Entrevista com Zéli Silva

Zéli Silva, contrabaixista e compositor fala sobre seu trabalho em duo com Vitor Alcântara e sua carreira solo, comenta o livro "Jazz - Harmonia e walking bass para contrabaixo - Vol 1", fala sobre crowdfounding, arranjos e muito mais.

Rodrigo Chenta- Ao gravar a música "Carinhoso" e o começo de "Mulher" e "Estrada Branca" em teu primeiro CD, atuou sozinho com o baixo, ficando assim, totalmente exposto. O que é necessário para quem pretende explorar esta forma de tocar?
Zéli Silva-
Acho que é necessário um bom conhecimento de harmonia e preparar um arranjo que seja fluente e musical, podendo explorar aspectos como melodias intercaladas por intervenções harmônicas, ostinatos e vamps para improvisações. O essencial é achar uma ideia que conduza o arranjo que se relacione com a composição.

RC- Nas músicas "Volta ao mundo" e "Ressoa" você usou harmônicos no contrabaixo elétrico, proporcionando assim, uma sonoridade muito peculiar. Isso é pensado no momento da composição?
ZS-
Sim essas musicas foram feitas explorando os recursos dos harmônicos e partiu de estudos específicos para isso. Chegando a texturas e ciclos harmônicos vieram as melodias das composições.

RC- Você tem um trabalho com Vitor Alcântara onde o saxofone tenor caminha juntamente com o contrabaixo. Em relação aos arranjos quais foram as dificuldades desta formação instrumental, caso haja e as vantagens de tocar em duo?
ZS-
As dificuldades se referem à afinação na execução e achar o lugar de cada um no arranjo, valorizando as texturas, os espaços "vazios" e os contrapontos.

"O essencial é achar uma ideia que conduza o arranjo que se relacione com a composição."

Zéli Silva RC- O que fazer para que nesta formação as músicas não fiquem com uma sonoridade repetitiva?
ZS-
Eu usei em algumas músicas o baixo acústico e em algumas o baixo elétrico de 6 cordas. Isso em si já traz uma abordagem distinta, com contraste e variação na sonoridade. Além disso a escolha do repertório e o caminho dos arranjos procuraram trazer variedade e unidade ao mesmo tempo.

RC- Ficou interessante a versão de "Julho por Deus" na formação de duo, bastante diferente do que foi gravado no álbum "Voando baixo". Também o mesmo para "Nós sambamos" gravada em duo e depois com formação maior. Fale sobre o arranjo destas músicas especificamente.
ZS-
Julho por Deus havia sido gravada com grupo no "Voando baixo" e achei que ficaria legal também em duo por ter uma melodia cantável, bom ciclo pra improvisar e boas possibilidades para contrapontos. Já em Nós sambamos foi o contrario, gravei primeiro em duo e achei que ela com grupo ficaria mais interessante, com mais pressão, e ficou, acho eu.

RC- Nos álbuns "Una" e "Agora é sempre" houve o uso de recursos através de financiamento coletivo. O que é necessário para conseguir o sucesso nestas companhas de crowdfunding?
ZS-
Acho que é necessário ter um bom projeto, bem amarrado e explicado, que seja atraente pela qualidade e pela clareza na realização. Daí é necessário divulgar bastante, sem extrapolar, através de emails, redes sociais e contatos pessoais. Tem que trabalhar bastante pra funcionar bem.

RC- O CD "UNA", a priori, estava com o apoio do Proac e da lei Rouanet. O que o motivou a usar o crowdfunding neste caso específico?
ZS-
Eu tinha a senha do proac isms e da lei roaunet, mas acabei não conseguindo o apoio financeiro de empresas, não captei. Daí fui pelo caminho do crowdfunding e deu certo.

"Gosto de música em geral, vários gêneros, do instrumental a canções ..."

Zéli Silva - CD Agora e sempre
RC- Do teu primeiro ao mais recente trabalho solo gravado aumentou consideravelmente a presença de canções. Houve uma preocupação para que as músicas fossem mais acessíveis ao público ou foi uma escolha estética?
ZS-
Foi uma coisa natural, de fase. Gosto de música em geral, vários gêneros, do instrumental a canções e no caso já tinha várias canções que não tinha gravado e fui fazendo outras pra completar o repertório.

RC- Existem músicos que atuam com repertório instrumental predominantemente e que ao comporem para voz não pensam no cantor o que ocasiona nem sempre em algo interessante. Não é o teu caso. O que pensa a respeito?
ZS-
Se é uma canção acho importante pensar no cantor/a e na alquimia entre o arranjo instrumental e a voz. Geralmente cabe valorizar a clareza da letra e dar liberdade pra abordagem do intérprete.

RC- Fale sobre os títulos dos teus CDs solo e como procede para nomear estes trabalhos?
ZS-
Eu penso no clima e conceito geral do CDs, na ideia poética e o que o título representa na minha vida naquele momento. A sonoridade do nome é importante também.

RC- Em relação ao teu livro "Jazz - Harmonia e walking bass para contrabaixo - Vol 1", publicado pela editora Souza Lima, quais são os diferenciais dele comparados com outros materiais que abordam este assunto?
ZS-
No método procurei trazer primeiro elementos importantes pros iniciantes, assuntos básicos necessários tais como arpejos, modos, campo harmônicos, cadências mais comuns, etc. Então abordo o assunto de half time e walking bass, divididos em técnicas por arpejos, escalas e aproximações cromáticas e suas mesclas. São coletâneas de ideias de vários métodos que estudei, que filtrei e procurei organizar sendo progressivo e didático.

"Se é uma canção acho importante pensar no cantor/a e na alquimia entre o arranjo instrumental e a voz."

Zéli Silva RC- Quais são os erros mais comuns no estudo do walking bass que já observou nos alunos?
ZS-
Difícil de responder, mas em linha geral é importante ouvir bastante jazz pra pegar o clima e ter um bom conhecimento harmônico pra escolher boas notas no walking, com o domínio da harmonia e da forma, do "chorus".

RC- Existem músicos que ao tocarem o contrabaixo elétrico soam como acústico, sendo às vezes proposital e outras não. Como você entende a questão das linguagens destes dois instrumentos?
ZS-
Acho que eles dialogam e podem se adaptar em certos contextos, mas acho que dá pra escolher o instrumento conforme o arranjo e a sonoridade que a musica pede. Eles são bem diferentes.

RC- Durante o teu processo de montagem de set de instrumentos houve alguma dificuldade ou recorreu a instrumentos artesanais? (Falo isso pelo fato de você tocar de maneira canhota).
ZS-
Os baixos canhotos são mais raros e meus instrumentos foram encomendados pra canhoto, no caso do elétrico e do fretless, e no acústico adaptado para canhoto.

Saiba mais sobre Zéli Silva
Saiba mais sobre Rodrigo Chenta