IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

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Breno Ruiz

Breno Ruiz

Título: Cantilenas brasileiras
Ano: 2016
Impressão:

"Esse disco vai levar um tempo pra escrever a respeito. É bem espesso".

Foram as primeiras conclusões diante do disco Cantilenas Brasileiras do pianista e cantor Breno Ruiz. A capa simples e vintage embrulha tamanha riqueza de conteúdo e detalhes que faz o ouvinte, seja este quem for, sentir-se valorizado. Breno se declara a serviço da Música, mas penso que com este disco a grande consideração dele foi, na verdade, com você. É como se o disco reconhecesse que todo ouvinte, independente de qualquer característica, é um ser apto e gabaritado ao que exige a escuta. Parece complexa de longe, mas de perto é bem direta a partir da entrega. Liberta das amarras cotidianas, do establishment que tão bem motorizou nossas cabeças, a escuta é uma experiência singular. Exige disposição de imergir num universo que dispensa adjetivos - adjetivar também é limitar.

Uma das definições "cantilena" é "canção monótona". Monótono, no senso comum, nos remete ao enfadonho. Mas no canto de Breno o que se percebe é, na verdade, ausência de pressa. A serenidade do cantor que respeita o tempo da música. Aí já se identifica um dos contrastes do universo do disco com o mundo real em aceleração viciosa, no qual estamos automaticamente e integralmente afoitos como se o futuro não fosse chegar nunca e precisássemos correr até ele.

Surpreende saber que o disco foi gravado em 2011, ou seja, quando Breno tinha 28 anos, e já possuía notável maturidade na voz. Maturidade não no sentido clichê a-lá jurado-de-reality-show, mas sim da voz parecer pertencer a alguém que carrega muitas experiências mesmo, como se já tivesse vivido no mínimo uns 20 anos a mais do que tinha ao gravar. Torna mais interessante ainda saber que o próprio já relatou em entrevista sobre seu "pé no ancestral", contando que na infância queria usar paletó e gravata, e que aos 10 anos animava bailes da terceira idade tocando piano junto ao tio sanfoneiro.

No disco, para este que vos escreve, a ancestralidade natural de Breno foi reconhecida em duas faixas: "Donana" e "Caçada de Onça", as respectivas 7 e 8. "Donana" muito recorda histórias de avô e avó, o spin-off das lendas urbanas, aqueles típicos relatos interioranos sobre ataques de bichos selvagens e aparições folclóricas. E a seguinte, "Caçada de Onça", também caberia perfeitamente na narrativa de um avô. A sonoplastia da música é perfeita, graças aos efeitos sonoros de Renato Braz que "responde" com instrumentos de percussão e flauta a cada frase da saga cantada por Breno. Há adrenalina misturada com ingenuidade no canto, como se partisse da preocupação de um sujeito mais velho em entreter uma criança com tal aventura. Porém, ao contrário do termo "monótono" que define "cantilena", a faixa surpreende e revela que o narrador foi engolido pela onça!

Outras faixas que dialogam entre si são as 1 e 2. "Marinheiro do Mar", a primeira, abre o disco com bastante avidez: um piano tenso, pratos de bateria que lembram ondas, uma vastidão sonora possível mesmo com poucos instrumentos. A letra de Paulo César Pinheiro - que compôs todas do disco junto ao Breno - faz uma releitura da tradição das canções de despedida, sendo que nesta o marinheiro não se despede da amada e nem da mãe, mas sim da irmã. Caberia bem como abertura de um musical pois é facilmente reconhecível o personagem principal, com versos que nos aproximam e nos fazem conhecê-lo melhor, como "De tanto olhar pra costeira / Vendo cargueiro atracar / Eu quis de toda maneira / Um dia me alistar".

Já a faixa 2, "Estrela Branca", sugere continuidade à narrativa do marinheiro. O instrumental se inicia semelhante ao anterior, porém, o canto está mais ameno, como se na primeira faixa o marinheiro precisasse ser "durão" na despedida, mas nesta segunda está admirado com as estrelas em alto mar. Aplausos para a poesia da letra, pois a acústica das palavras escolhidas é muito rica ("olerê, olará"). Se fossem apenas declamadas, sem cantar, já seriam musicais!

Se as primeiras faixas parecem feitas para um musical, outras parecem feitas para animarem festas. "Roxina", cuja viola caipira se ouve de cara, revela a disparidade do disco que passeia por diversos estilos e cenários. Sob um andamento dançante e acompanhamento categórico do piano, a letra é a mais ousada do disco: tem erotismo, ritualismo, quebra de tabus e a descortinada de um lado mais selvático. Breno mostra que não tem receio de entregar a interpretação que a composição pede. Outra dançante é "Choro Bordado". Já ouvi de um professor de música que "todo som organizado, por pessoas ou não, é música" - e os assovios e água caindo na introdução de 1 minuto são 1 minuto de "pura" música. "Pura" em qualquer sentido que se queira, não corrompível, completa em absoluto. Piano, baixo e percussão tão bem harmonizados aos sons naturais renderiam, por si só, um belo instrumental! Até que entra a bonita voz de Mônica Salmaso e o que já estava bom fica melhor. São poucos os choros que possuem letra, porém, se o choro "falasse", teria a voz de Mônica, tão bem colocada está, e provavelmente falaria do que esta letra fala.

Outra faixa cuja letra parece fazer uma espécie de tradução simultânea ao que o instrumento está querendo dizer é "Modinha Triste". O canto e a melodia no piano estão tão bem casados que fazem a poesia parecer tentativa das notas do piano em falar com palavras. Curiosamente, como a faixa comentada anteriormente, esta também não é cantada por Breno e sim um convidado - no caso, Renato Braz. Há uma rouquidão interessante em pequenos trechos na voz de Renato que fazem jus à letra e melodia desoladas. Renato também canta em "Viola do Bem Querer", curiosa pelo fato da letra ser declaração de amor à viola, mas não haver uma na gravação. Torna-se então um depoimento, onde piano e baixo emprestam sua sonoridade para que o violeiro declare-se ao instrumento adorado e, como a letra mostra, necessário. Já em "Cantilena Sertaneja" não falta violão! Apesar de sutil, a melodia faz com que nosso ouvido busque ele, se esforce para destacá-lo entre os demais instrumentos, visto a temática de sertão.

Breno distribuiu pelo disco três faixas de apenas piano e voz.

Na primeira delas, "Flor Lilás", o piano da introdução, logo que tocado, é familiar. Está em algum lugar do subconsciente do brasileiro, talvez nos desenhos animados que crescemos assistindo cujos quais eram musicados por pianos, ou alguma outra referência. O tico-tico, pássaro bem brazuca, cujo nome até declamado já é melódico, é citado em uma estrofe que se repete três vezes. Um pássaro ciumento e urbano, tanto que é citado na letra o ninho que fez na cancela. "Dança de Mucama", a segunda piano e voz, também visita nosso memorial inconsciente e de lá traz o tal do Samba-lelê. Por fim, a última piano e voz e também última do disco, "Roseira", conta as diferentes relações de diferentes seres com uma roseira - as relações de uma abelha, um joão de barro, uma borboleta e um louva-a-deus, mostrando como a roseira é traiçoeira com eles.

Há uma certa mística no disco, não sei se intencional ou não, no tanto de imagens que trazem à mente. No quanto nos desliga e religa com nossas origens. No quanto de versos impactantes cuja vontade é anotar para que não sejam esquecidos. Em instrumentos que não estão listados no encarte mas juro ter escutado-os em algum momento.

Evitei adjetivar o universo do disco no primeiro parágrafo, porém, penso que agora, sem jamais querer limitá-lo, "intrigante" talvez seja um bom adjetivo. É pena que "intrigante" tem, popularmente, uma interpretação pejorativa. Mas basta buscar pelos significados completos do termo que, entre os que caberão bem ao disco, estará: "que incita a curiosidade; que consegue surpreender". Creio que é isso mesmo! Lembrando que uma das definições de cantilena é "canção monótona", veja só que beleza: intrigante é justamente o contrário de maçante!


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

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