IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

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Alexandre Silvério

Alexandre Silvério

Título: Entre mundos
Ano: 2015
Impressão:

Admiráveis mundos novos e velhos estão nas altitudes e latitudes deste álbum do quinteto de Alexandre Silvério. O título "Entre mundos" pode ser interpretado como o pedaço de chão de onde se avistam diversos campos particulares da música. O fagote, do alto de seus dois metros e meio de altura, é quem conduz tamanho giro, apresentando em um álbum duas ocorrências quase tidas como impossíveis: o uso de tal instrumento erudito no jazz e sendo o principal solista.

"Saudade" abre o disco e portas para impressões e interpretações. Um fagote melancólico dá a primeira nota e chama os demais instrumentos que chegam e se apresentam corteses. Pequeno silêncio e inicia-se pra valer uma execução simpática e de alegria triste. O fagote transitando entre o grave e o agudo, o samba ambientalizando um lugar que se assemelha com a Lapa do Rio de Janeiro. No encarte tal faixa é ilustrada com uma poesia de Almir Amarante inspirada na própria composição, onde é mencionada uma imagem cotidiana bastante vigorosa: a Lua já visível no céu azulado de um final de tarde. A saudade, palavra que é lembrada em nota no encarte do CD só existir na língua portuguesa, por mais que tenha esse poder de mexer com nossa alegria e tristeza, não tem o poder de alterar o mundo exterior - ele continua esbanjando beleza, indiferente à nossa falta!

"Tarde em Berlim" e "Meu fagote chorou", respectivas faixas 4 e 9, dialogam bastante com a de abertura. A quarta é uma bossa que, como "Saudade", também rendeu uma poesia que infelizmente não teve tempo de vir no encarte por este já estar finalizado. O título é bastante imagético - muito improvável não imaginar uma cidade abaixo de um céu avermelhado - com a música cumprindo um passeio turístico por Berlim de quatro paradas guiado pelos instrumentos. Inicialmente todos unidos, até o piano assumir o posto de guia com improviso agitado e livre, chamando depois o fagote para a frente junto dele, e deixando a bateria finalizar a incursão. Já "Meu fagote chorou", título que desperta alta curiosidade pela raridade de ouvir um choro com fagote, leva de volta ao bairro carioca de "Saudade" e à alegria triste citada. Tem andamento livre, leve e solto, que se modifica quando bem entende e mesmo assim não descarrilha.

Transitando mais ainda pelo espectro mundial, há a regravação de "My Funny Valentine", já cantada e tocada por tantos e que aqui recebe tratamento peculiar. Certa sensualidade é sugerida e despida, com o fagote na voz principal e os demais instrumentos começando tímidos, até ganharem seu momento e bradarem suas próprias exclamações! Destaque ao improviso das teclas, determinante divisor de águas entre os dois momentos notáveis de acanhamento e desembaraço.

"Valsa para Bill", composição de Vinícius Gomes (guitarras e violão do disco), tem introdução que me remeteu ao fascínio de contos infantis. O piano então muda o clima, acelerando e apresentando outras propostas. Há um interessante trecho em que a bateria se retira e permite um diálogo contemplativo entre fagote, guitarra e piano. É como se fosse um momento de pausa na dança para admirar o salão. O retorno da bateria valoriza a mesma, e o final da faixa é alongado e triunfal, recordando realeza, trazendo novamente a recordação de algum conto de fadas com castelos.

Também pode ser reconhecida como dramatúrgica a faixa "Ballad for Klaus". Um piano desalegre dedica-se à sua introdução, como uma espécie de trilha de abertura indicando que iniciará uma história. O 1º ato se dá tranquilo pelos primeiros dois minutos, até o instante em que os sons parecem requerer maior independência uns dos outros. O 2º ato é feito dos instrumentos entregando algo aos poucos, dando amostras, sugerindo haver algo mais completo escondido, enquanto o fagote bastante deslumbrado improvisa sem interrupções. Então entra a guitarra improvisando bastante contida, se mesclando com o piano em alguns momentos, parecendo todos estarem escondidos observando pelas frestas. Aos seis minutos de música vem o 3º ato, um reencontro com o ambiente do primeiro, a saída do esconderijo. O ato final é como aqueles filmes cheios de "falsos finais", nos quais hão várias cenas que sugerem serem as últimas mas, após o fade out, tem outra cena, indicando ter mais. O fagote chama diversas vezes os demais instrumentos nos três minutos finais, num epílogo extenso e bonito.

A qual considerei mais diferenciada das demais, "Gordus Power", indica pressa. Apresenta piano, baixo e bateria notavelmente apressados. É como se o piano improvisando livremente fosse a trilha, o baixo o personagem a correr, e a bateria os passos do mesmo. Até que fagote e guitarra assumem a corrida, com o fagote apossando-se da trilha e a guitarra sendo o novo persona corredor. Nesta faixa a bateria tem seu local de maior peso do disco, solando e ouvindo-se por inteira, explorando andamentos e ataques.

"Cromática", título da faixa composta por Fábio Leandro (piano e Rhodes), provavelmente se refere à escala musical cromática, mas também recordou-me a escala das cores. A "cor" do fagote parece bem distinta das "cores" dos demais instrumentos nesta, gerando certa tensão. Inicia-se o violão e um fagote que trará frases sutilmente ansiosas, dialogando e discordando. Com a bateria a postos, seguem os dois instrumentos numa direção com os demais. O violão repete as frases marcantes do fagote em um momento, chamando-o para a mesma discussão de novo. Tal ambientação resulta em um interessante final no qual violão e fagote vão revezando nas frases porém de modo mais alegre, como se estivessem rindo da própria polêmica.

O encerramento do álbum se dá com "Un Tango Para El Chico", música de Igor Pimenta (contrabaixo). É a faixa que mais se arrisca, mais apresenta modificações durante a execução sem receio do desconhecido. Vai do tenso ao ameno, da sensualidade à aversão. Entre tantos ambientes diferentes é permitido escutar todos os instrumentos tendo seu local de fala, um tomando o território do outro, permitindo despedir-se de cada um.

Apesar de conter faixas com títulos em inglês e espanhol, bem como uma faixa com a capital alemã no título, todo o som do disco é facilmente reconhecido como brasileiro. A água viva em meio ao oceano na arte da capa e contracapa pode servir de metáfora para esse território comum entre nacionalidades/mundos, cujo mar pode arrastar de uma região a outra sem maiores dificuldades.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

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