Entrevista com Valdeci Moura

Entrevista com o contrabaixista e compositor Valdeci Moura que falou sobre sua banda Groove Soul, "Método para contrabaixo", vídeo-aula, a importância do estudo, música no contexto da igreja evangélica, Quinta Gardenal e muito mais.

Rodrigo Chenta- Eu gostaria que discorresse sobre a formação dos grupos Groove Soul e Quinta Alterada respectivamente.
Valdeci Moura-
O "Groove Soul" surgiu em 2000 de uma formação que eu já tinha chamada "Valdeci e Banda". Eu não queria gravar um CD com o nome de "Valdeci e Banda" porque eu não cantava. Achei melhor usar outro nome, pois assim, envolveria todo mundo que tocava no grupo. Já existia o "Templo Soul" e fiquei meio receoso de colocar o nome de "Groove Soul". O Rogerinho na época era meu funcionário e conversei com ele se não tinha problema de eu e usar o nome. Dei uma pesquisada se já existia e resolvi deixar o que ficou. Não tem uma definição ao pé da letra. Temos "groove" que significa levada em uma linguagem musical e "soul" que é alma. Poderia se traduzir como o ritmo da alma, levada da alma. O nosso melhor do interior para Deus.

O grupo "Quinta Alterada" surgiu em 2005. Eu sempre tive uma banda de música instrumental e queria que tivesse um nome interado a alguma coisa da música instrumental. O acorde com a quinta alterada é um acorde torto e achei que ficava legal usar este nome.

RC- Cada álbum lançado pelo Groove Soul possui uma concepção própria com gravações bastante distintas dentre outros aspectos mais. Como é o processo de pré-produção de gravação destes trabalhos?
VM-
Eu não sou um cara 100% compositor. O compositor é uma coisa nata de quem tem este dom. Eu me esforço para compor e tenho muitas parcerias com o Samuel e o Rogerinho do "Templo Soul". Nas minhas músicas em particular eu sento para compor e não consigo fazer a letra primeiro. Tenho que fazer a harmonia da música primeiramente, crio a melodia com uma ideia e gravo para ver como ficou. Depois eu mostrava para o Samuel, ele colocava a voz dele e assim ficava uma coisa definida. Eu mostrava para o pessoal da banda e definia que cantaria cada música e verificava se o tom estava bom para o cantor. A pré-produção de cada álbum surge assim em relação às músicas. Quando em parceria, um cria o refrão, outro faz uma parte diferente, etc. Não sou daqueles que tem 200 músicas sobrando e escolhe qual gravar no CD. Eu componho mesmo é para fazer o CD.

RC- Com quatro álbuns lançados e um DVD ao vivo qual é o critério de escolha das músicas que fazem parte do repertório executado nas apresentações musicais da banda?
VM-
Sobre o repertório e juntando os quatro CDs, tudo dá umas 45 músicas, porém as que a gente geralmente toca são as mesmas. Quando gravamos um CD vemos as que o pessoal cantou, que ficaram mais fáceis, as que trabalhamos mais e acrescentamos as que sobressaíram e montamos um repertório geral de eventos. Nunca dá para tocar todas as músicas. Se tocarmos 10 músicas daria mais de uma hora e meia de show e geralmente não temos todo este espaço para tocar.

"Eu componho mesmo é para fazer o CD."

Valdeci Moura RC- O grupo já participou de eventos musicais em diversas igrejas. Quais são os equívocos que você mais encontra costumeiramente nos locais onde o Groove Soul se apresenta?
VM-
Não tem muito que dizer, mas já aconteceu de ter evento onde o "Groove Soul" era a banda principal e nos deixaram para tocar por último e no final das contas só dava para tocar duas ou três músicas. Já teve equívocos de trocarem o nome ou falar Gróve Soul. Teve lugar que a gente chegou com o repertório armado, olhamos para a igreja e tivemos que mudar, pois se tocássemos o combinado era capaz de expulsarem a banda ou orarem para expulsar demônios de nós. Já aconteceu de mudarmos para um repertório congregacional porque quem nos chamou amava a banda, mas não era a cara da igreja, pois imagina 14 músicas com metaleira e fazendo barulho... Por isso é preciso ter um feeling para mudar as músicas quando necessário, mas isso aconteceu poucas vezes.

RC- A formação instrumental do grupo é relativamente grande e já passou por algumas trocas de integrantes. Como você administra a reunião destes músicos em relação aos ensaios, apresentações e gravações?
VM-
Como a banda é muito grande, rolam algumas dificuldades mesmo. Por exemplo, hoje em dia em que a banda não está mais tanto em evidência, os ensaios são esporádicos e os marcamos quando vamos tocar. Já aconteceu de marcar reunião e comparecer metade da banda. Teve caso de faltar no ensaio e eu brinco que veio só o "Groove" e faltou o "Soul". São 14 músicos contando com o MC que é o Robert. A dificuldade dos ensaios acontece em apresentações também. O mais difícil é quando vão faltar os metais. Às vezes os caras deixam de ganhar uma grana muito boa para tocar no ministério. Quando não tem jeito eu corro atrás de um sub e é difícil achar um cara que lê de primeira. Tem vez que chamo ex-integrante do grupo. Isso acontece em todas as bandas com formação grande. Já me sugeriram diminuir a banda, mas eu quero é aumentar a banda, pois fica mais o som que eu quero ouvir.

RC- Os refrães do Groove Soul são bastante marcantes e facilmente memorizáveis. Como funciona o momento de criação das letras e melodias?
VM-
Eu tenho um tipo de composição e todas as músicas do "Groove Soul" são padrão. Há uma introdução com algum instrumento solando improvisando, vem a voz, o refrão duas vezes, volta um improviso de instrumento no meio, canta a música inteira de novo, repete o refrão quatro vezes no final e faz um fade out com alguns instrumentos improvisando. Este é um padrão de música minha. Coincidentemente as músicas que fizeram mais sucesso são as que começaram com o refrão. Isso é engraçado, pois quando a música começa assim, fica mais forte como "Hoje me alegrei quando me disseram ...", "Eu quero ser feliz ao lado de Jesus ...".

RC- É bastante comum algumas pessoas se confundirem em relação à definição de termos como "groove", "funk", "soul". Como é possível conceituar os três?
VM-
Essa definição é uma coisa complexa. A banda "Groove Soul" não é uma banda de "Soul". É considerada uma banda "Black" por que faz um som com ramificações da música black como "funk norte-americano" e "rithm n’ blues". No primeiro CD não havia uma identidade. Peguei músicas de amigos e gravei. A partir do segundo CD se criou uma identidade e caracterizou-se também como uma banda de "acid jazz" valendo isso para o terceiro e quarto CD também. O "acid Jazz" é um ritmo de Londres que mescla os derivados de funk, soul e hip hop com instrumentos do jazz. Daí uma das características das músicas de ter improviso. Temos uma grande influência da banda "Incognito". Sou apaixonado por este tipo de som e o "Groove Soul" é um clone destas ideias do "Incognito" não por copiar, mas por gostar do formato. No "Soul" a harmonia não fica andando. Cria-se uma levada e põe a letra. No "Groove" é tudo mais quebrado e com swingue onde o baixo e a bateria são mais soltos. O "Funk" verdadeiro é uma coisa dos anos setenta e que se perdeu a identidade. Com a tecnologia o som ficou moderno e sumiram os analógicos.

"Já me sugeriram diminuir a banda, mas eu quero é aumentar ..."

Vídeo aula de Valdeci Moura
RC- Você possui uma grande coleção de contrabaixos da marca Giannini. Conte como surgiu o apreço por estes instrumentos.
VM-
Os meus primeiros contrabaixos eram da marca Gianinni e tenho uma paixão pelo modelo jazz bass, os antigos da linha AE08. Comecei a comprar baratinho em lojas de usados e virou uma paixão. Tem gente que coleciona carros, selo ou vinil e eu coleciono baixos e não é uma ostentação. Esta coleção já chegou a ter 21 instrumentos e por motivos financeiros tive que vender alguns e hoje tenho 17 da marca Gianinni mais os baixos de uso que são de outras marcas.

RC- Em 2003, você lançou o "Método para Contrabaixo" que acompanha o CD "Groove nosso de cada dia" e utilizou uma escrita feita à mão em vez de fazer uma editoração das partituras. Isso demonstra de certa forma a individualidade e algumas nuances do autor. Fale sobre este material?
VM-
A escrita das partituras à mão foi pelo motivo de na época eu não ter aplicativos e programas para fazer esta editoração e também porque eu queria que fosse algo manual mesmo. Este método já tem o volume I e II e ano que vem sairá o III. A ideia é de uma faixa com o baixo e outra sem o baixo para que o aluno toque a linha que gravei ou faça outra que quiser criando o seu groove encima da harmonia já gravada no CD sem o baixo. É um projeto que particularmente gosto muito e no terceiro terá um play-along para outros instrumentos como bateria, guitarra, saxofone e teclado.

RC- Já a tempos existe uma infinidade de vídeo-aulas sobre contrabaixo gravadas tanto por músicos brasileiros como internacionais principalmente. O que te motivou a lançar a vídeo-aula em DVD "Contrabaixo e seus conceitos"?
VM-
Quando a lancei não tinha a pretensão de ser uma grande referência e tal. Estou no ramo do ensino a muito tempo. Não generalizando, mas a maioria dos vídeos do tipo mostram o cara fritando e tal, mas não didaticamente. O cara toca, toca e frita, mas não explica nada. A minha ideia a princípio era trazer o contrabaixo e seus conceitos com uma onda didática. Eu fui infeliz porque ele ficou muito longo com duas horas e dez minutos de duração e só cabe naquelas mídias de 8GB de tamanho. A ideia era ter separado em duas partes, mas como eu quis fazer tudo de uma vez, lancei junto. Ele é um método didático e fala desde os princípios de posturas de mão até improvisação. Eu quis unir como se fosse uma master class de contrabaixo e vídeo-aula falando um pouco de como estudar e outras coisas mais.

RC- O evento "Quinta Gardenal" acontece mensalmente à mais de uma década com músicos importantes marcando presença. Já se tornou um point de música instrumental em São Paulo sendo imitado em outros lugares. Comente sobre o início deste evento.
VM-
A Gardenal foi uma ideia em que comecei a fazer na escola de música uma semana inteira de workshop onde segunda era saxofone, terça era canto, quarta bateria, quinta contrabaixo, enfim, uma semana de workshop e foi maravilhoso e com muita gente. Todo mundo me perguntou quando aconteceria a próxima. Só que para manter isso tinha um custo e não dava para manter sempre. Daí eu pensei em fazer um evento por mês. Na quinta-feira não tinha muitos alunos a noite e escolhi este dia para o evento. Eu tinha alguns cachorros com problema de saúde e que tomaram o remédio Gardenal até morrerem. Pensei em "Quinta Gardenal" onde o cara vem, toma o remedinho que é o som e sai bom daqui. Foi uma forma de brincadeira que pegou. A pessoa vem, ouve o som e não passa mal.

Já passaram os músicos mais famosos do instrumental brasileiro. Tem histórias engraçadas sobre a Gardenal. Uma vez chamei um músico para tocar e ele me falou o valor do seu cachê, mas na época era uma coisa fora de cogitação e disse que não tinha como fazer naquele momento, pois o pessoal vinha tocar na amizade. Só que o evento tomou corpo e ficou famoso e o músico em questão viu na internet vários vídeos e com amigos dele se apresentando e tal, até que me ligou se oferecendo para tocar. Permiti que ele viesse e acabou virando cliente se apresentando várias vezes.

"São poucas a igrejas que tem um ministério que sustenta os músicos. "

Banda Groove Soul RC- Muitas pessoas acreditam que basta ter boa vontade para tocar na Igreja e usam isso como desculpa para relevar erros cometidos no período musical dos cultos cristãos. Fale sobre a importância do estudo para a atuação neste contexto.
VM-
O ser humano tem o lance do extremo. Está fazendo para Deus e ele vai receber e tal.. Tem esse lado humano que é legal, mas tem um lado que não pode ser só espiritual e tem que ter técnica para tocar e para isso precisa estudar. É muito importante a pessoa estar capacitada para fazer. Se ela tem condições ou a igreja pode ajudar pagando um curso é legal porque ela estará capacitada para tocar e o som vai ficar maravilhoso, melhor, os ouvintes que são os membros ficarão felizes ao ouvir um som bom, ele vai ficar feliz, a banda pois estará com uma qualidade melhor, não estará limitado a tocar só um tipo de música, etc. Quanto mais conhecimento tiver melhor será e mais capacitado.

RC- No meio cristão evangélico é bastante comum quando uma pessoa começa a trabalhar profissionalmente com música não tocar mais nas igrejas. Ao seu ver, o que contribui para isso?
VM-
Este acontecimento é meio que inevitável e não porque o músico quer. As pessoas começam a chamar o músico para tocar, pois está envolvido grana e ele vai. Se as igrejas tivessem estrutura para conseguir mantê-lo, remunerá-lo provavelmente ele ficaria. As pessoas veem um músico tocar e ficam admiradas, porque geralmente os músicos de igreja são os melhores que tem. Basta observar as gigs de artistas, a maioria dos músicos são de igrejas. Eles são muito bons e virtuosos. A igreja perde o músico que vira profissional porque ele tem que comprar o leitinho das crianças e vai tocar por aí para obter o seu sustento através da música. São poucas a igrejas que tem um ministério que sustenta os músicos. Dá para contar nos dedos as igrejas que fazem isso.

RC- Que conselhos você daria para aqueles que almejam participar dos grupos musicais que atuam no escopo da igreja cristã?
VM-
Estudem com professor particular ou em uma escola legal para estar capacitado. Sempre é bom estudar se a pessoa tem um poder aquisitivo para isso. Existem os virtuosos que aprendem sozinho e saem tocando do nada, algo que parece sobrenatural, porém, creio que de cada cem um é virtuoso e o resto tem que correr atrás. Eu mesmo virei músico de teimoso. Tive que estudar e na minha família ninguém era músico. Tive que batalhar.

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