IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 16.

Decrescente

Crescente

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Standards?
Ano: 2017
Impressão:

Interrogar é quase cantar: há um ritmo específico para se falar em voz alta uma frase interrogativa. Se a entonação de dúvida não for ouvida, a frase perderá o sentido e a comunicação também. Assim, o EP "Standards?" do Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius Duo já o é musical desde o título. Tal ponto de interrogação no nome sugere falta de cerimônia e informalidade: um título que se auto questiona e uma obra que aparenta ser resultado de diversão.

O EP traz duas faixas já conhecidas de quem frequenta os shows do duo, e que beleza poder tê-las agora em registro!

É bastante divertido notar a surpresa da plateia quando o duo toca a primeira faixa do EP, "Cantaloupe Sandman", logo que "Enter Sandman" do Metallica é reconhecida. A inconfundível linha de guitarra não está ali como mero chamariz, pois se faz presente por praticamente toda a música, cedendo espaço algumas vezes mas sempre retornando. Há o que se impressionar com a facilidade na qual passam da tensão patente e até sombria do riff de Kirk Hammett para uma levada jazzística animosa. O bom humor do jazz e a fúria do metal encontram espaço e diálogo na mesma música. Para quem já é familiarizado com o som do duo é fabuloso como, mesmo partindo de um sucesso do Metallica (entre outros, como "Welcome Home (Sanitarium)" que Rodrigo cita em seu solo, e também frases do pianista Herbie Hancock no solo de Ivan), é perceptível o estilo próprio consolidado, a impressão digital garantida.

Já a outra faixa, "Saga of Harrison Crabfeathers", também carrega responsa pois sua harmonia é bastante conhecida dos fãs e músicos de jazz. Lembrar que seu compositor Steve Kuhn vem de um dos bairros mais icônicos de Nova York, o Brooklyn, faz pensar na relação do local de vivência com a composição, e o quanto a cidade de São Paulo pode também ter influenciado Rodrigo e Ivan nesse standard.

O início é bem a-lá duo e cinzento como a cidade em que residem, meio nublado, abafado, sonorizando o escurecer do céu que anuncia chuva. Segue assim até entrarem as frases famosas de Steve, afastando as nuvens e clareando/colorindo já aos 40 segundos de música. Essa variação climática, brusca como o é na capital paulista, está em toda a gravação enfatizando a falta de medo do duo de arriscar notas aflitivas sob uma composição famosa dessas.

Aos 4:18, após momento de muito som e agitação, instala-se uma calmaria comandada pelos próprios sons, quase sem precisar utilizar-se do silêncio, lembrando aquele professor que todos já tiveram cujo qual, apenas com o olhar, fazia os alunos entenderem suas ordens.

Dos 6 minutos em diante o que se ouve são as tais alterações meteorológicas revezando-se até o final, do acinzentado ao ensolarado, das notas aflitivas às confortáveis. O final é atípico, com um acúmulo muito interessante de notas - visto não ser tão comum pensar em muitas notas próximas ao encerramento -, para deixar que as ultimas escolhidas soem até o final de si próprias sem corte. A mistura da beleza com aflição, presentes em todo o standard, aqui estão NAS MESMAS NOTAS, simultaneamente. Alcançam um ponto sensível do ouvido que consegue incomodar e encantar conjuntamente.

Os palitos de fósforo na capa do EP talvez remetam ao próprio conceito do que significa standard, afinal, este padrão de palito que hoje em dia conhecemos demorou bastante a aparecer. Já houveram outros bem maiores e até perigosos, que chegavam a queimar sozinhos dentro da embalagem. Curioso como, apesar do nome ser "palito", já chamamos direto de "fósforo", sendo que NÃO há fósforo no palito e sim na lateral da caixa onde o acendemos.

Encerrando com uma interrogação: será que, do mesmo modo que o palito de fósforo precisa necessariamente da caixa para acender, não precisaria também o standard de jazz de improvisos e alterações para ser efetivamente um standard?


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Antítese
Ano: 2016
Impressão:

Diferenças em relação ao primeiro álbum do duo era uma das promessas de "Antítese". Com apenas duas guitarras seria possível lançar um conjunto de dez músicas novas que se diferenciassem notavelmente das anteriores?

É um tanto clichê apontar essa característica, mas creio caber bem: foi necessário ousadia por parte de Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius. Se o primeiro disco indicava a abertura de novos caminhos, como o próprio título sugerira, conquistando conforto e estilo, este segundo foi a virada inesperada em uma curva acentuada, a debandada da área de proteção. É quase uma instalação sonora.

O primeiro contato que tive com o que viria a se tornar o disco "Antítese", meses antes de seu lançamento, fora com as faixas "Novos Caminhos 2" e "Nove Horas" disponibilizadas pelo YouTube. "Nove Horas", na época, me chamou muito a atenção por conta da quebra: a música começa, cria um ambiente ao seu redor, constrói um cenário rapidamente para então quebrá-lo. O próprio som da frase que muda a música bruscamente lembra um som de quebra. Mas o rompimento é rápido, e logo és inserido novamente no ambiente de antes, agora já território conhecido. Este é o enredo: ambientaliza, desperta com uma "quebra", para em seguida retornar.

A "quebra" está bastante presente no álbum. A começar pela capa na qual as imagens estão invertidas em relação ao nome do duo - Ivan primeiro, Chenta depois. Já nisto, intencional ou não, pode ser revelado que não estou em mãos com uma obra fechada. Não é para ser concreto, geométrico, facilmente digerível. A interrogação é parte do conjunto. Nas duas faixas curtas esta indagação é bem visível: "Quartais" começa, parece que pegará força, e quando o ouvinte já a compreendeu e quer ouvir o que tem a dizer, ela simplesmente o abandona, terminando sem se explicar muito; já "Antítese", a faixa título, intriga! A guitarra é fisicamente usada ali. A própria madeira vira som - é orgânico, palpável, tateável. Sempre espero que a faixa título traga em si a razão para dar nome ao álbum. Sempre espero que não se revele como escolha aleatória, e sim que intuitivamente sejam percebidos os motivos para que aquela faixa nomeie toda a obra. No caso, a quase caótica "Antítese" cumpre tal expectativa.

Conversando com Ivan a respeito do primeiro disco na época que foi lançado, disse a ele que havia percebido como um álbum urbano. Mais especificamente começando com uma visita ao interior nas duas primeiras faixas e na sequência voltando à cidade grande. É um álbum ensolarado que tem cara de praça, ruas arborizadas, paisagem da janela do ônibus, raios de sol entrando pela janela da sala. Já "Antítese" percebi como um álbum noturno. Tem o charme da noite. Combina ser ouvido no silêncio da madrugada, solitário. Assim como no anterior, também enxerguei uma storyline: inicia-se de tardinha com as duas mais alegres do álbum, "Fritando Panqueca" (festiva) e "Faça a Luz!", para depois anoitecer. "Faça-se a Luz!", aliás, que tem uma "dança" encantadora das guitas - não diálogo, e sim dança, um passo aqui, um passo acolá - passa ideia de ansiedade. Muito espirituoso foi saber que Ivan a compôs num momento de inquietação quando faltou energia em sua casa e tinha várias coisas a fazer.

É na terceira faixa, "Crossfades", que começa o cair da noite. "Crossfades" é aquele momento em que não é nem noite nem dia. Em que não se sabe se dá "boa tarde" ou já "boa noite". Me levou pra confusão do fim do dia, quando os carros estão em peso na rua, o transporte público cheio, todos querendo escapar rapidamente das obrigações e da burocracia, para ao final me levar à calmaria extrema que fica na cidade quando já é tarde da noite. A aparição de tantas frases e propostas diferentes na música uma seguida da outra, uma quase atropelando a outra, trouxeram à encrenca das 18h de um dia de semana. Até que chega uma calmaria na música e que permanece, como se todos os carros já tivessem deixado as avenidas, o metrô vazio prestes a fechar, os grilos já audíveis.

Daí até o final é noite em "Antítese". Mesmo sabendo que "Nove Horas", por exemplo, segundo o próprio Ivan, refere-se às nove horas da manhã. Taí uma das graças da arte, a possibilidade de atingir cada um de maneira personalizada. Tenho afeto especial por "Nove Horas" devido a um singelo episódio: numa sexta-feira estava parado em um farol da Avenida Dom Pedro I e, então, ao começar a tocar tal música no celular, olhei no relógio do carro e vi que eram exatamente 21h. Foi o momento em que minha impressão a respeito do álbum e desta faixa em particular se materializaram diante dos olhos, andando por aquela avenida naquele exato horário que se apresentava exatamente como havia percebido a música, o momento em que muitos já se recolheram dentro de seus lares enquanto alguns ainda estão circulando.

Quando Ivan me contou que o título de "Nove Horas" se referia na verdade ao período matutino conversamos sobre títulos: o quanto títulos podem, dependendo do ouvinte, direcionar à visualização de imagens mentais a partir do que se ouve? "Sem Água" é uma na qual creio que o título leve bastante importância. Chenta já havia revelado que a inspiração para a própria vem da crise hídrica de São Paulo. É a mais melancólica do duo até o momento, a de maiores vazios. Não há pressa na execução, deixando as notas soarem solitárias até o final, acabarem como a água acabou. Curiosamente me lembrou sertão, apesar da inspiração urbana. Soou quase caipira.

"Novos Caminhos 2" é interessantíssima. O diálogo com a faixa título do primeiro disco é facilmente perceptível. Se a "Novos Caminhos" do primeiro apresentava tom um pouco triste, em "Novos Caminhos 2" as frases que estabelecem o diálogo com a anterior são executadas pra cima, mais esperançosas. A volta toda que esta música dá é longa e cheia de ambiente diferentes, porém, o (novo) caminho entre cada ambiente da música é elegantemente percebido. E é literalmente uma "volta", retornando no final ao primeiro dos ambientes, reencontrando às primeiras frases já familiares. Impossível terminar de ouvi-la sem um sorriso largo no rosto.

"Suite #1 (For Derek Bailey)" é um espetáculo com 3 atos: começa bem, te envolve e é até aconchegante, até que cai. Agoniza legal, sofre, parecendo que vai sucumbir a qualquer momento. E aí renasce. Respira novamente. Belíssima faixa, dramatúrgica, literária. Se é um tanto comum em músicas instrumentais me virem imagens na cabeça, nesta não veio nenhuma, eram os sons e somente os sons contando uma história com começo, conflito e final.

Estava bastante curioso para ouvir "Tema pro Caguaçu" por saber que Caguaçu se trata de um local que fora descaracterizado nos últimos anos graças à urbanização. O que chamou-me muita atenção nesta foi o conflito. Se em "Faça a Luz!" as guitas dançam uma com a outra, nesta tive a impressão de que tudo ia bem, porém, em certo momento, elas propositalmente entraram em desentendimento e deixaram de falar a mesma língua. Não é um duelo, é uma discussão. Mas, claro, logo se entendem. Se é convenientemente esperado que os últimos sons de um álbum façam algo de especial já que carregam a responsa de encerrarem a obra, neste caso, fazendo jus à toda não-obviedade do disco, não ocorre isso: a última faixa termina simples, se retirando apenas, sem muita despedida. Apaga as luzes e vaza com um aceno tímido.

A escolha da estética do encarte foi certeira. Imagens em preto e branco dão ideia de serenidade. É a serenidade da madrugada na qual quem fica acordado é porque está querendo resolver algo. Levei um tempo para compreender que os símbolos ao lado das imagens eram um código para identificar o fotógrafo: tinha achado que eram uma mera opção estética, que condizia - e, mesmo não sendo "só" estética, continua condizendo - bastante com o título "Antítese".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Novos caminhos
Ano: 2015
Impressão:

O título do álbum pode, intencionalmente ou não, sugerir ser a justificativa à proposta sonora apresentada. Duos de guitarras não são muito comuns, porém, o que deveras configura o primeiro disco do duo de Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius como nova possibilidade de caminho à música brasileira é o tanto de características originais e possibilidades manifestas.

Surgir como "novo caminho" pode causar a expectativa de escutar um trabalho quase experimental, timidamente indefinido, quase uma aventura musical que não se sabe bem aonde vai desaguar. Não é o caso: trata-se de um álbum seguro e vigoroso no que se propõe. Os vários meses de pesquisa e preparação para que Rodrigo e Ivan dessem forma e delineassem as ideias tiveram como resultado um disco que adjetivaria como "ensolarado" e "urbano".

A faixa que abre o álbum e a vida do duo é a própria "Novos Caminhos", com um dedilhado levemente triste pela primeira guitarra e uma frase marcante sob o próprio tocada pela segunda. É o carro-chefe e a amostra do que serão esses novos caminhos agora abertos: duas guitarras perceptíveis e diferenciadas entre si, o som da palheta e o da mão batendo nas cordas não como acidentes e sim como integrantes. A extensão percorrida por esta faixa é longa e abrangente, "parando" em diversos locais desses caminhos para conhecê-los, até deparar-se aos cinco minutos da música com o tema principal se repetindo e encerrando o itinerário.

Há um certo deslumbramento nesta faixa de abertura atrelado a uma serenidade. O clima ocasionado se mantém na segunda, "Serra do Cafezal parte 3", composição de Ivan. Tal serra presente na rodovia que liga São Paulo ao Paraná nomeia também a faixa "Serra do Cafezal parte 1", que se diferencia da primeira sendo um tanto mais animada e com uma frase no "refrão" graciosamente cantável e que facilmente fica na cabeça.

Ao conversar com Ivan a respeito de tais faixas mencionei que a parte 3 e a "Novos Caminhos", em sequência abrindo o álbum, me fizeram pensar numa pessoa de cidade grande visitando o campo, contemplando paisagens naturais e o sossego - afinal, muito diferente a estes lugares será o olhar vindo de uma pessoa que mora em uma selva de concreto comparado ao de alguém que já vive em meio ao verde. Ivan surpreso ficou e revelou que a composição batizada com o nome da região serrana foi concebida em frente a uma cachoeira, exatamente durante uma viagem de férias ao interior e de afastamento temporário da vida metropolitana.

"Sente o sete" e "Contrastes" sugerem ser irmãs. São diferentes uma da outra mas são faixas nas quais hão mudanças bastante notáveis ao longo dos poucos minutos que duram, mais curtas que as demais. Quase fazem jus à expectativa mencionada de som experimental e aventureiro.

Se apenas um local é citado no álbum todo - Serra do Cafezal, um "caminho" encontrado pra quem cruza a BR 116 -, mulheres são três as presentes no CD.

A primeira mulher a aparecer é qualificada como "brava", em composição feita por Rodrigo Chenta quando conheceu a mulher que viria futuramente a se tornar sua esposa. A faixa começa bastante doce, podendo facilmente servir de trilha ao clássico momento que todos passam ao menos uma vez na vida do amor à primeira vista - o momento em que se avista pela primeira vez uma pessoa que, por algum motivo inclassificável, faz as demais ao redor ficarem em marca d'água. O contentamento com o acaso por este ter feito vossos passos coincidirem perfeitamente e estarem ali, no mesmo local e na mesma hora. Porém, após a breve introdução de menos de um minuto, a música arrebata e se modifica, acelerando, ganhando ares de folia e agitação, sonoridades que se mostram possíveis em meio aos tantos caminhos das duas guitarras. Seria tal mudança uma representação da surpresa que o "eu lírico" da música teve com a mulher que lhe causou o encanto à primeira vista, revelando esta uma braveza inesperada? Quem sabe... Mesmo a música desviando a um clima mais festivo, não perde a ternura.

A mulher brava também é agraciada em "Minha neném", uma bossa bastante simpática e de tom mais delicado que a outra faixa em sua homenagem. Se na outra o tom dançante é de festa, já nesta é para dançar a dois num bailinho.

A segunda mulher do álbum é na verdade uma menina, a filha de Ivan Barasnevicius que empresta teu nome à cativante faixa "Tema para Pietra". Sabendo que Pietra é uma criança o ouvinte poderia esperar uma música com sonoridade puxada ao infantil, mas como (e não apenas por isso) esta é uma obra de caminhos novos, o caminho escolhido a esta composição também não foi o provável. É uma música de levada funkeada, divertida e que está entre as que mais surpreende pelo fato de possibilitar tantos sons a partir de duas guitarras apenas. Uma curiosa tendência deste que vos escreve ao ouvir esta música é, em alguns momentos, "enxergar" diversas luzes pequenas acendendo e apagando, numa espécie de "giro", um carrossel. Toda a animação se encerra primorosamente com uma canção de ninar, sacada genial que me fez questionar o Ivan se tratava-se realmente disso - "é isso mesmo", o próprio certificou.

"Inocência", que no álbum antecede o tema composto à pequena Pietra, dialoga com o assunto infância e pós infância. É uma faixa que a mim em particular acabou tendo um grande montante na época em que a escutei pela primeira vez. Estava melancolicamente surpreso como o passar do tempo e o tanto que o mesmo deturpa aqueles a quem há pouco viam o mundo como um local legal a ser descoberto. Os locais costumam ter maior resistência a continuarem como são. Os humanos não. Esta música traz todo o tom ingênuo, puro e singelo que o passar do tempo teima em levar dos que não se corromperam com o mundo dos grandes e não inocentes.

Por fim a terceira e última mulher, tendo esta o atributo de encerrar o álbum, é a mãe de Ivan Barasnevicius. "Valsa para Ana" possui variados temas memoráveis, do tipo que se for escutada em uma apresentação do duo ao vivo logo será identificada. A composição segue linha coerente nos quase cinco minutos, com um final em que as guitarras ganham força e se dizimam numa despedida sutil.

"Novos" e "caminhos" são os dois termos que intitulam tal obra. A palavra "caminhos" surgiu diversas vezes ao longo destas impressões, revelando escolhas do duo, um lote rodoviário citado no álbum e o próprio percurso. Já o vocábulo "novos" intervém não apenas na proposta musical inédita trazida para travessia pelo duo, mas também no perceber que este é um daqueles álbuns que, independente de quando for escutado, sempre soará "novo".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta

Rodrigo Chenta

Título: Concepção
Ano: 2016
Impressão:

Fiquei bem curioso para escutar o EP do Rodrigo Chenta ao saber que seria lançado. Por já conhecer tuas músicas do duo com Ivan Barasnevicius, bem como por já ter assistido apresentações do mesmo acompanhado em trio e quarteto, algo que peculiarmente me despertou curiosidade para ouvir foi o fato de que o EP leva apenas teu nome.

Existe uma responsabilidade a assumir quando um músico assina uma criação desta forma que chamam de "solo", cuja definição do espanhol é "puro, sozinho, sem nada a mais". É dar a cara a tapa e se expor, fazer jus solitariamente aos conceitos de autor/autoridade. Mesmo que hajam participações, como hão no caso, serão exclusivamente teu nome e sobrenome que bancarão e etiquetarão o que será ouvido.

A primeira faixa, "Concepção", condiz com esse comprometimento: é solitária, de apenas um único instrumento, mas é uma solidão preenchida. O baixo da guitarra presente, mais de três sons sendo escutados ao mesmo tempo em alguns momentos, terminando com apenas um. Interessante saber, através do encarte, que esta composição nasceu em plena performance, conseguindo manter o tom tenso proposto desde o início. Por algum motivo sonoro curiosamente me lembrou relógio, como se representasse uma espera por algo ou alguém. Esperas costumam ser solitárias, porém, são preenchidas por expectativas, da mesma forma que esta composição o é: solitária e cheia de sons.

Se a faixa-título causou impressões diretas, em contraponto a "Suite for Schafer" causou diversas.

No 1º Movimento, ao entrar a voz de Roberto Agnelli a primeira sensação foi de estranhamento. Quando soube que haveria uma voz participante nesta faixa imaginei que a mesma entraria cantando, e provavelmente uma melodia sem letra. Mas aí a voz escapou ao esperado e entrou falando, inserindo palavras em um ambiente onde não eram esperadas. A quem acostumado estava com as músicas lançadas nos últimos anos por Rodrigo Chenta, cuja voz-mor é a guitarra, a entrada da voz falante foi um salto pro lado de fora da zona de conforto. Logo na primeira frase pensei receoso "será que esta voz citando frases trará um tom didático e pouco artístico?". Segui escutando.

Já no 2º Movimento chamou de cara a atenção o "dueto" das cordas com a madeira da guitarra sendo materialmente usada, característica facilmente reconhecida aos que estão familiarizados com as composições de Rodrigo Chenta no duo com Ivan Barasnevicius. Em certo momento é citado pela voz um relógio, a mim dialogando com a primeira faixa e o suposto relógio que havia enxergado naquela composição. "Fazemos de nós mesmos uns pobres relógios" - pois é!

A partir do 3º Movimento até o 6º e último já havia me acostumado com a estética desta Suite, curioso a escutar as próximas frases que seriam ditas por aquela voz cuja qual reconhece-se sotaque bastante puro e inominável e as respostas da guitarra à elas. Merece menção honrosa o 4º Movimento, onde há até uma mise-en-scène vocal e o flagrante de me ver aproximando o ouvido da caixa de som para melhor escutar os sussuros falando a respeito dos que, como eu, estavam se esforçando para ouvi-los.

Não é tão raro nos depararmos com um áudio onde haja uma voz declamando algo acompanhada de um fundo musical, geralmente sendo frases bonitas e uma harmonia que ajuda no tom de comoção ou de engrandecimento à beleza do que está sendo falado. Mas raramente voz e música de fundo estarão tão diretamente ligados como no caso desta Suite, pois tudo que é dito pela voz de Roberto Agnelli reflete nas improvisações de Rodrigo Chenta na guitarra acústica e vice-versa. Necessariamente voz e guitarra estão falando da mesma coisa: se cortejam, confabulam e palavreiam. Cada uma dá forma ao que a outra está narrando.

Rodrigo Chenta não apenas merece cumprimentos pelo compromisso de lançar uma obra levando tão somente teu nome, como também pelo desembaraço de prover essa Suite de proposta sonora rara e inabitual.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ricardo Carneiro

Ricardo Carneiro

Título: NY 7577
Ano: 2016
Impressão:

Infantil é um adjetivo cujo qual na maioria das vezes é usado como sinônimo para imaturo, tolo ou instável. Alheia a esta visão pejorativa, a verdadeira definição de infantil é aquilo que diz respeito à infância. Está ligada à proteção, a um ponto de vista mais lúdico da vida.

"NY 7577", de um solitário Ricardo Carneiro nostalgiando através de violões e violas, é um álbum que remete à aurora da vida. Traz a tona a criança que o próprio Ricardo foi um dia, permitindo que o ouvinte resgate também aquele ser que hoje parece tratar-se de um desconhecido ao observá-lo em fotografias. Não apenas o miúdo é apresentado, mas também um local e a maneira como este local era visto através dos olhos de quem está descortinando o mundo.

Quem já revisitou algum local que faça parte das memórias de infância provavelmente se surpreendeu com o tamanho das coisas vistas agora em perspectiva de adulto. Há algum tempo precisei revisitar a escola da qual saí quando tinha 8 anos e lembrei do quanto achava gigante e sinistra uma gruta com a imagem de uma santa que tinham na entrada. A gruta e a santa ainda estão lá, porém, hoje tendo outra altura e outros olhos, achei as mesmas bastante pequenas. Revi também um muro cujo qual era uma aventura dificultosa escalar, e que atualmente bate na minha cintura. Esta perspectiva meninil de visão de mundo se faz presente no álbum, no qual o Ricardo guri e a cidade de Nova York, onde o mesmo vivera de 1975 à 77, são os personagens centrais.

Muita curiosidade de escutar o disco me veio rapidamente quando abri o encarte e percebi do que se tratava. Aquelas imagens tão bonitas de uma Nova York que provavelmente não existe mais, com um filtro antigo verdadeiro que atualmente tanto tenta-se reproduzir nos instagrams da vida, tão bem ilustrando o conceito do álbum que é assumidamente uma nostalgia de período e local vividos por Ricardo Carneiro, dando a certeza de estar prestes a apreciar uma obra em que imagens, sons e relatos se complementam. Os pequenos textos no encarte contando sobre a mudança do Brasil para NY dos 2 aos 4 anos de idade, as músicas que escutava em família na época, bem como os depoimentos a respeito da cada composição, aproximam e ambientalizam o ouvinte ao enredo do que será ouvido.

Uma feliz coincidência é que o álbum, por ser instrumental, não tem nenhuma fala audível, e isso remete à própria palavra infância que, do latim infantia, pode ser definida como "indivíduo que ainda não aprendeu a falar". Ricardo Carneiro, na época agraciada no disco, provavelmente estava no período de aprender a verbalizar e as músicas que escutava na época e cita no encarte (Bob Dylan, Peter Seger, e outros) devem ter tido uma eficiente participação nisso. Aqui ouviremos portanto explanações sem frases palavreadas, sem o verbo, mas de um pequeno indivíduo que já observava, sentia e se expressava de alguma forma.

Ao colocar para tocar a primeira faixa, "Voo 7577", a animação da criança já aparece, na euforia e curiosidade típicas de quem ainda encara o planeta como uma grande diversão a desvendar e aproveitar. Não é de se estranhar o fato de que tal música foi utilizada como tema para um app que mostra a história e cultura americana para crianças e bebês, pois tem tudo a ver. Já se percebe de cara o grande domínio do violão e o clima regional, saudoso e petiz que envolverão o disco.

No hemisfério norte as estações do ano costumam ser bem mais definidas e características do que no hemisfério sul, onde nem estranhamos precisar se agasalhar no verão ou se queimar no inverno. Duas estações do ano vividas no norte estão retratadas no álbum. "Paisagens Americanas", de título que auto explica a inspiração, tem timbres muito curiosos, alguns lembrando chocalhos. É bastante imprevisível, alterando o andamento a bel-prazer sem escapar ao ambiente desenhado. Passa a ideia de frio que é confirmada pelo depoimento no encarte falando de cachoeiras congeladas. Outra que também está envolta por uma estação climática e curiosamente também tem andamento fortuito é "Uma Folha para Nena", sendo esta sobre o outono que presenteou a avó de Ricardo com uma folha caída de uma de árvore enviada por carta ao Brasil.

"Tati na Rede", embora não seja exatamente sobre os anos de Ricardo Carneiro criança e sim uma composição feita para embalar o sono de sua esposa numa rede, ainda assim remete à infância pois é uma canção de ninar. Tem conforto, ingenuidade e meninice. A seguinte também é dedicada a uma pessoa, "Feliz Aniversário, Jan", e apesar de ser, como todas as demais, uma composição de um instrumento só, é uma das mais solitárias. Notas bem espalhadas, sem alvoroço, momento de bonança.

"Belle" faz fantasiar o faroeste que se vê nos desenhos animados, com casas de madeira, as típicas portas de arestas dos saloons, poços, areia e, do próprio título da composição, um furacão. Belle é o nome do furacão que passou por NY justamente no ano que fica entre 75 e 77. Ricardo conta no encarte ter lembrança de esperar na janela o tornado passar, e esta é uma imagem muito rica. Um tornado pode ser assustador a um adulto já que este conhece as possíveis consequências, mas a uma criança de 3 anos, idade de Ricardo na época, pode ser algo aventuroso e mais contemplativo do que preocupante. A composição é bem preenchida e revela uma característica também identificada em outras deste álbum que é a parada, o rápido silêncio, a respirada para uma retomada enérgica.

Outro evento novaiorquino presente no disco é um apagão que ocorreu em 1977 lembrado na faixa "Blackout '77". É um blues atiçador, livre e divertido. Visto que o blackout facilitou a ação de muitos ladrões, a faixa acaba dialogando não apenas com a anterior, por retratarem momentos históricos, mas também com o título da próxima, "Forasteiro". A introdução desta é bem interessante, com uma nota única soando baixa e constante, demorando a entrar a melodia. É feita de diversas frases bonitas, quebras bruscas e singulares momentos de notas solitárias sendo pontes entre os recintos mais fartos.

"Asa Branca", composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, é uma clara referência às origens enquanto estava fora. A percussão deixou a faixa dançante e brasileiríssima. Por ter feito seu próprio arranjo e trazido sua própria leitura para tão celebrado hino, Ricardo Carneiro conseguiu, intencionalmente ou não, materializar o espectro da música brasileira em terras americanas, na surpresa do gringo que escuta tal música tão diferente do que está acostumado, ou do brasileiro em terras distantes com saudades do Brasil.

A décima, que também é faixa título, "NY 7577", tem revelada no encarte ter levado um tempo para ficar pronta, assim como o próprio CD que sempre foi um desejo de Ricardo Carneiro. É uma faixa animada e que, imagino, seja a homenagem definitiva à cidade que Nova York era nos anos citados e às memórias ali vividas, como se condensasse toda a ideia nostálgico-afetiva (e existe nostalgia não afetiva?) do disco e desembocasse aqui. Composição desprendida e celebrativa.

O encerramento se dá com "Farewell...e Bem Vindo", lembrando que os ciclos terminam para que se iniciem novos. Se a faixa anterior reunia e contemplava todo o período vivido em Nova York numa coisa só, esta última é a partida após a despedida. Uma viola e melodia simpáticas acenam para os três anos vividos na gringa, sem melancolia e sim com satisfação de ter vivido um período bom, e olham com ternura às terras tupiniquins para onde os bons filhos retornam. Um dado curioso é que tanto essa como a primeira são as faixas mais breves, tematizando chegada, partida e nova chegada.

Ao soar da última nota do disco, e sabendo que Ricardo Carneiro nunca retornou a Nova York, a sensação é de umas tantas variadas saudades - de algo não vivido, de algo mentalizado através destas composições, dos pequenos seres que fomos antes de nos tornarmos adultos supostamente civilizados, de todas essas memórias que são do Ricardo mas durante a audição pareceram nossas e que resistimos em deixar partir.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Pedro Pimentel

Pedro Pimentel

Título: Pedro Pimentel
Ano: 2012
Impressão:

Vários estereótipos do que se imagina a respeito de música instrumental caem por terra com esse álbum.

Capa abstrata, requintada e poética? Sim, de todos esses adjetivos, mas de um modo completamente independente ao esperado. Anúncios cheios de pontos de exclamação em balõezinhos coloridos, um televisor daqueles que víamos na casa de nossos avós, um formato de videogame cujo qual estudantes colegiais contemporâneos nunca viram mais gordo na frente. Pedro Pimentel optou por uma arte que lembra os anos nos quais se assoprava fitas de videogame para que essas funcionassem, cujas embalagens vinham cheias de informações e de cores. Assim, Pedro entrega a seu modo uma capa abstrata, poética e requintada - abstrata pelo nó na cabeça proposital, requintada pelo estilo retrô e poética por tudo que significa.

Uma das definições que Pedro Pimentel deu ao CD foi "uma documentação da época", e isso está - não nas entrelinhas, e sim bem exposto - na capa e nas composições. O retrato de alguém que nasceu na segunda metade dos anos 80, foi criança nos anos 90 e adolescente nos anos 2000. Curiosamente o álbum não tem nenhum título além do nome próprio de seu criador, o que torna tal retrato mais personalizado e direcionado ainda.

Apesar de todos os instrumentos terem sido tocados por um único Pedro, não soa como um álbum solitário. Não saberia dizer se é pelos instrumentos estarem tocando conjuntamente em formato de banda, mas creio ir além disso e ter a ver com os 7 anos que o mesmo passou compondo, provavelmente conhecendo e se despedindo de bastante gente no período.

Assim como no álbum "Time's Up" de Mauricio Cailet, quem tem preguiça de discos instrumentais por achar que escutará um som de intelectual irrisório com monóculo nos olhos vai se surpreender com os caminhos possíveis. O disco de Pedro Pimentel vai do agressivo ao emotivo, e faz referências nostálgicas à cultura pop de quem viveu nas épocas abordadas.

"Fechou o Tempo", faixa de abertura, desenha todo o plano de fundo de onde e quando se passa o álbum: Pedro a compôs após fugir de assaltantes, ou seja, adrenalina e perigo são reconhecidos na sonoridade. A bateria programada e o baixo dão a velocidade, enquanto a guitarra parece querer gritar. Há atmosfera de game, soando como algo que já fora moderno e se tornou vintage em poucos anos.

A seguinte "Cavalo de Pau", apesar do andamento diferente, preserva o clima de adolescente de cidade grande de duas décadas atrás jogando dentro de um quarto. As notas furiosas da guitarra e o prato enérgico da bateria passam a ideia de muita energia contida, e até de caustrofobia - joga-se um game e com isso vive-se várias emoções inquietas e pulsantes dentro de um cômodo limitado. Os bends batem e rebatem nas paredes do quarto, buscando com ansiedade se expandirem para além dali.

Dois apontamentos se fazem necessários:

O primeiro é o título desta segunda faixa. Não lembro a última vez que vi pessoalmente um cabo de madeira com uma cabeça de cavalo na ponta. Para alguns, da época do Pedro ou de antes ou depois, apenas um cabo velho de vassoura sem nada nas pontas já servia como cavalo de brinquedo. Notável como Pedro Pimentel referencia games, que foram e ainda são itens modernos - como na faixa 6, "Strider", referência assumida a um jogo lançado em 1990 de mesmo nome - como também traz ao álbum este brinquedo de madeira que é mais simples e antigo, porém mais orgânico e palpável, que também permite boas aventuranças ao miúdo que souber criá-las.

O segundo apontamento é o fato de que Pedro gravou as músicas em seu próprio quarto de dormir, contrariando aquela balela de que atividades criativas não devem ser feitas no ambiente em que se dorme. A vivacidade e intensidade enclausuradas despontaram no som.

A terceira faixa, "O Som do Vidro", me fez questionar se não seria justamente o vidro da janela do quarto a vibrar diante de tanta carga. Porém, essa é uma composição mais calma que as anteriores, que após os curiosos e enigmáticos sons de introdução já se mostra bem distante das supostas trilhas de games. Destaque para os dois timbres de guitarras colocados para um dueto esbelto perto dos 3 minutos.

"No Veneno" e "Tarja Preta" parecem faixas parentes. Os títulos fazem pensar no sangue no zóio que pra muitos é necessário num jogo, e na contenção brusca e química a esse mesmo sangue. Ambas começam marrentas, entregando após o primeiro minuto a música para uma guitarra solar - a primeira com frases mais sensíveis, já a segunda mais colérica. Os estados se mesclam, numa com notas altas e longas, noutra com mais agilidade e menos altura.

Estamos falando de um disco instrumental cujo uma das músicas se chama "O Grito Mudo", ou seja, se já não se espera ouvir vozes aqui, não se esperará especialmente numa faixa com "mudo" no título. Mas, ao ouvido entregue e aberto, essa faixa traz vozes sim! O arranjo um tanto sombrio monta o cenário para que uma espécie de suspiro instrumental se manifeste em escala de tempo muito próxima da respiração do ouvinte. Hão suspiros herméticos ao início, ao solo de baixo, e mesmo quando a guitarra ganha completamente a composição o ouvido ainda busca por eles. Um falso final entrega silêncio de alguns segundos antes da conclusão, sendo talvez uma ilustração à referida mudez do título.

"O Beco", apesar do nome que sugere riscos, é uma composição mais descontraída, do tipo que faz dançar morosamente na cadeira, surpreendente pela imprevisibilidade. Tem um longo solo de teclado, revelando um lado mais tranquilo do disco, embora a faixa termine com o mesmo teclado tenso junto a uma guitarra angustiada.

É de se supor que esteve presente durante todo o disco uma certa nostalgia com as épocas e referências que levaram o Pedro a ser quem era no ano em que lançou o disco (2012), mas na faixa "Um Grande Amigo" o tom emotivo assume o lugar de fala com maior maestria. Antes da bateria entrar já é possível sentir colher determinadas áreas internas nossas sem nome as quais apenas a música consegue descortinar. Frases cantáveis, variações muito interessantes delas, e mesmo nos trechos em que há acelaração o tinido emotivo continua ali.

A última faixa, "Nova Era", é a mais diferentona de todas. Talvez arriscasse afirmar que nem parece ser do mesmo álbum que as demais, sem que isso jamais insinue incoerência - a guitarra forte de todas elas continua aqui, o tom comovente da faixa anterior também. A introdução com cordas acústicas suscita o ouvido, a percussão que lembra chocalho - mais um item de brincar, ao lado do cavalo de pau e dos games - muito bem aproveitada ativa a curiosidade e um sorrir interno. A faixa cresce na medida certa, chegando a seu ápice com as mesmas guitarras nervosas da primeira faixa agora mais enlevadas. Apesar de, conforme Pedro contou, o título ter sido gerado um tanto depois da própria composição, este encaixou-se jeitosamente com a missão de encerrar o álbum: após tantos itens de suas memórias serem postos na mesa, a porta já encontra-se aberta para o novo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Mauricio Cailet

Mauricio Cailet

Título: Time's up
Ano: 2013
Impressão:

Um dos mais comuns pré conceitos em relação à música instrumental é a crença de que este tipo de música é som de gente cult, intelectual, elitizada. Que necessariamente precisará ter instrumentos refinados e eruditos, executando coisas complexas, que somente um gosto que despreza o popular se agradará ao ouvir. Levando em conta isso, o álbum "Time's up" do guitarrista Mauricio Cailet pode ser uma convidativa porta de entrada ao universo do instrumental para os ouvidos que creem nessa lenda urbana.

É um álbum essencialmente de rock, embora alguns outros estilos manifestem-se em certas faixas. Os instrumentos em cena - guitarra, baixo, bateria, percussão e teclado - são conhecidos do grande público e facilmente reconhecíveis na audição.

Mauricio Cailet assumidamente não se interessa em apresentar no disco frases de alta complexidade e difícil absorção, mas sim composições que cheguem em locais do ouvinte que só a música tem eficiência de chegar. O resultado é um álbum de melodias muito bonitas, em que Mauricio se entrega e expõe bastante de si. O rock tem várias facetas e uma delas é justamente a faceta emotiva, muitas vezes auto biográfica, que faz o fã de rock se identificar com a experiência pessoal retratada, a alegria ou a tristeza do compositor. Tal faceta está nesse disco que, sem nenhuma voz audível, consegue relatar muitas inspirações, implícitas e explicitas.

Foi dito em entrevista pelo próprio Mauricio que muitos contam-lhe pegar estrada ouvindo o álbum. As primeiras faixas, "Cadillac" e "Return", dão a atmosfera de road album. Retornar tem a ver com estrada, estradas tem a ver com rock, carros antigos como Cadillacs tem a ver com os chavões de rock. Já nessas primeiras se tem um panorama do que será ouvido: faixas enérgicas, guitarra de timbre muito bonito, bateria bastante presente e forte, pausas valorizadas. Os riffs poderiam facilmente estar presentes em hits de bandas roqueiras com vocal, daquelas quais ovacionam guitarristas ímpares que levantam a plateia. "Cadillac" termina com um solo de bateria, modo bem clássico do rock, e "Return" curiosamente com um fade out, algo que se tornou raro nos dias atuais e, portanto, remete também ao clássico.

"Sleepless city" me fez pensar, pelo título, se estaria falando de São Paulo, que empresta de New York o subtítulo de "cidade que não dorme". A faixa possui diversas pontes, assim como São Paulo de várias pontes e viadutos. Penso todas as contradições da cidade terem sido retratadas pelas mudanças da música: algumas mais agressivas e aceleradas, outras mais calmas e contemplativas com auxílio das teclas, chamando a atenção o fato de serem um tanto breves, como as paisagens na cidade grande, tantas e tão variadas que cada uma parece pequena e rápida de se observar pois logo ao lado tem outra bastante diferente pra ver.

A de número 4, "Only this", é a primeira que mais se diferencia das anteriores. Percussão na introdução, teclado bem vistoso e um tanto vintage, oitentista. Os instrumentos vão chamando um por vez, se unindo em trechos dançantes que se contradizem legal ao tema principal mais tenso.

"Smiles" tem título sugestivo. Mauricio deixou claro que pretende, através das composições, contar histórias, e o título acaba direcionando bastante a esta dramaturgia. Não é preciso manjar de linguagem corporal para perceber que o ato de sorrir para outra pessoa é o ato de baixar a defensiva, abrir as portas, romper alguns tijolos da parede invisível do nosso espaço particular. Nesta faixa os instrumentos parecem bradar frases uns aos outros, se comunicando, como se dessem permissão uns aos outros para avançarem e fraternizarem. Há muita vida expressa na harmonia da composição. O final, onde guitarra e bateria se manifestam rapidamente entre algumas pausas, me lembrou um brinde coletivo, em que se escutam várias batidas de copos espalhadas.

Mesmo o álbum em questão sendo de um guitarrista, a faixa 6 é apenas do contrabaixo de Edson Barreto. Tal ato, quando realizado em um show, tem bastante virtude: auxilia na dinâmica do espetáculo, afinal, por mais que o nome no letreiro seja o do músico considerado principal, o outro também faz parte daquilo e tem então o canhão de luz direcionado a si. Permitir esta mudança de "cara" em um álbum é muito relevante, silenciando todos os instrumentos que até então muito presentes e altos estavam, para que o contrabaixo conte uma história sozinho. "Father and Mother" é esse momento de calma, conseguindo com apenas um instrumento uma breve peça de pequenos atos, com notas que definem bem o final austero. Achei esta uma faixa bastante visualizável, pois parecia conseguir "enxergar", imageticamente, os dedos atacando as cordas. Curiosamente uma mãe está presente no título e, graças aos ares eruditos, acabei associando com a minha, cuja qual tocava violão erudito há anos atrás e uma das primeiras vezes que a vi tocar uma peça fiquei impressionado com o dedilhar rápido e colado um no outro, cena bastante parecida com a imagem citada que me veio à cabeça nesta composição.

"Time's up" é faixa título e imagino que leve este nome por conta do próprio elemento tempo, muito presente na criação e concretização do álbum. Pensar que as composições começaram no final dos anos 90, quando termos como Wifi e Facebook nem existiam, quando celular ainda era coisa de granfino, indo iniciar as gravações na década de 2000, pra tudo estar pronto e ser lançado somente em 2013! Quem presenciou um bebê nascendo em 1997 o viu em 2013 se preparando para logo tirar carta de motorista. A faixa possui diversos ambientes diferentes um do outro, mesclados em uma das passagens por um solo do baterista Johnny Moreira, retratando o passar do tempo e seus intercalares, suas veredas e encantamentos.

Além de "Father and Mother", outras figuras paternais aparecem no final.

"My Light" é dedicada à mãe de Mauricio, Yvonne F. Cailet. Celeste poderia adjetivar a composição, que se inicia e permanece emotiva, não perdendo o tom sensível mesmo com a entrada de uma guitarra de mais peso e das aceleradas no andamento. Possui cor una, é forte e engrandece. Já o pai de Mauricio, Oglai Cailet, tem em dedicatória a última faixa "In Memorian". Interessante o fato de que a mesma começou a ser composta enquanto o homenageado ainda estava vivo, e foi continuada e finalizada após tua partida. O momento da partida é o momento em que o elemento tempo, citado e dignificado no disco, termina para quem partiu, mas ainda assim continua a passar - assim como esta música, que continuou sendo escrita após a partida. É repetido algumas vezes um trecho compassado levemente tenso cujos dedos começam a acompanhar sozinhos após a terceira ou quarta vez que é tocado na música. A temática de falar de alguém que já partiu poderia sugerir tristeza, mas esta acaba sendo, na verdade, uma composição para celebrar uma vida.

O encarte possui arte simples e direta, assim como o é o álbum: o tempo ilustrado na capa através de um relógio com números romanos no qual Mauricio e guitarra estão ao centro. Clássico e novidade estão aqui intrínsecos, se completando, sendo tempo e passar do tempo conjuntamente.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Manu Cavalaro

Manu Cavalaro

Título: Cantora não
Ano: 2016
Impressão:

"A gente canta a nossa saúde", escutei certa vez de um professor de canto. "Ao observar um pianista ou violonista em ação, piano ou violão são os instrumentos, e pianista ou violonista os instrumentistas. Já no cantor, o instrumento está dentro do instrumentista, então é inevitável a saúde dele aparecer no resultado", completou. Alguns podem discordar no que compete à influência da saúde do cantor no canto. Talvez seja mesmo algo a se discutir. Porém, o que mais pode causar polêmica - e é bem pouco discutido - é que provavelmente há quem estranhe o modo cujo qual o profesor se referiu ao cantor: como um instrumentista.

Ao receber para escutar o disco de estreia de Manu Cavalaro das mãos do meu xará Rodrigo Chenta, as exatas palavras dele foram: "Trata-se de uma cantora que não precisa de letras. Usa a voz como instrumento". As letras aparecem em algumas composições, porém, Manu dedica-se antes de qualquer pré etiquetagem ou sofisticação à função primordial e vital do cantor: cantar a melodia. Daí o título "Cantora não", em provocação ao senso comum de que cantores só cantam canções. Assim, apesar de poder ser considerado como um disco de música vocal, é antes um disco instrumental.

Apertando o play da primeira faixa, "Era pra ser maior", uma manada instrumental atropela o ouvinte que abria uma frestinha na porta para espiar: uma brevíssima virada na bateria e todos os instrumentos entram juntos, dispensando propositalmente as tradicionais introduções do ameno ao crescente feitas para o ouvido se ambientar. O bonde andando apanha de imediato o ouvinte do local onde sua mente e ouvidos estavam a pouco direto à música. O andamento acelera logo, revelando que os trilhos pelos quais caminhará a composição - e, conforme as próximas faixas mostrarão, o próprio disco - estão mais para uma montanha russa cuja surpresa está sempre ali do que uma linha reta de trem. Curiosamente esta é, segundo Manu, a primeira composição que ela teve coragem de mostrar às pessoas, condizendo não só ser a primeira do disco, como também a este "chegar chegando" da faixa.

Todas estas informações surgindo duma vez, ordenadas pela bonita voz de Manu, correspondem ao colorido do encarte: assim como a música, consegue ter muitos informes nas diversas cores e formas sem que disperse ou dê a impressão de bagunça. Há uma ordenação respeitável nas muitas notas cantadas, nos demais instrumentos todos muito presentes, e no encarte multicor e urbano.

Esta primeira faixa tem letra da própria Manu, e o que é muito notável é que o instrumento Voz - com letra maiúscula, em primeira pessoa, nome próprio - se confunde com o eu lírico. Versos como "Senti a sensação de um ré maior e assim, fiquei por aqui" podem ser interpretados como uma alegria, e em outros como um pranto, da protagonista Voz. É esta o personagem a nos relatar experiências pessoais, reconhecíveis até mesmo no verso em que cita músicos que a influenciaram: se Manu assume influência deles, tua Voz assume também.

A segunda faixa, "Saudade Federal", tem um clima bastante diferente da primeira, com piano e canto tristes na introdução. O fato de não possuir letra, com exceção de uma única frase ("Que saudade, federal"), confere à própria indefinição do que é saudade. Aí está sublime representação desta palavra no canto de lamento de Manu, que a compôs em memória de um federal citado no encarte.

"A Lua", faixa 3, inicia-se com piano entusiasmado favorável ao ambiente de fantasia infantil que se dará. Com versos que graciosamente caberiam na boca de uma criança, como "Quem que fez a Lua e botou ela lá?", recordou-me de uma mulher com quem convivi na infância chamada Gessina. Ela afirmava convicta: "Pode vir qualquer cientista falar pra mim que o homem pisou na Lua, eu não acredito de jeito nenhum". O motivo: São Jorge, também lembrado na composição de Manu no verso "Será que São Jorge mora lá?". Gessina, ao contrário, não tinha dúvidas disso e afirmava (com uma segurança difícil de descrer) conseguir enxergar, daqui, São Jorge espetando o dragão na Lua! "Até parece que o homem foi até a Lua e não filmou São Jorge".

Outra menção sobre esta faixa é o modo como a letra cantada por Manu está perfeitamente encaixada aos demais instrumentos. É comum na música vocal uma certa independência, mas neste caso a voz caminha nos mesmos passos, fazendo raro jus ao que se pode chamar de "todos uma coisa só".

A quarta, "Pra me visitar", tem no arranjo o conforto caseiro, aconchego, café na mesa, roupa de cama, sugeridos não só pela letra mas também por todo o instrumental. Há diálogo da voz de Manu com o clavinet, cujo qual responde com notas a cada frase por ela cantada, com interpretação que muito bem convence tratar-se de alguém na cama sem vontade de abandonar tal conforto e tentando convencer o/a visitante ficar. Ao final, após a última frase com letra, Manu entrega notas mais altas - "entrega" em todos os sentidos do termo, como quem entrega um presente, quem denuncia algo, quem se rende. Cantar é se expor e aqui talvez seja um dos momentos do disco em que Manu mais se expõe.

Na metade do disco, em "Olha Iemanjá" são ouvidas diversas Manus a cantar com um piano. As várias vozes colaboram com a aura mística que envolve tal entidade. Ao dizer que uma coisa é ritualístico é comum pensarmos em religiões, porém, já não seria o próprio fazer música, de qualquer tipo, individual ou coletiva, um ritual?

A faixa 6, "Funk com tudo", dialoga com a faixa 8, "Cantora não", por não possuírem nenhuma letra, nenhuma palavra. São faixas com diversos atos, separados por mudanças no andamento que ambientam cada novo rito. Manu contou em entrevista que "Funk com tudo" nasceu como um funk, mas se transformou em baião e depois jazz. Isto muito recorda escritores revelando como, em certo ponto, seus personagens começam a "falar sozinhos" e guiam a história para um rumo diferente do planejado a princípio. Assim o é com música também: adquire autonomia, decide sozinha onde ir e, de acordo com Manu, "a gente ouve e obedece ao que ela pede".

"Diminuta", sétima faixa, tem parentesco com a primeira: na primeira, a Voz pode ser interpretada como eu lírico da composição; já nesta, a Música, aqui também como substantivo próprio, é o assunto de si mesma. A opção, ou falta de opção, por viver financeiramente dela. A letra é um "Justifique sua resposta" pronto aos que costumam perguntar para músicos se estes trabalham "só" com música. A voz de Rinah Souto, cantora que participa da faixa, é um verdadeiro achado, caprichando na interpretação/dramatização, algo tão cobrado dos cancioneiros.

Se aproximando do final, "Frevendo" tem ritmo festivo, alegre, carnavalesco. Há considerável espaço para os demais instrumentos além da voz solarem, e um espaço apertado próximo ao final onde entram algumas frases velozes não só no andamento mas no próprio conteúdo da letra, sugerindo muita pressa.

A última, "Gratidão", composta pelo baixista Itiberê Zwarg, diferente da faixa de abertura (que, como dito, começa com o bonde já andando), tem uma introdução solene, como se estivesse preparando o público a um pronunciamento importante. E o é realmente. Os agradecimentos finais em áudio e musicados. Mesmo quando o andamento dá lugar a outro mais animado, não perde o tom de celebração. "Dividir com vocês, é tudo que sonhei". Manu dividiu e agora agradece. Gratidão é um rito bastante importante nas religiões tradicionais. Religião, antes de qualquer pré conceito da moda, é religação. Agradecer nesta última faixa é se religar com o que motivou e motiva tudo isso que acabou-se de escutar.

Se o professor citado ao início estiver certo (e, pessoalmente, creio que está) e nós, realmente, "cantamos nossa saúde", solicito que a cada aniversário de Manu Cavalaro teus afetos não esqueçam do voto de "muita saúde".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Leandro Cabral

Leandro Cabral

Título: Sobre tradição
Ano: 2015
Impressão:

A tradição não existe por si só, independente e sozinha. Para que exista é preciso que haja transmissão. Vem do latim tradítio, significando "passar adiante" - implica ação nos dias atuais, movimento, o não esquecimento. Vida, vivida e vívida. Muito se debate atualmente sobre família tradicional, arquitetura moderna, "na nossa época era melhor", "não sei como eu vivia sem isso antes", manter ou abandonar tradições. E, em meio a discursos apaixonados e de desapego, a música: uma tradição em si própria e ponto importante em inúmeras outras tradições.

De cara no título de seu primeiro EP solo lançado em 2015 o pianista Leandro Cabral compromete-se a fazer jus a esta condicional da tradição: trazê-la ao agora, reconhecível, e mesclá-la com o moderno sem que se perca aquilo que nossos ouvidos reconhecem como tradicional. Nostalgia da contemporaneidade. Os músicos que o acompanham são conhecidos dele de anos tocando juntos na noite paulistana (tradição) e as composições tomaram forma durante a feitura de uma série musical ao YouTube (patrono da modernidade).

São seis faixas, mas também pode-se dizer que são três pares, visto que cada uma delas tem parentesco com outra.

No encarte, Leandro Cabral diz que buscou trazer "melodias gravadas no inconsciente coletivo". É interessantíssimo confirmar isso logo que se põe a tocar a primeira faixa, "Corcovado": todo brasileiro que se preze terá a sensação de estar em casa, de reconhecer de algum local aqueles sons, a melodia ensolarada do piano. O Cristo Redentor, situado no morro que nomeia a composição, estampa algum local da nossa mente e civilismo, mesmo a quem nunca o viu de perto. Bastante curioso é o primeiro momento protagonizado pelo baixo acústico de Sidiel Vieira: um tanto agoniado, uma aparente falta de folego proposital em cordas que sugerem se esforçar para soarem, abatendo o clima há pouco ensolarado com nuvens escuras chegando sem informe. Com a posterior retomada do piano e o destaque da bateria mais adiante, a faixa se revela um verdadeiro sobe e desce de tensões: do ensolarado ao melancólico ao festivo e ao tristonho de novo. Condizente com a capital que abriga o Corcovado: bela, que sofre.

Próximo ao final, quando os instrumentos estão próximos de se estabilizarem, um novo entra: a voz de Leandro Cabral! É um instrumento intruso e convidado ao mesmo tempo. Ao ouvido atento é possível ouvir Leandro cantando a melodia junto ao piano, recordando como faz o pianista estaduniense Keith Jarrett. É um fenômeno bastante interessante de assistir em vídeo a tamanha entrega corpórea-musical de Jarrett, performático involuntário, um pianista cujas câmeras não focam apenas nas mãos mas também dão closes nos pés, na coluna, fazendo do próprio corpo um instrumento participante. Ao permitir que ouçamos tua voz, Leandro deixa, como Jarrett, a música ainda mais humana, braçal e maciça.

"Stella by starlight" é a faixa que faz par com "Corcovado", não apenas pela mesma formação de piano, baixo e bateria, mas também pela forma desobrigada: sai para caminhar sem destino esclarecido e no andar que bem quiser, explorando as vielas sem critério pré definido. Os solos de baixo e bateria colaboram com a imprevisibilidade e mudanças de direção, sendo o de baixo bastante independente do rumo que o piano vinha traçando até ali, e o de bateria materializando através dos sons a auto desconstrução constante da faixa. Ainda assim, passa longe de ser confusa e tem encerramento clássico.

"Minha saudade" e "Eu e a brisa" formam o segundo par de faixas, sendo assim parentes graças ao sax de Cássio Ferreira e ao fato de serem mais diretas, lineares, inclusive na duração mais correspondente à média.

"Minha saudade", como Leandro explicara em entrevista, é um samba jazz sessentista, uma tradição palpável e, ao pé do nome, saudosa. As pausas do sax são bem valorizadas e em primorosa medida, com o piano nunca deixando a peteca ir ao chão. Já em "Eu e a brisa" há apenas piano e sax sem os demais parças, fundamentando o título que sugere só o autor e outro elemento. O sax soprano calmo, que aparenta querer dar forma a uma coisa bonita, emite poucas e longas notas enquanto o piano emite muitas e breves, aglomeradas, gizando juntos uma paisagem sonora. E o sax vai sem medo até as notas mais altas, sem perder a sobriedade que a composição propôs. É brazuca, gringa, familiar mundo a fora. Encerra-se com o sax sugerindo querer repousar, mas recusando-se a fazê-lo para deixar propositalmente inconcluso, como a brisa do título que também vai embora sem interesse num gran finale.

As duas últimas do EP são faixas solo, nas quais Leandro sonorizará tua mente pelas teclas. Cada uma de suas mãos é um componente convidado a manter o diálogo com o ouvinte e o movimento que cada composição inicia a partir da primeira nota.

Ambas tem títulos lúdicos: "Someday my prince will come" seria relacionado a contos de fadas? Paternidade? As notas graves estão bem presentes e carregadas, em polifonia com as mais agudas, colocando tensão e bonança a ajustarem-se. Não é triste, prevalecendo ares esperançosos sugeridos pelo título. Esperança vem de espera, tal qual o personagem do título espera teu príncipe, com esperança.

"Moon River", diferente da anterior em que o personagem está fisicamente presente mas com a cabeça em outro local, é mais contemplativa e paisagística. Consegue ser bastante imprevisível mesmo sendo faixa de um instrumento só, com destaque aos 2:15 em que o piano corre com notas em disparado, causando deslumbre certeiro no ouvinte. Se aproximando do fim as notas se apresentam mais lentamente, parecendo espécimes vivas a buscar o silêncio. E o encontram.

A escuta é rápida, mas evidencia: enquanto houverem composições apaixonadas como estas, e ouvintes, a tradição está garantida. Já dissera o espirituoso e saudoso cabeleireiro do meu bairro chamado Adão, falecido em 2013, quando uma cliente reclamou por ele ouvir no salão músicas que ela achava "muito velhas": "Que bobeira, menina, música é a arte que nunca fica velha, vai pra sempre se reinventar".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Continuum
Ano: 2014
Impressão:

A capa do primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio é bastante simples, porém efetiva no que se intenciona: o nome do trio mais o nome do álbum com fundo amarelo, "Ivan" e "Trio" grandes, "Barasnevicius" e "Síntese" menores. A ideia era apresentar o grupo e tal capa bem servia o cartão de visitas, franca e reta. Já o segundo, lançado em 2014, traz na capa uma pintura vistosa e colorida, cheia de detalhes a apurar. Após o "oi, muito prazer", o segundo disco é a oportunidade para conhecer melhor e relacionar-se com a sonoridade e essência do trio.

Um elemento curioso é que as composições deste álbum já existiam anos antes do lançamento - algumas, inclusive, antes do primeiro -, o que mostra que chegaram ao ponto que estão graças à continuidade que Ivan, Dé Bermudez e Thiago Costa dedicaram às mesmas. Do nascimento até a gravação foram tocadas várias vezes, experimentadas, recebendo ingredientes novos e reinvenções resultadas de dedicação contínua. Assim, "Continuum" é título certeiro.

O CD abre com a homenagem de Ivan para tua esposa e baixista do trio em "Groove pra Dé": o prato é atacado e então a bateria inicia sozinha e ansiosa, apesar dos toques bem centrados e reincidentes deste início. O baixo da homenageada surge, a exemplo da bateria primeiro atacando agressivamente uma das cordas anunciando tua chegada para em seguida instaurar a melodia. Por último a guitarra de Ivan, declarando a própria chegada com notas aflitivas e rápidas, então ingressando o tema principal. Não demora para que a música pire, sobressaindo-se o momento perto dos 3 minutos quando guitarra e bateria enlouquecem juntas, exigindo fôlego até de quem escuta. Não há pausa para uma água, apenas mais desatino, guitarra ganhando distorção, bateria estrondando fúria. Aos 4:30 silenciam-se todos e o baixo os reconduz, em linha diferente à inicial, a um pequeno flashback dos ambientes apresentados na primeira parte, numa espécie de "melhores momentos", breves, impactantes.

"Hipnose" já merece de cara felicitação por começar atipicamente com um fade in: revela-se então que a música já começou em algum lugar, silenciosa aos nossos ouvidos, e agora vem se aproximando, o volume aumentando, gerando um cativante mistério de como será que é teu início, de onde está vindo, há quanto tempo começou. O efeito de atenção e curiosidade que pode causar no ouvinte este fade in é comparável ao efeito hipnótico, já que a hipnose traz o hipnotizado integralmente aos comandos da voz do hipnotizador. Cheia de frases cantáveis, mudanças no compasso e no timbre da guitarra que só aprazeiam, improvisos vívidos no baixo e bom espaço para a bateria perto do final sem que os demais instrumentos se silenciem e interrompam a harmonia.

Esta segunda faixa é composição de Luciano Nobre e revela uma das ligações do álbum com o programa Venegas Music TV apresentado por Ivan Barasnevicius, visto ser possível encontrar nos arquivos antigos do programa no YouTube a versão original desta faixa com apenas Ivan e Nobre a tocando. "Pé de Bode", a próxima, também é de um Luciano e também tem ligação com o programa citado: Luciano Magno a apresentou ao Ivan para que tocassem-na juntos no programa. No vídeo em que a tocam no agora longínquo ano de 2011 já é perceptível o tanto que Ivan havia gostado da música. O timbre distorcido e enérgico da guitarra ficou bastante bonito com a linguagem do baião, funcionando habilmente a mistura deste com rock.

Tive de buscar a definição de "Bizuca", título da quarta faixa, pois até então só conhecia tal palavra como nome de um bar de uma cidade interiorana na qual morei anos atrás. Encontrei diversos significados, desde nome de um doce mineiro até "pessoa tapada". A guitarra começa caustrofóbica, aprisionada num repeat, cujos demais instrumentos buscam puxá-la pra fora e até conseguem. O timbre do baixo está bastante bonito e diferentão nesta, e as harmonias que forma junto à guitarra são realmente graciosas de ouvir.

Fácil é ouvir o CD e ter a impressão de não estar escutando um trio e sim uma banda lotada. E, pra entregar a verdade, o "Continuum" não se trata mesmo de um CD gravado por três pessoas em estúdio mas sim quatro - Pietra, filha de Ivan e Dé, participou também das gravações diretamente do conforto da barriga da mãe. A palavra "acalanto", que nomeia a faixa 5 e é composição de Dé, vem do ato de ninar uma criança, cantar para que ela se acalme e durma. O violão, presente também no álbum anterior, reaparece nesta fazendo a base para que o baixo possa frasear e gerir o aconchego que a faixa proporciona. A sonoridade resultante é bastante rica e incomum. Há espaço também para que o pai se manifeste, saindo o violão e entrando uma guitarra, e em outros momentos ambos agregados. Como se o violão, aqui quarto elemento em uma música de trio, representasse a pequena que logo mais chegaria.

Se no primeiro disco o aceno ao passado (e presente e futuro também) no metal de todos os integrantes se dava com "Machine", neste disco se dá com a última faixa, "Granizo". O tema principal pesado caberia bem em qualquer hit do metal, mas aqui se junta no melhor estilo mestiçador - nessas alturas já típico e reconhecido - do trio com um samba, sem a guitarra precisar esconder a distorção nem bateria e baixo perderem a fúria para que o samba role. As encurraladas nas quais o tema principal se coloca são muitas, como um pedestre a buscar um toldo para se proteger de uma chuva de granizo.

Vale mencionar a faixa bônus lançada separadamente em 2015, "Minuano", arranjo de Ivan Barasnevicius para composição de Pat Metheny. Infelizmente há - e provavelmente não são poucos - quem enxergue o termo "abrasileirar" como pejorativo, às vezes nem por crença própria mas por costume adquirido. Ivan afirmou em entrevista que, com o trio, não teve preocupação de criar solos mirabolantes, e sim realizar a mescla de estilos distintos que se ouve nos dois álbuns. E isso foi possível, sem que perdesse a a concordância do conjunto. Logo, pode-se dizer que Ivan requintadamente abrasileirou a composição de Metheny. Destaque a um vilão de nylon de 1998 do próprio Ivan utilizado na gravação, cujo qual não sei se traz ligação fraterna, mas é a sutil impressão que ficou nas entrelinhas do que se escuta.

A sensação ao concluir a audição do disco é a mesma que se tem ao conhecer alguém, ter uma primeira boa impressão e não se decepcionar conforme dá continuidade ao contato.

Continuar pode ser, em boa parte das vezes, bem mais complicado do que recomeçar ou mudar completamente. Pra continuar é preciso manter o vínculo. É preciso ir em frente com o que já se tem. Continuar é preciso.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 16.

Decrescente

Crescente

Página 1 de 2