou das caras e bocas. Cantor tem que ter cabeça de instrumentista, tem que ser instrumentista.

RC- De modo geral, quais seriam os erros mais usuais que as pessoas cometem em relação à respiração ao cantar?
MC-
A maioria de nós, cantores ou não, não sabemos respirar. Aí corremos para a yoga, treinamos técnicas de respiração, etc., tudo para corrigir algo que deveria ser natural no ser humano. Então é necessário exercitar a consciência corporal acerca da respiração. Os maiores erros que ocorrem são o desconhecimento da respiração usando o diafragma e a falta de controle na saída do ar.

"A musicalização não tem por objetivo criar músicos, mas sim proporcionar vivências musicais importantes para se compreender o que é a música ..."

Manu Cavalaro RC- Para alguns estudantes de canto existe uma dificuldade em não saberem identificar as notas de seus respectivos registros grave (peito), médio (bochecha) e agudo (cabeça). Como é possível descobrir isso?
MC-
Cantar é difícil pra caramba posto que o instrumento é interno. No piano você põe o dedo e a nota está lá, pronta, na voz não acontece assim, por isso é preciso desenvolver consciência corporal e dominar as musculaturas que participam do processo do canto. Como educadora eu tenho que criar várias associações para os alunos: sinestésicas ou visuais e assim cada um se adapta aquilo que mais lhe faça sentido.

RC- Em relação às notas do registro de cabeça temos basicamente aquelas com menos ar e as com mais ar conhecidas como "falsete". Este termo gera frequentemente confusões. Comente o assunto.
MC-
O termo falsete vem de tempos remotos onde somente os homens podiam atuar e nas suas interpretações "falseteavam a voz" para imitar as mulheres. O falsete consiste em um registro de voz agudinho (tanto nos homens como nas mulheres). Como o termo falsete vem de falso, muitos estudantes de canto ou curiosos acreditam que o emprego do falsete é falta de capacidade do cantor, ou seja, já que ele não consegue alcançar determinada nota com sua "própria voz" ele usa o falsete. Associam a isso falta de técnica ou falta de potência vocal. Mas não é nada disso!

O falsete é um registro vocal agudo, ou seja, um registro de cabeça que faz parte da extensão vocal de qualquer pessoa e o seu uso é necessário em determinadas passagens melódicas.

Algumas escolas de canto pregam que o falsete só existe nas vozes masculinas, e, portanto, mulher não tem falsete e sim voz de cabeça. Eu prefiro deixar de lado o termo falsete e adoto o termo voz de cabeça para todos, afinal de contas, quando você canta uma nota aguda você necessariamente precisa usar o seu registro de cabeça. Percebo que assim a confusão entre os alunos é menor.

RC- Você desenvolve um trabalho voltado para a musicalização infantil. Quais seriam os benefícios para quem participa desta vivência?
MC-
Muitos. Eu mesma me desenvolvi demais como instrumentista quando passei a trabalhar como professora de musicalização infantil. A musicalização não tem por objetivo criar músicos, mas sim proporcionar vivências musicais importantes para se compreender o que é a música, se expressar através dela e isso dá uma liberdade de criar e experimentar tremenda entende?

Tenho relatos de crianças que sofriam de insônia, mas que nos dias da aula de música dormiam a noite toda. Crianças que não sabiam dividir seus brinquedos e passaram a compartilhar tudo. Muito doido né? As práticas das aulas permitem que as crianças explorem e desenvolvam a socialização, a concentração, a sensibilidade, a criação, etc. A música é um instrumento muito poderoso na educação, e espero sinceramente que as pessoas despertem cada vez mais para essa verdade.

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