Entrevista com Mateus Starling

Mateus Starling guitarrista e compositor fala sobre seus estudos no exterior, improvisação, tríades mutantes, seus respectivos CDs solo, timbre e sonoridade, discorre sobre suas vídeo-aulas, gravações e muito mais.

Rodrigo Chenta- Você teve a oportunidade de estudar na Berklee College of Music. Comente sobre o reconhecimento "Summa Cum Laude" ao se formar e fale quais foram os maiores aprendizados por lá.
Mateus Starling-
Fui para a Berklee com 25 anos de idade, já tocava profissionalmente há quase 10 anos e, na minha cabeça, eu tinha que correr atrás do tempo perdido, me achava velho para estar lá, então eu tocava 10 horas por dia, estava sempre tocando, aprendendo e dando meu melhor. Eu nem pensava em notas ou em me formar com algum tipo de honraria, até porque eu nem sabia que isso existia. O aprendizado foi a imersão musical e cultural, a experiência internacional e a experiência de vida.

RC- No CD "Kairos" parece que em alguns momentos de improvisação não existe uma harmonia/forma pré-estabelecida e os solistas soam bastante livres. Este é o caráter deste álbum?
MS-
Sim, em todos os meus álbuns tem muito esta abertura de forma, sem ter tom ou definição de onde começa e termina um chorus, a forma é totalmente livre, por isso existe uma sonoridade, de certa forma ácida, para quem está acostumado em ouvir apenas música tonal. Tem influências do free jazz e o atonalismo, entre muitas outras coisas como o fusion, rock e música brasileira.

RC- Tanto no fusion como em gêneros afins existem músicos que gravam todos juntos e aqueles que trabalham com overdubs. Como entende o conceito de interação musical nestes dois casos?
MS-
Para o tipo de som que eu faço não tem propósito de gravar em separado, a banda precisa interagir e isso é o mais bacana. No álbum tem um improviso e no show outro completamente diferente. Isso é empolgante para a banda e para o ouvinte que curte ser surpreendido. Quando você grava em separado as prioridades são outras e o resultado sonoro completamente diferente.

"No álbum tem um improviso e no show outro completamente diferente."

Mateus Starling RC- Eu gostaria que comentasse o seguinte pensamento: "Para o improvisador corajoso a sonoridade outside de hoje provavelmente será o inside de amanhã"?
MS-
Eu entendo a premissa, mas não creio que seja uma verdade para todos. Eu mesmo comecei muito mais ácido, com composições e improvisações que exploravam muito o "outside", com o tempo eu comecei a sentir mais necessidade de colocar o meu pé no mais acessível, não por uma questão comercial, mas meramente por ver beleza em coisas mais simples harmonicamente que antes eu achava apenas simplório. Vejo isso em muitos músicos grandiosos que foram se tornando menos "sofisticados" estilisticamente falando.

RC- Em algumas músicas que gravou, além de usar o timbre de guitarra com e sem distorções usou efeitos que contribuem positivamente para a tua sonoridade. Fale como você formou o som que tem atualmente.
MS-
Eu comecei tocando rock e metal, então efeitos sempre fizeram parte da minha vida. Depois fiquei 10 anos tocando praticamente com som limpo e chegou uma hora que achei interessante resgatar coisas do meu background musical para formar minha personalidade. Não sou paranoico com pedais e efeitos, mas quando encontro um som bacana, tento vê-lo como uma maneira de me expressar de forma diferente de que se eu tocasse com som limpo.

RC- A tua maneira de tocar guitarra é bastante interessante e peculiar. Como entende o processo de formação do estilo de um músico em relação à originalidade?
MS-
Obrigado. Isso é bem complexo, pois não existe uma formula. Eu nunca curti memorizar licks, nunca me senti livre para aplica-los, sempre esquecia e sentia pressão na hora de aplica-los, então, sempre que eu aprendia uma escala nova eu tentava buscar uma maneira mais confortável e interessante de tocar as notas, pensando em intervalos mais abertos, entre outras coisas.

".. todos os meus álbuns tem muito esta abertura de forma, sem ter tom ou definição de onde começa e termina um chorus ..."

Mateus Starling CD Free Form
RC- Fale sobre a ideia de "tríade mutante" e se ela tem alguma relação com o livro "Creative Chordal Harmony for Guitar: Using Generic Modality Compression" dos autores Tim Miller e Mick Goodrick.
MS-
Na verdade não tem uma ligação direta com este livro, apesar de ter estudado tanto com o Mick quanto com o Tim, portanto teve influências. Este conceito de tríades mutantes eu comecei a desenvolver em 2009, nesta época já tinha vídeos meus falando sobre o assunto e tocando algumas destas ideias. Parece que o livro é de 2012, apesar de que, quando era aluno do Mick em 2008, ele me disse, certa vez, que estava escrevendo um livro com o Tim sobre acordes, mas nunca me mostrou os conceitos. Alguns dos meus conceitos de tríades mutantes você encontra no livro creative chordal harmony, de uma maneira diferente e voltada somente para acordes. No meu conceito de tríades mutantes uso bastante para linhas melódicas e não somente para acordes, enfim, este nome é uma brincadeira que fazia com meus alunos, não é um conceito didático por si só é apenas uma maneira de encarar o emparelhamento de 3 notas sem que soem como os padrões básicos de tríades.

RC- Você gravou a música "Brazillian funk" tanto no CD "Kairos" como em "Free form". Fale sobre o arranjo destas duas gravações.
MS-
Gravei a primeira versão em 2008 e a melodia era feita apenas pela guitarra, quando voltei a morar no Brasil em 2009 comecei a tocar a música dobrando a melodia com o sax e achei que soava melhor desta maneira e então resolvi grava-la novamente em 2015 no álbum free form com o sax fazendo a dobra, em termos de arranjo mudou pouca coisa, mas com uma banda brasileira acabou soando mais abrasileirado.

RC- Eu gostaria que você comentasse a arte da capa dos três CDs solo que lançou até agora.
MS-
A ideia era sair um pouco daquele padrão de álbum de guitarristas que a capa é o guitarrista com a guitarra. Meus álbuns nunca foram concebidos para soarem como álbuns de guitarristas para guitarristas. Em cada um dos álbuns um artista amigo fez a capa, nos 2 últimos foi o Paulo Grua e dei liberdade para que ele criasse em cima da proposta sonora dos álbuns, não intervi muito, só escolhi entre 2 ou 3 resultados finais de arte.

RC- No Rio de Janeiro fundou a Starling Academy of Music que faz anualmente audições para a faculdade Berklee College of Music. Como se deu este processo de parceria com o pessoal de lá?
MS-
Eu comecei a preparar alunos para a Berklee de forma natural em 2009. Eu tinha voltado de lá, tive a experiência de ser bolsista e as pessoas me procuravam para tentar uma bolsa e a aprovação. Meus alunos sempre chegaram lá bem preparados, muitos ganhavam bolsas relevantes e em 2014 recebi um contato de uma representante da faculdade e, desde então, comecei a receber o pessoal da Berklee no Rio de Janeiro. Em 2015 abrimos a escola com as exigências materiais (piano de cauda e equipamentos) para receber a audição na nossa escola, o que também acabou sendo algo muito positivo para nossos alunos que já tem a possibilidade de se acostumar com o ambiente da audição e de estudar também com a metodologia e mentalidade da Berklee.

RC- Atualmente é grande a quantidade de vídeo-aulas online e você gravou um considerável número de vídeos do tipo. Quais seriam os diferenciais da tua metodologia de ensino?
MS-
Não sei com certeza, mas talvez eu tenha sido o primeiro a gravar vídeo aulas no formato cronológico e a vender na internet em 2009, até então existiam vídeo aulas, mas um músico gravava 1 ou 2 vídeo aulas sobre diversos assuntos na mesma fita, ou então era um assunto específico sem uma continuidade em outros volumes, sem seguir um cronograma, era algo feito para alcançar um público de nível específico. Existia muito vídeo aula de músico para o fã, mais exibicionismo que uma preocupação específica de ensinar. Era uma outra época, era caro fazer isso, envolvia equipe e etc. Vim com um formato cronológico sendo que, cada vídeo aula, era apenas 1 assunto e os alunos iam estudando cronologicamente o conteúdo, aula após aula. Fiz tudo sozinho, gravação, edição, apostilas com partitura, tablatura, texto, gravava playbacks no meu estúdio tocando todos os instrumentos. Foi um trabalho violento. Comecei a gravar a pedidos de alunos a distância e em 2015 tínhamos feito 100 aulas e vendido um total de 100 mil vídeo aulas em 6 anos. Não tinha este plano no início, eu fui simplesmente fazendo o material, curtindo fazer, tendo uma grande resposta e continuei fazendo. Só parei com as vídeo aulas quando abri a escola presencial e a Starling Academy of Music virtual que tem 10x mais material e cursos do que o meu material pessoal, pois agora conto com a ajuda de outros professores na confecção do material.

"Eu nunca curti memorizar licks, nunca me senti livre para aplica-los ..."

Mateus Starling RC- Existe o perfil de pessoa que baixa tudo na internet e não ouve/lê/assisti quase nada do que tem. Começa um assunto e já muda para outro sem se aprofundar. Qual seria a importância de uma rotina para o estudante de música?
MS-
Esse fenômeno já não é mais tão novo (tem quase 2 décadas), então já começamos a ver os frutos deste hábito. As pessoas não estão se tornando músicos melhores em função disso, não conheço ninguém que alcançou um alto nível de musicalidade ou proficiência estudando pelo google ou youtube somente. Informação infinita sem organização é igual a conhecimento zero ou quase zero. De alguma maneira precisa existir um cronograma e uma didática na vida da pessoa, se não ela fica pulando aleatoriamente entre assuntos desconexos.

RC- O vídeo "Músico ou instrumentista" que gravou trata de um tema muito controverso para algumas pessoas da área profissional da música. Fale mais sobre seus pensamentos neste assunto.
MS-
Tive que rever o vídeo, pois já tem tempo que gravei, mas é basicamente o dilema que algumas pessoas enfrentam na busca de um nicho profissional dentro da música. Algumas pessoas abandonam o instrumento e se tornam arranjadores, produtores e por aí vai, enquanto outros estão unicamente presos na estética sonora do seu próprio instrumento. Acredito que podemos ser um pouco dos 2, isso é sadio, ver o nosso instrumento, mas ver a música como um todo, como algo maior e nosso instrumento como algo menor, apenas como um intermediador entre nós e o ouvinte.

RC- Que conselhos daria para aqueles que pensam em estudar fora do Brasil?
MS-
Morar fora do Brasil por si só já é uma grande experiência, então, se existe a possibilidade de ir não deixe de ir. Você não precisa sair do Brasil para se tornar um grande músico, não tem nada a ver com isso, muito mais com a imersão e com a experiência. Falo muito sobre isso na fanpage da escola e no canal do youtube. Fiquem ligados nas dicas que deixo de música e de carreira. Grande abraço e Deus abençoe a todos.

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