Entrevista com Sandro Haick

Sandro Haick, multiinstrumentista e compositor fala sobre o seu CD "Forró do Haick vol. 1", timbre, gravações, influências, processo de composição e arranjo, criações coletivas, improvisação e muito mais.

Rodrigo Chenta- Normalmente uma pessoa dedica parte da vida para executar satisfatoriamente bem um instrumento. Você possui habilidade em vários tendo a multi-instrumentalidade como característica forte. Como você entende esta relação com os instrumentos?
Sandro Haick-
Pra mim tudo é uma coisa só, encaro a música como uma coisa divina, acima de nosso mundo e somos instrumentos desse dom divino, ou usando nossa voz, que é nosso primeiro instrumento ou usando qualquer outro instrumento pra transmitir essa música, pode ser qualquer instrumento, é claro que temos que viver esses instrumentos o máximo que pudermos pra desenvolver alguma técnica e destreza, mas na minha cabeça desde pequeno é apenas ouvir, cantar e tocar, independente do instrumento, e um complementa o outro... tanto que estou pra lançar uma oficina que já gravei e será um livro e vídeo, chama-se "O Segredo da Música com Sandro Haick" pra todos os instrumentos de todos os níveis... e falo exatamente como desenvolvi o aprendizado e como faço pra tocar, improvisar e compor, independente do instrumento!

RC- Nos CDs instrumentais onde tocou guitarra é perceptível em alguns momentos uma sonoridade única com uma espécie de efeito phaser. Você costuma fazer pesquisas de timbres para chegar no som que almeja
SH-
Não, apenas tenho na cabeça mais ou menos o som que desejo chegar, mas não sou preso a nada, e gosto de variar tudo, inclusive os timbres, adoro os phasers, mas adoro todos os diferentes pedais e efeitos, gosto de experimentar, acho que minha identidade musical está mais no conteúdo e no jeito de tocar do que no timbre, mas claro que tenho gostos próprios de timbragem.

RC- Você normalmente costuma gravar os teus trabalhos solo em seu próprio estúdio. Quais são as vantagens e desvantagens caso haja em atuar desta maneira?
SH-
Eu tenho estúdio desde pequeno, trabalho dia a dia no meu estúdio gravando e mixando diversos trabalhos de variados estilos, e já morei no estúdio inclusive... Acho que eu gravo e faço meus trabalhos no meu próprio estúdio, porque com a prática e experiência de muitos anos e algum equipamento bacana também, hoje consigo chegar a um resultado bom de nível sonoro, mas enquanto eu não tinha capacidade de mixar ou gravar, sempre chamei amigos técnicos tops, como Guilherme Canaes por exemplo, pois nessa hora precisamos tirar o EGO de lado, (e de verdade jogar ele fora pra sempre...) hoje depois de muito assistir os feras e muitas horas de mix, já estou apto pra assumir esse papel, falo isso, porque tem muita gente que tem um computador em casa e ou por ego, ou por economia, acha que dá conta de gravar e mixar, e o resultado não fica bom! Por isso que antigamente, tudo tinha um som muito bom, pois não tinha essa de fazer em casa, pra gravar, era preciso ir a um estúdio top de gravação e tinha que tocar bem também, pois o computador não "arrumava" depois!! Bons tempos...

"... encaro a música como uma coisa divina ..."

Sandro Haick RC- Sua presença na história da guitarra brasileira já é fato, pois tocou 15 anos com Dominguinhos, além dos trabalhos instrumentais em outros gêneros. Também é conhecido o acréscimo que faz de elementos do jazz. É assim possível pensar em um fusion brasileiro?
SH-
Acho que sim, pois na minha música tenho influência de todos os estilos musicais que já toquei ou ouvi, comecei no rock e pop, depois jazz fusion e jazz tradicional e por fim música brasileira, mas ouço de tudo, inclusive muita música erudita, acredito apenas em música boa ou ruim, bem tocada ou mal tocada, independente do estilo!

RC- No teu CD solo intitulado "Caminhando" há uma grande diversidade de gêneros, estilos e músicos convidados para a gravação. Como foi este processo já que o trabalho foi produzido entre 2002 e 2005 como consta na ficha técnica em teu site?
SH-
Realmente este cd como foi o primeiro, eu queria o máximo de convidados possíveis, e como eu tinha estúdio, eu ia aproveitando os amigos que lá iam gravar, e gravava também uma música pro meu cd, de verdade eu tenho material desde 1998 até hoje que daria pra lançar mais de 10 cds inéditos... e ainda pretendo lança-los, mas o Caminhando eu fiz uma seleção de músicas e convidados que tinham mais a ver com o momento que estava vivendo, e várias dessas músicas eu fiz no Hospital das Clínicas quando fiquei 3 meses internado lá pra uma cirurgia de coluna delicadíssima que fiz, inclusive a música Caminhando eu fiz quando andei pela primeira vez depois de 6 meses sem sair da cama...

RC- A música "Sonhando" possui vários climas e parece contar uma história. Eu gostaria que comentasse esta composição.
SH-
Quis fazer uma homenagem a Hermeto Pascoal, comecei compondo no piano o primeiro e o segundo movimento e o terceiro movimento eu fiz em parceria com o Pepe Cisneros, ele me ajudou com o arranjo de trompas também, o resto do arranjo eu fiz sozinho, foi também um desafio, pois eu nunca até então tinha escrito pra cordas, madeiras etc... Meti as caras e fui fazendo sem teoria nenhuma, e deu certo, acho que ficou bacana, mas deu trabalho...

RC- Com Luciano Magno gravou o CD "Viva Dominguinhos" onde as guitarras e violões dialogam com o acordeon, sanfona e voz. Nos momentos com duas guitarras qualquer deslize aparece. Quais cuidados devem se observar ao tocar com esta formação instrumental?
SH-
Quando gravamos solo, ou duo, realmente tem que se ter uma boa técnica, limpeza, tempo bom, pois tudo aparece... eu nunca até então tinha tocado com o Luciano, e fomos muito felizes, criamos o cd no estúdio, repertório, arranjos, tudo na hora e com as maravilhosas participações de Dominguinhos, Guadalupe, Heraldo do Monte e Maestro Spok, o cd é muito bonito realmente, tentamos transcrever pras guitarras e violões o universo da sanfona, e deu muito certo...

"... na minha música tenho influência de todos os estilos musicais que já toquei ou ouvi ..."

Sandro Haick - CD Forró do Haick Vol. 1
RC- Neste álbum em Duo cada músico ficou em um canal separado e isso proporciona uma escuta interessante. Existem trabalhos que soam mono e com timbres parecidos o que não é o caso deste Duo. Como você vê este assunto?
SH-
Eu que mixei o cd, e sempre exploro bem os pans, gosto de abrir mesmo, tem gente que tem medo e deixa meio mono, tudo no centro, mas eu aprendi assim, um dos segredos da mix e usar bem os pans, e assim além de saber em qual lado estamos tocando, (pois eu estou sempre do mesmo lado) dá pra destacar bem e ouvir tudo, sem embolar nada! quando se ouve de fone, fica mais nítido isso ainda!

RC- O DVD "Kako" possui vários climas interessantes na performance das introduções de músicas como "Pro Luquinha" e "Dezembro". Comente estes trechos.
SH-
Adoro esses climas free total nessas intros, inclusive na música Setubal, da metade até o final, também tem um free que fazemos, são improvisações mesmo, sem saber o que vamos tocar, nada programado, o que vale é ouvir um ao outro e criar, criação coletiva instantânea, como disse antes, fazem parte de minhas influências jazzísticas e misturo tudo!

RC- No final das músicas "Setúbal" e "Samba pro Raul" do DVD e na emenda de "Olha pro céu" e "Pagode russo" do CD "Forró do Haick vol. 1" tem momentos com improvisações coletivas. A interação dos músicos nestes casos é imprescindível?
SH-
Exatamente... sem ver esta pergunta eu já tinha falado na resposta atrás, e você foi na mosca! Fazemos sempre essas improvisações, o que faz com que cada vez que tocamos essas músicas, rolem climas e arranjos diferentes! Não gosto de variar e ter tudo ensaiadinho, gosto do inesperado, sem repetir, nunca... cada vez e cada show será diferente, mesmo tocando as mesmas músicas! Isso me alimenta e faz com que o aprendizado sempre aconteça, aliado ao prazer!

RC- "Forro do Haick vol.1" é bastante objetivo e repleto de clássicos da música nordestina. Como foi a escolha do que seria gravado?
SH-
Fiz essa seleção pensando no vol 1, pois esse repertório tem mais de 300 músicas, é muito difícil essa seleção, pois tudo é muito bom... mas o objetivo é homenagear a música nordestina e Dominguinhos, dando continuidade ao som que fazíamos, mas desta vez eu assumo a liderança como solista na guitarra, e também levar esse maravilhoso repertório, brasileiro pros jovens e possivelmente pro mundo todo, pretendo daqui a uns 15 anos ou mais, ter mais de 200 músicas gravadas, fazendo assim, um enorme songbook gravado do forró, e quem sabe no futuro próximo, os jovens músicos tocaram essas músicas como standards brasileiros!

"... preferi seguir com minha missão de colocar boa música no planeta ..."

Sandro Haick RC- Alguns arranjos rítmicos como os de "Forró no escuro", "Assum Preto" ficaram curiosos e bem diferentes. Discorra sobre estas ideias.
SH-
Fizemos os arranjos na hora, no estúdio, pois gravamos ao vivo, e apesar de ser um cd de forró, temos nossas influências jazzísticas nele, por isso tocar em 6/8 ou 5/8 ou 7/8 acaba sendo bem normal pra nós, teve coisa que aconteceu sem nem ninguém combinar, apenas aconteceu e todos compraram, primeiro take, e quando vimos, tocamos em 6/8, "nossa que bacana, acabou virando 6/8 e depois voltou... legal! "Como eu disse, não somos presos a nada, nenhuma barreira ou preconceito, os momentos frees também aconteceram inesperadamente, apenas no olho, por isso é legal gravar ao vivo, pra rolarem esses climas!

RC- Fale sobre a inusitada inserção dos textos no final da música "Respeita Januário" de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
SH-
Isso foi uma intuição que recebi, com certeza de meus guias espirituais, pois de uma hora pra outra tive essa ideia, e já tínhamos gravado um belo clima que ficava apenas no acorde Csus no final de Respeita Januário, e comecei a ligar pros amigos todos e pedir pra eles participarem, mas falava..., "não é tocando, é falando o que você quiser agora pelo celular que vou gravar aqui..." e assim foi... em 4 ou 5 horas eu já tinha gravado todo mundo, apenas acrescentei os textos de Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Hermeto Pascoal que eu já tinha, e acho que ficou muito especial, pois tem gente muito importante que fala lá especialmente pra mim, e finaliza com uma prece verdadeira da Dona Gilda no Centro André Luiz do Recife, no qual sou trabalhador, e foi gravado pelo filho dela no momento da prece, e mandou pra mim! Agente sente a energia positiva! É incrível e ficou lindo! Parece que já tínhamos preparado o arranjo pra tudo isso, e não foi... Mas, eu realmente não acredito no acaso!

No Youtube tem um teaser do Forró do Haick que no final tem essa música com todos os depoimentos e os nomes e locais em legendas, assistam... Assistir teaser

RC- Em relação às trilhas para publicidade você atuou com grandes empresas. Como funcionava o teu processo criativo para as músicas de comerciais?
SH-
Trabalhei 2 anos com publicidade exclusivamente, mas confesso que abandonei tudo pra voltar a tocar, pois estava ficando doente e muito triste, pois aquilo é tudo, menos arte e música, quem dá a palavra final, normalmente é quem não entende nada de música, agente fazia uma super trilha, bacana e mandavam voltar e regravar e re-mixar umas 20 vezes e sempre ia piorando... hoje gravo apenas como free lancer algum instrumento ou trilha, mas muito pouco, meu portifólio é absurdo, todas as grandes marcas eu trabalhei, prêmios etc... mas outra coisa ruim, não fica nada, é momentâneo e passageiro, não acrescenta nada a nossa carreira, de verdade é um trabalho apenas pela grana, que já nem é tão boa assim... preferi seguir com minha missão de colocar boa música no planeta, sem nenhum tipo de ego ou egoísmo, pois não toco pra mim, toco pra fazer as pessoas felizes e doar, dar aulas, ensinar, oficinas, wokshops, mostrar que é possível ser feliz fazendo música honesta e verdadeira com o que sentimos, com amor e prazer, o mesmo prazer inicial que nos levou a tocar... essa é a missão, e o sucesso e a recompensa deve ser o fruto de nosso trabalho, e não a meta, a meta é ser feliz!!!

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