Entrevista com Vitor Karyello

Vitor Karyello, guitarrista e compositor fala sobre o seu primeiro CD intitulado "Foto Síntese", seu processo de gravação e a respectiva mixagem, sua definição do que é música, prêmio "Olho Vivo" e muito mais.

Rodrigo Chenta- Eu gostaria que falasse sobre o título do teu CD "Foto síntese".
Vitor Karyello-
Acredito que a produção de um álbum, desde as músicas escolhidas até o processo de gravação reflita um momento que estamos vivendo. "Foto" por ser um registro do momento e "síntese" por reunir tudo que passamos até agora, não só musicalmente, mas toda bagagem que cada músico traz consigo em sua existência, com todas as virtudes e defeitos.

RC- No encarte afirmou que "música é a emoção manifestada através de ritmos, melodias e harmonias...". Definir o que é música sempre causa polêmica. Fale sobre a ideia de emoção que escreveu.
VT-
Verdade. Música é a emoção manifesta por meio dos sons. Mistura sentimento, matemática, física e mística. Quando estou em um estado de imersão, consigo ouvir música em quase tudo: carros passando, o barulho do trem, no limpador do pára-brisa do carro, até quando estou conversando com as pessoas, percebo música na forma e intensidade que elas falam. Não consigo entender direito como isso acontece, e sinceramente pouco me importo. Uso todo tipo de influência para me inspirar. Música é meu ar.

RC- Ouvindo este álbum parece que os volumes em relação à mixagem estão assim: a guitarra está na frente vindo posteriormente o contrabaixo e por fim, a bateria. É uma impressão ou foi proposital?
VT-
Curioso, não tinha percebido isso. O disco foi gravado por Diogo Macedo e Lucas Macedo, no estúdio EME na Barra da Tijuca/RJ, e mixado pelo Diogo, que é um super baterista. Diogo assistiu a alguns sons que fizemos ao vivo para sentir o clima, pois queríamos que soasse o mais verdadeiro possível. Na mixagem ele procurou chegar o mais próximo possível do que se ouve nos shows. Quando nos enviou as músicas para conferirmos, os volumes já estavam praticamente no lugar, ajustamos alguma coisa e nada mais. Não existiu coisa do tipo: "A guitarra na frente, o baixo no meio e batera mais a trás", ficou o que estava soando melhor, o que a música realmente pedia.

"Música é a emoção manifesta por meio dos sons."

Vitor Karyello RC- Na guitarra é perceptível o uso do efeito reverb em todo trabalho. Como fez para decidir o timbre do teu instrumento nas músicas gravadas?
VT-
Timbre: um dos grandes desafios do músico. O timbre é um dos elementos que define a identidade do músico. Soar parecido com músicos que você admira é muito comum, pois é essa a referência auditiva que está dentro da sua personalidade. Já tentei várias combinações de guitarras, efeitos e amplificadores, mas sempre volto à guitarra acústica. Me sinto confortável com o som, me identifico ali. Sabe quando você toca com outro timbre, ou outro instrumento, e tem a sensação que não é você que está ali tocando? Pois é, acontece comigo. Amo o timbre da Strato, é um som apaixonante, mas pra minha personalidade, me encontro na guitarra acústica. Gravei com um set super simples. Guitarra Condor Modelo Nelson Faria com cordas Flat Wound Daddario Chromes 0.12 e uma Condor JC-16 com as mesmas cordas da anterior, cabos tecniforte e um amplificador Cube 60 da Roland que usei o reverb. Tem um delay também muito discreto que foi adicionado na mixagem.

RC- Qual o teu critério para nomear as tuas composições musicais?
VT-
Não há critério. É complicado nomear as coisas, principalmente música instrumental, mas gosto disso. As músicas surgem do nada, em determinada situação que estou vivendo, então nomeio de acordo com essa situação. Não tenho muita preocupação com nomes, e muito menos tento descrever o que sinto ou senti ao compor cada tema. Quando sua composição se torna pública, ela deixa de ser sua e segue seu rumo. Cada pessoa a sente de uma forma diferente, e isso é fantástico.

RC- Atualmente muitos músicos não usam mais o formato físico de CD ao lançarem seus trabalhos, optando assim, pela mídia digital. Você utilizou os dois meios. Como entende esta questão?
VT-
Sou das antigas, e esse é meu primeiro álbum feito com muito carinho, amor e sem apoio financeiro direto. No início fiquei em duvida sobre o físico, mas faço muitos shows pela minha região e senti que me faria falta. Hoje acredito que o álbum seja um cartão de visita, ou melhor, sua carteira de identidade. Embora todos estejam conectados por seus celulares, acho interessante ter o disco físico, ler o encarte, sentir o cheiro. Faço questão de comprar o disco de todos os artistas que admiro. Sei que essa cultura esta sumindo, mas me juntei à resistência que ainda quer que isso continue. Estou começando a divulgação do disco agora e muita gente já me pede o formato físico. Fico feliz com esse tipo de apoio.

"As músicas surgem do nada, em determinada situação que estou vivendo ..."

Vitor Karyello - CD Foto síntese
RC- Como você definiu o que entraria na gravação deste trabalho?
VT-
Sempre curti esse lance de tocar em trio, principalmente por conta do desafio. Testei algumas composições que eu já tinha antes da formação desse trio, mas a maioria foi composta pensando nesse formato. São temas simples que permitem um universo para improvisação, que é o principal foco do Foto Síntese. Testei todas ao vivo, e escolhi as que mais soavam bem e que mais nos agradavam.

RC- De que maneira foi o processo de captação dos instrumentos no estúdio?
VT-
Tentei reproduzir o clima do que acontece ao vivo. Assim, gravamos todos juntos em uma sala simultaneamente, sem metrônomo e com todos os vazamentos, impossibilitando overdubs. Foram 8 horas de gravação contínuas e, confesso, desafiadoras. Demoramos um pouco para entramos no clima e deixarmos a tensão de lado. Acho que todo músico que faz esse tipo de som, deveria passar por uma experiência dessas, é libertadora.

RC- Você ao compor já vem com o arranjo pronto ou ele é construído nos ensaios com o trio?
VT-
Começo pela melodia e automaticamente a harmonia básica vem junto. Sou um estudante na arte do chord melody e aproveito para compor usando essa técnica que funciona muito bem em trio. Os arranjos acontecem de forma espontânea, não sentamos e definimos o arranjo antes de tocarmos.

Eu enviava as músicas pro Albert Batista (baixo) e pro Helbert Santos (bateria) só na guitarra, muitas vezes por WhatsApp. No show, eu começo determinado tema e eles já sabiam o que fazer. Sempre dei total liberdade para tocarem o que sentissem. Como sempre gravamos nossos shows, escutávamos e mantínhamos o que ficou bom e assim os arranjos foram sendo definidos. No próprio dia da gravação algumas músicas não saíram como imaginávamos. Isso tudo é mágico, nós víamos a música ganhando outras cores no exato momento em que registrávamos.

RC- Muitos reclamam sobre a falta de locais para mostrar este tipo de música. Como faz em relação aos concertos do trio?
VT-
Pois é, eu era um deles. Moro no interior, e sabe como é? Tudo mais difícil. Toco guitarra há 19 anos, comecei relativamente tarde, aos 17. Aos 23 descobri a música instrumental e me apaixonei completamente, principalmente pela possibilidade de criação instantânea que esse tipo música possibilita. Aos 26, montei meu primeiro trio para estudo e criação de repertório. Ensaiávamos toda semana pro som ficar "redondo", mas por mais que você ensaie, nada substitui a experiência do "ao vivo". Foi minha primeira dificuldade, pois não achava lugares pra tocar, nem de graça. Desanimei bastante, porque sinceramente, não tinha saco pra ensaiar toda semana. Como ficar ensaiando uma música que normalmente é improvisada? Pra mim não fazia sentido. Larguei o instrumental. Há mais ou menos 4 anos, senti uma necessidade espiritual de voltar a tocar esse som e decidi entrar de cabeça novamente. As mesmas dificuldades de sempre, faltava espaço. Foi quando ouvi uma frase do grande Nelson Faria: "Se não fizermos por nós, quem fará?" Foi então que novamente montei um trio, e fui de casa em casa oferecer o trabalho, praticamente a custo zero e por felicidade, fui recebido de portas abertas na maioria dos lugares. Acredito que essa massificação de um determinado estilo que existe hoje, possibilitou que algumas casas acreditassem em algo novo. Hoje tenho uma agenda de pelo menos um show instrumental por semana, que é muito bem aceito. Gostaria que mais músicos fizessem isso, que buscassem espaços para fazer arte e não apenas música de entretenimento. Sei que nós precisamos comer, pagar contas, mas não podemos em hipótese alguma, deixar de fazer música de verdade, não importa o estilo.

RC- Fale sobre o prêmio "Olho Vivo" que recebeu na categoria de instrumentista.
VT-
O site Olho Vivo promove muita arte em toda região sul do estado do Rio de Janeiro. Fui agraciado com o prêmio em 2015 como melhor instrumentista. Fiquei muito contente e surpreso, pois não imaginava ser indicado pelo público e na final ser escolhido por 10 artistas de seguimentos diferentes. Trabalho com música instrumental, que não tem tanta visibilidade. Foi um incentivo para que eu continuasse nesse caminho e assim nasceu o Foto Síntese.

"... não podemos em hipótese alguma, deixar de fazer música de verdade, não importa o estilo."

Vitor Karyello Trio RC- Já foi dono de escolas de música. Quais são os maiores desafios que percebe neste tipo de empreendimento?
VT-
Tive duas, eu era bem mais novo e cometi diversos erros como todo empreendedor comete. Eu estava em uma fase de tocar, viajar muito, mal parava na escola e isso é um grande erro. Quando se abre um negócio, você precisa estar totalmente imerso naquilo, e eu realmente não estava. Outro grande problema é como a maioria das pessoas "vê" uma escola de música. "Vendemos" um sonho, e sobrevivemos disso. A escola gera despesas fixas e muitos dos alunos e pais não percebem isso. Há uma equipe de profissionais capacitados, com horas de estudo e dedicação voltados para o ensino, mas muitos não enxergam assim. Acho que é cultural no nosso país. Arte em geral está no topo das coisas "supérfluas" para a maioria, mas ninguém vive sem. Tem crise? Tira da aula de música. Mensalidade atrasada? Ahhh, mês que vem acerto tudo, mas a pessoa nunca mais volta. Enfim, amo dar aulas e nada vai fazer com que eu pare. Hoje estou terminando minha faculdade de licenciatura, sou professor da Sonatta em Volta Redonda e na Starling Academy of Music no Rio do de Janeiro, que por sinal é uma escola inovadora em relação à cronologia de ensino que é baseada em faculdades estrangeiras. Se penso em ter minha própria escola novamente? Hoje não, mas quem sabe em alguns anos.

RC- É comum alguns alunos virem com o desejo de se tornarem músicos profissionais e que desistem quando descobrem as opções da profissão. Qual a sua visão a respeito?
VT-
Já acabei com o sonho de alguns (rsrs). O problema é que ser músico virou algo romântico, um conto de fadas. O cara quer fazer aula de canto, pra ser a nova voz do Brasil, o cara quer estudar guitarra e ser o novo Steve Vai, nada de errado em querer isso, se esse é o desejo, ok. O que acontece é que "viver" de música é bem diferente disso. Já fiz todo tipo de trabalho, alguns que não gostaria de ter feito, mas fiz e aprendi muito com cada um deles. Fui contratado, desempenhei da melhor maneira possível, recebi meu dinheiro e vida que segue. Quando a música me escolheu, eu sabia que passaria por diversas dificuldades que pra uma pessoa normal, seria um martírio. Quando chega um aluno e diz: Professor quero fazer faculdade de música (licenciatura) o que você acha? Respondo: Bacana, você quer ser professor? – De jeito nenhum, não tenho paciência, é só pra ter uma faculdade mesmo. Outra pergunta: - Como você toca naquele lugar, ninguém presta atenção, jamais conseguiria tocar assim. - Tenha contas a pagar que você toca sim. O papel do educador é mostrar os caminhos e possíveis soluções, mas o aluno é que deve trilhar seu próprio caminho. Não desencorajo ninguém, apenas conto minha história, uns se inspiram e outros saem correndo. (rsrs).

RC- Existem músicos que atuam no paradoxo de não ouvirem música com frequência. Como entende este assunto?
VT-
Até meus 15 anos não ouvia música, se ouvia, não me recordo. Hoje estou envolvido com música 24 horas por dia, até quando vou dormir escuto. Cada um tem um modo de viver determinadas coisas, eu por exemplo hoje, evito escutar guitarristas, com dor no coração, mas evito. Estou ouvindo coisas que não sou habituado a ouvir. Somos o resultado do que lemos, ouvimos e vivemos e isso tudo reflete em nossa música, acredito muito nisso.

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