Entrevista com Thiago Righi

Thiago Righi fala sobre o seu CD "Aprendendo a ser só", comenta sobre a criação das músicas e arranjos, a importância que encherga na ritmica e harmonia, processo de gravação, escolha de repertório e muito mais.

Rodrigo Chenta- Eu gostaria que você falasse sobre a escolha do título do álbum "Aprendendo a ser só".
Thiago Righi-
Foi uma escolha natural, pois apontava como o álbum foi concebido e realizado e, mais que isso, que refletia o momento pelo qual eu estava passando em minha vida. Praticamente todo o processo do CD ficou sob minha responsabilidade, da produção artística e executiva às composições, arranjos, ensaios, direção musical, escolhas, decisões...

Além disso, à época do processo de concepção e realização do disco, eu havia acabado de sair do grupo Amanajé e este álbum foi minha primeira experiência em um trabalho completamente solo, com minha assinatura. Por fim, eu estava com viagem marcada para a Itália, onde acabei morando por três meses, longe da família, amigos, namorada. Uma experiência que, de uma só vez, tirava-me da zona de conforto colocando-me só, em um mundo que era completamente novo para mim. Aprendendo a ser só é, ao mesmo tempo, tradução e síntese de todo esse processo e momento de vida!

RC- Como surgiu a ideia do texto redigido pelo músico Nenê para a contracapa e parte interna do CD?
TR-
O Nenê é e sempre foi um grande incentivador de músicos, principalmente dos mais jovens. Para confirmar essa afirmação basta olharmos para a trajetória dele: por onde passou, viveu, tocou, Nenê sempre incentivou a cena local, impulsionou e deu espaço a jovens músicos, fosse tocando, viajando, gravando ou simplesmente partilhando experiências, vida, música!

Com isso em mente, quando decidi que gostaria de ter um texto de apresentação para o álbum, o primeiro nome que me veio à cabeça foi o dele. A realização dessa ideia foi possível graças ao encontro que tivemos na cidade de Botucatu-SP, durante o Festival Botucanto Instrumental. Eu estava tocando no festival com o grupo Amanajé e o Nenê estava escalado para fechar a noite com seu trio. De um encontro de camarim surgiu a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Quando alguns anos mais tarde o contatei pedindo o texto, ele foi, ao mesmo tempo, gentil e criterioso. Ao telefone disse-me: venha passar uma tarde aqui em casa e traga o CD. Depois de umas quatro ou cinco horas conversando, contando histórias, partilhando música e dando conselhos, nova frase do mestre: agora vá para casa que eu quero ouvir seu disco com calma, bicho; não vou sair escrevendo muito bom, que legal, maravilha, sem ter escutado com calma! Escutarei e depois te ligo. Uma semana depois toca meu telefone: aqui é o Nenê, pode vir buscar o texto! Chego ao seu apartamento, ganho um abraço carinhoso, o texto e mais cinco horas de histórias e música!

Uma outra história ligada a um texto de apresentação envolve o Jovino Santos Neto e une-se à do Nenê pelo fato de ambos trazerem consigo esse cuidado e preocupação com o futuro da música, essa atenção para com os jovens músicos e essa vontade de compartilhar, conviver, incentivar, colaborar, produzir música. Acredito que eles pegaram isso do Hermeto Pascoal, que, de certa forma, ensinou-os a ser assim via exemplo cotidiano; e fez isso com eles e tantos outros músicos!

Voltando ao Jovino: bem antes de eu pensar em gravar o álbum, ainda nos tempos do myspace, eu participava de um grupo de choro, o Mistura pro Santo, tocando bandolim. Nesse período, gravamos um choro do Hermeto Pascoal e publicamos na página do myspace do grupo. Semanas depois, recebemos uma mensagem do Jovino corrigindo alguns acordes e dando sugestões de interpretação. Além disso, Jovino enviou-nos dois livrões com partituras de músicas suas e do Hermeto. A partir desse fato mantive, por um tempo, contato com o Jovino e, quando gravei Aprendendo a ser só, pedi, também a ele, um texto de apresentação. O texto do Jovino foi vinculado ao material de promoção do álbum à época de seu lançamento e hoje pode ser lido em meu site (www.thiagorighi.com).

RC- Na gravação deste trabalho usou guitarra, cavaco, bandolim, viola caipira, violão de aço e de sete cordas. Como definiu qual instrumento utilizar em cada música?
TR-
A escolha esteve muito atrelada aos processos de escuta e de composição de cada música. Houve músicas que compus na guitarra mas que, quando a ouvia internamente, sem tocá-la, não escutava a guitarra e seu timbre. Quando isso ocorria, procurava, atentamente, identificar o que estava ouvindo, qual timbre, qual instrumentação. E esse processo se deu não só para a escolha dos instrumentos que toquei mas também para a instrumentação geral de cada música. Outras vezes compus a música já pensando em determinada configuração de instrumentos. Enfim, não houve um processo único, pré-determinado. Cada nova composição é, para mim, um universo novo, algo a ser escutado, cultivado, cativado. Acredito que quando respeitamos o tempo de cada coisa e, principalmente o tempo da escuta – que é naturalmente um tempo mais demorado, vagaroso, lento -, a música fala por si e pede os instrumentos pelos quais quer ser ouvida! Se posso dizer-te que houve uma regra geral, essa foi a da escuta interna e atenta, em um processo no qual a música demandava e eu obedecia!

"... Aprendendo a ser só é, ao mesmo tempo, vértice e vórtice em minha trajetória ..."

Thiago Righi RC- Como foi a participação especial de André Marques tocando escaleta na faixa "Terceira margem do rio"?
TR-
Conheci o André por meio do Rodrigo "Digão" Braz e do Rayraí Galvão. Desde que comecei a conceber o álbum e escrever as músicas, tinha na cabeça a ideia de convidar alguém que não fizesse parte do ciclo mais imediato de músicos com os quais eu tocava. No primeiro disco do grupo Amanajé havíamos realizado essa experiência e ela se mostrou muito enriquecedora, tanto para o álbum em si quanto para os integrantes do grupo. Pensei então: por que não repetir isso em meu disco? Assim, Digão colocou-me em contato com o André e marcamos o dia da gravação. Posso garantir que as horas que passamos juntos no estúdio valeram, para mim, como anos de experiência! Ouvir minha música tocada pelo André ensinou-me coisas sobre minha própria composição que eu mesmo não conhecia ou imaginava!

RC- Se você pudesse definir o álbum "Aprendendo a ser só", como o faria?
TR-
Pergunta difícil! Acredito que o público e os críticos têm mais condição de fazê-lo! Qualquer tentativa de definição que partisse de mim seria, no mínimo, imparcial, distorcida, enviesada. O que posso afirmar sobre o álbum, mais que defini-lo, é que Aprendendo a ser só é, ao mesmo tempo, vértice e vórtice em minha trajetória: tudo o que havia estudado, ouvido, musicado, partilhado, lido, enfim, vivido, converge para o álbum; e tudo o que venho fazendo, desde seu lançamento, parte dele. Mesmo aquilo que hoje é, no que concerne à música, diametralmente oposto ao que se ouve no álbum!

RC- Você afirma no encarte que fez os arranjos com a colaboração de cada músico executante. Conte-me como foi este processo?
TR-
O processo se deu durante os ensaios para a gravação. De modo geral, eu chegava para os ensaios com as partituras escritas e nós tocávamos a música em questão uma ou duas vezes, no intuito de lê-la, descobri-la. Logo depois, se tudo saísse como eu esperava, eu sempre perguntava o que cada um achava, se tinham algum ponto ou sugestão, se estavam sentindo-se confortáveis para tocar da maneira como eu havia escrito. Após ouvi-los, eu decidia o que acataria ou não, quais mudanças faria. Na maioria das vezes chegamos a, pelo menos, tentar as sugestões antes de eu dar a palavra final. Algumas coisas eu reescrevi. Todos colaboraram de alguma forma, mas o Raphael Ferreira e o Hercules Gomes foram fundamentais! Este, com uma presença dócil e perspicaz, muito assertivo e delicado em suas opiniões, um gentleman; aquele, com seus choques de realidade, com ótimas sugestões e um companheirismo ímpar!

RC- No encarte do CD consta que o músico Rodrigo Pinheiro cuidou deste trabalho como se fosse dele. Quais foram as maiores contribuições dele e fale sobre a participação do baterista Rodrigo "Digão" Braz?
TR-
Antes da resposta, deixe-me desfazer um pequeno mal entendido: o Rodrigão que cuidou de Aprendendo a ser só "como se fosse um disco dele" é o Rodrigo Pinheiro – um músico fora de série e uma espécie de irmão mais velho para mim! Tocamos juntos há muitos anos! Ele foi o responsável pela gravação e mixagem do álbum. O Estúdio S/A - onde o CD foi gravado - era dele e, então, não rolou aquele clima de taxímetro rodando durante a gravação! Graças a isso e ao enorme companheirismo e parceria do Rodrigo, tudo ficou como eu gostaria que ficasse! Pude realizar o álbum com calma, com tudo o que havia imaginado e queria que fizesse parte dele! Por isso o Rodrigão foi essencial e por essa razão digo que ele cuidou de tudo como se fosse o disco dele e não de outra pessoa. A coisa é que quando redigi os textos do encarte não atentei para o fato de haver dois Rodrigões em meu projeto!

Quanto ao Rodrigo "Digão" Braz, acho que a principal contribuição dele para o disco foi que ele tocou muito, quebrou tudo! Quando a mixagem ficou pronta, Rodrigo Pinheiro, Digão e eu fizemos uma audição conjunta. Audição realizada, o Rodrigo Pinheiro olhou para o Digão e disse: você tocou melhor no disco do Righi do que no do seu grupo! Comentário feito, após gargalhadas, o Digão virou e disse: tem razão, eu estava beeeeeem à vontade! 'Melhor', aqui, trata-se desse "bem à vontade" ao qual o Digão fez alusão. Ademais, no CD o Digão está "tocando para fora”, a bateria está "bem na frente" na mixagem! Ouça, por exemplo, os finais de Terceira margem do rio, Macondo ou Nascimento: é disso que se trata! Outro ponto fundamental foi a contribuição do ouvido! Explico: quando escrevi as músicas, para a maioria delas eu tinha uma ideia do que queria para a bateria. Pouco falei, no entanto, para o Digão. E justamente por ter primeiro tocado e, somente depois conversado sobre o que queria, o que aconteceu foi que o Digão propôs acompanhamentos que estavam completamente fora de meu horizonte, fora do limite do meu imaginário. Esse fato deveras enriqueceu minhas músicas, sendo, o mais interessante, que esse processo ocorreu de forma natural, não pensada; foi acontecendo durante o período de ensaios, nas conversas cotidianas, no ato de tocar. No mais, o Digão é uma presença constante de amizade, parceria, ensinamentos, partilhas, reciprocidade! Presença e amizade, para mim, essenciais, que permearam não só o processo desse álbum mas a minha vida de estudante e músico como um todo! Digão foi, é, e sempre será uma grande referência para mim.

"... as ideias vão surgindo conforme vou trabalhando na composição ..."

Thiago Righi - CD Aprendendo a ser só
RC- Existem diversas texturas nas composições como, por exemplo, em "Terceira Margem do rio" onde o sax improvisa acompanhado pela bateria e percussão. Este tipo de situação é pensado no momento do arranjo ou você já compõe assim?
TR-
Não há uma resposta única para essa pergunta. As situações acontecem ou são pensadas de diversas formas. Por vezes, a música vem pronta: conforme vou compondo já sei o que quero; desde detalhes bobos como "quantas vezes vou repetir ou tocar tal parte", passando por "quais instrumentos vão solar e quem os acompanhará", até chegar às mais complexas, como a escolha da harmonia, das tensões dos acordes, da forma. Outras vezes, porém, nada está lá desde o princípio e as ideias vão surgindo conforme vou trabalhando na composição, seja em casa, nos ensaios ou ouvindo gravações de shows para verificar o que está ou não funcionando conforme imaginado.

Há também os casos em que sou traído por meu ouvido, pela ideia inicial; quando isso ocorre, ao ensaiar algo que fora composto ou arranjado de tal forma, supostamente clara, o que se passa é que dá tudo errado e tenho que recomeçar todo o processo de escuta, de tocar, de testar outras ideias e situações, arranjos. Enfim, há muito de trabalho cotidiano, de pensar e repensar suas ideias e projetos; há, ainda, um tanto de tentativa de erro, de querer se arriscar...

RC- Fale-me sobre a gravação deste CD. O que foi gravado de forma separada e o que foi ao vivo de forma coletiva?
TR-
Para as composições que no disco apresentam a formação de guitarra, saxofone, piano elétrico, baixo e bateria, as bases e a grande maioria dos solos foram gravados ao vivo, com todos tocando juntos; fazíamos, geralmente, dois, três takes de cada música; parávamos para ouvi-los e escolhíamos, por consenso, aquele que achávamos que todos tinham tocado melhor. Se o take escolhido tivesse alguma "trave" ou imperfeição mas, mesmo assim, fosse um take bom, regravávamos, em separado, somente o trecho, frase ou acorde em questão. Nas músicas em que toco mais de um instrumento, gravei primeiramente o instrumento da base; em Pra você não chorar, por exemplo, gravei o violão 7 cordas e depois fui gravando os outros instrumentos. Nessa música, o violão, o pandeiro e a harmônica foram gravados ao vivo e o restante é overdub. Para o caso das músicas que têm piano acústico, o Hercules gravou ao vivo tocando no piano elétrico e depois refez sua parte no piano do Estúdio Zabumba em São Paulo, uma vez que o Estúdio S/A não possuía um piano acústico com a mesma qualidade daquele do Zabumba. A voz da Andrea dos Guimarães, todas as percussões, as sanfonas e as músicas com mais de um instrumento de sopro, foram gravados em separado.

RC- Este CD possui faixas com rítmicas bastante contrastantes com 2, 3, 4, 5 e 7 tempos, por exemplo. Qual a importância da rítmica em suas composições?
TR-
Tem importância central, ao lado da harmonia. Se você me perguntasse como os elementos da música se apresentam para mim, de como eles naturalmente se manifestam quando estou tocando ou compondo, diria que tenho um ouvido predominantemente melódico. A melodia é, para mim, algo fácil e, por essa razão, um grande ponto de partida para uma parcela significativa do que produzo, seja como instrumentista, seja como compositor. Assim sendo, a harmonia e a rítmica apresentam-se como elementos capazes de dar cores e climas completamente diferentes a uma melodia que me ocorra. Agrada-me muito ouvir uma melodia que acaba por ter seus caminhos, intenções e cores modificados ou enriquecidos por uma harmonia que a priori não é a que se esperaria para o movimento melódico em questão. A rítmica cumpre igual papel e produz resultados similares nesse processo. É por essa razão que harmonia e rítmica ocupam este lugar central em meu fazer musical: uma vez que a melodia chega até mim de forma mais natural, o trabalho acaba por se concentrar, majoritariamente, nestes dois outros elementos. Dentre minhas composições, acredito que os exemplos que ilustram bem o que acabo de dizer são Jovem há mais tempo, Luciana chegou e Nascimento, do álbum Aprendendo a ser só, Tempête à Luzern, do EP Righi & Pontet (disponível para audição em meu site) e uma recente composição - ainda sem nome definitivo nem gravação - que pode ser ouvida em meus shows pois faz parte de meu próximo trabalho, Contos Insulares, que pretendo gravar, se tudo correr como planejo, no final de 2017.

RC- Eu gostaria que falasse sobre o texto da música "Luciana chegou".
TR-
Apesar do texto, em forma de melodia cantada, ser o último elemento a aparecer no arranjo, Luciana chegou começou a ser composta a partir desse texto musicado. Luciana é filha de um casal de amigos e, quando ela nasceu, ao receber a notícia, tomado pela felicidade da boa nova, o primeiro sentimento que me ocorreu em relação à Luciana veio em forma de música, em uma frase musical que aflorou já com o texto, que é o texto da música. Isso ocorreu de forma espontânea, de imediato! Desliguei o telefone, pensei no que acabara de ouvir e cantei: "vem correndo pra brincar, Luciana já chegou".

"... tenho um ouvido predominantemente melódico"

Thiago Righi RC- Samba, choro, baião, frevo e muitos outros gêneros completam este CD. Como foi a escolha das músicas que seriam gravadas?
TR-
Apesar de contemplar diferentes gêneros, esse pensamento não foi o inicial ou o que norteou a escolha das músicas. E, no mais, quando estou escrevendo, raramente parto do "vou, agora, compor um choro; amanhã, um baião; depois, um frevo", etc; meu processo criativo não se dá nem se desenvolve dessa forma. As coisas vão acontecendo por meio do trabalho periódico, rotineiro e, quando vejo, tenho um material novo - seja uma ou algumas composições novas, uma ideia para um show ou o conceito de um álbum... Quando decidi que iria gravar Aprendendo a ser só, "visitei" meu acervo, abri o arquivo de ideias, de músicas que estavam prontas, de esboços e rascunhos, enfim, remexi, juntei e organizei o que havia produzido nos últimos anos, até aquele momento. Disso saí com uma quantidade suficiente para fazer o álbum e restava, então, dar um sentido para as coisas, criar elos, pensar na história que queria contar, no trajeto musical que o disco percorreria. Ainda em relação a meus processos de criação e escolhas, posso dizer que, à exceção de alguns períodos de estafa criativa, estou sempre escrevendo, compondo. Encaro a composição como um exercício diário, constante, à maneira como Carlos Drummond de Andrade encarava a poesia. Vale a citação:

"Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos."

Essa relação que Drummond tinha com a poesia eu busco, incessantemente, estabelecer com o fazer musical como um todo e, de forma mais específica, com o ato de compor.

RC- "Sarutaiá" é a única música em que você atua sozinho. Existe alguma dificuldade em gravar desta forma. Fale sobre o assunto.
TR-
A maior dificuldade foi afinar a viola e, depois, mantê-la afinada até o fim do take. Mas isso é piada pronta! Falando sério: Sarutaiá é uma música que compus para meu pai e sua terra natal, que envolve e evoca memórias afetivas muito importantes, profundas, distantes no tempo. Meu maior desafio foi interpretá-la de uma maneira que essas memórias aflorassem e se refletissem na gravação. Isso é muito pessoal e tenho consciência de que somente eu posso avaliar o quanto esse objetivo foi alcançado. Mas, sendo extremamente sincero e despretensioso, posso afirmar que cheguei ao resultado esperado. O que corrobora essa assertiva é o seguinte: a não ser quando o faço por razões profissionais, não tenho o hábito de escutar meus trabalhos; Sarutaiá e Pra lembrá do Zé Orede são as únicas exceções a essa regra! E isso se dá porquê ambas evocam, têm a ver com minhas saudades e memórias afetivas mais intensas, profundas, longínquas. Não por acaso elas aparecem, no álbum, uma seguida à outra e sem interrupção do áudio; o último acorde de Sarutaiá é também o primeiro de Pra lembrá do Zé Orede, recriando, musicalmente, um elo que existe na vida material e afetiva. Zé Orêde era o apelido de meu avô paterno, Sarutaiá a cidade onde ele construiu sua vida e terra natal de meu pai. O violão de aço que se ouve em Pra lembrá do Zé Orede é um Tonante (que originalmente veio equipado com cravelhas de madeira) que foi de meu avô por mais de sessenta anos e que eu herdei! Por meio da forma pela qual estas duas músicas foram gravadas e dispostas no CD, o que estipulei como desafio e pretendi recriar foi, de traz para frente no tempo, uma linha que originalmente parte de meu avô e chega até mim. Assim, partindo de mim, compus e toco uma música que parte em direção a meu pai e retroage até chegar em meu avô. Tudo isso tendo como pano de fundo um lugar de vida e memória para nós três, Sarutaiá. Olhando retrospectivamente, vejo que escrevi e gravei essas composições muito mais para mim do que para o público. Ouvi-las é uma forma de apaziguar saudades...

RC- Quais são as suas referências auditivas? Diga-me sobre a importância delas.
TR-
Eu ouço muita coisa diferente! Sou muito aberto e busco constantemente ampliar meus horizontes. Logo, pensar em aqui listar alguns nomes ou gêneros não faria sentido nem justiça a tudo o que ouço e pesquiso. Além de guitarrista e compositor sou, também, historiador. Este último métier conduz-me à pesquisa, à vontade de (re) descoberta e contextualização daquilo que ouço, sempre em busca da história e da historicidade de cada gênero, compositor, obra... Esse fato contribui para que eu esteja sempre ampliando minha discoteca. Acredito, enfim, que as referências auditivas cumprem, também, esse papel formativo.

Por fim, a maneira como me relaciono com o que ouço acaba criando algo de sazonal que se combina com o perene: tem sempre aquele som que acabei de descobrir e não paro de ouvir que convive com aqueles sons que são definitivos para mim, que nunca entram em "modo soneca"!

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