IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 17.
Impressões iniciando com 'C': 2.

Decrescente

Crescente

Cássio Ferreira e Rodrigo Chenta

Cássio Ferreira e Rodrigo Chenta

Título: 3136
Ano: 2017
Impressão:

Concluir uma obra, artística ou não, é passar da intenção à realização. Quando pensa-se nisso logo é imaginado um demorado caminho entre estes dois polos que inclui ideia, planejamento, decisões, recusas, esforços, por vezes aborrecimentos e aguardadas satisfações. O processo de compor costuma integrar todos estes estados e, comumente, leva tempo. No caso de "3136", por se tratar de música espontânea, todas as fases citadas ocorreram simultâneas e instantâneas. Intenção teve duração muito curta pois na fração seguinte já era realização, devidamente gravada e com vaga garantida na posteridade.

Um teatro moderno, confortável e primoroso, e um bar de jazz soturno típico daqueles que se vê em séries norte americanas: em ambos os ambientes, bem distintos e provavelmente longínquos, caberia a performance deste disco. É música erudita e excêntrica conjuntamente. Forma convencional e não convencional conviventes e convenientes uma com a outra.

No título as idades dos dois instrumentistas na época da gravação e, curiosamente, idades que representam o "day after" de períodos determinantes da vida. Mesmo em 2017 os 30 anos ainda são (e certamente continuarão a ser) vistos como idade taxativa e cada qual encara a sua própria maneira, tênue ou não, a chegada - porém, aos 31 nota-se o óbvio de que a vida não para nos 30, na idade que tanto alarde se faz ao redor. Os 35, embora menos discutidos, tem lá seus subtítulos como "o fim da adolescência moderna" ou outros contraditórios entre si como "o auge da satisfação" ou "auge da solidão", fazendo dos 36 o capítulo seguinte de tal pico enigmático. Se estas idades, encaradas com bom humor, podem simbolizar desprendimento e supervivência após a crise dos 30 e o sobressalto dos 35, o disco nomeado com tais números assim o é também desprendido e despojado. Quem aos 29 ou até aos 34 ainda sofre com pautas de uma constituição comportamental invisível, os 31 e os 36 são boa pedida para simplesmente "ser", como as três longas faixas simplesmente "são".

Ao iniciar a escuta da primeira, "31", com poucos segundos já se nota a desconvicção: o sax soprano de Cássio Ferreira com notas que conseguem ser sutis e agressivas unidamente, enquanto Rodrigo Chenta batuca no corpo da guitarra acústica. Não só na madeira mas também nas cordas, causando timbres agudos e aflitivos. Só aos 1:20 de música que a guitarra entra dedilhada, cheia de propostas variadas, em litígio com um sax sem medo de ir ao extremo. Por mais que estejam ambos instrumentistas tomando decisões o tempo todo, em alguns pontos esta ação fica muito clara - como por volta dos 4:28 em que pausas e minúcias entregam as decisões e indecisões.

"Quem está conduzindo agora?" é uma pergunta frequente na audição. Nem sempre é possível definir pois rapidamente um dos dois pode desviar da proposta. Vide aos 5:36 em que o sax sugere um trilho, desenha-se então um cenário alegre, mas logo ambos ficam tortos indo cada um a um lado. Até que a guitarra insiste na mesma região por desmedido tempo e o sax se debruça sob a base formada, fraseando e podendo concluir a proposta apresentada. Já quando se chega aos 7:40 o ambiente é completamente outro e há duvida se os instrumentos não se tornaram, na verdade, uma flauta e um violão, tamanha suavidade e cautela. É a preparação para a parte final e mais curiosa, onde Rodrigo volta a atacar as cordas gerando sonoridade que lembra chuva. Os timbres do batuque se intensificam e a chuva vira chuva de pedra - se a faixa fosse ter outro título ou um subtítulo talvez "Chuva de Pedra" cairia bem. O sax emite ventania e causa o momento mais imagético da faixa. Se música é todo som organizado, espontâneo ou não, aí está o testemunho.

Na segunda faixa, "36", a guitarra acústica da peça anterior dá lugar à maciça e inicia sozinha, propondo uma sonância mais popular e familiar aos ouvidos. O sax entra bastante areado, dando corpo à expectativa que o ouvinte já criou a estas alturas à sequência rotatória de 3 notas que a guitarra vem apresentando, que logo se transformam em 4, depois 5, assim crescente. Logo são ouvidos timbres bastante difíceis de identificar a origem, que lembram água escorrendo pelo ralo após o mesmo ficar entupido - teria sido causado pela chuva de pedra que caiu no disco a pouco? Chega a ser sombrio, incitando muita atenção. Os sons parecem presos dentro de algum lugar da guitarra e agonizam como uma ave presa dentro de uma gaiola, enquanto o sax regojiza-se de liberdade do lado de fora. Só aos 4:30 é que os zumbidos parecem ter encontrado uma frestinha de luz na madeira e podem sair, manifestando-se nas cordas ainda com a visão fragilizada pela claridade repentina.

A ausência de um comandante continua sendo atestada: em torno dos 7 minutos, após audível titubeação, ambos instrumentos se decidem por uma levada mais dançante, mas não demora para que a guitarra mude completamente e soe angustiosa enquanto o sax fica ainda mais funkeado. Mais adiante, aos 9, a guitarra opta por uma região bastante inusitada abusando do grave, causando sons longos que recordam tambores orientais gigantes. Talvez inspirado por isso ou não, o sax opta por uma linha que recorda tal cultura. Logo o sax queda-se nervoso, bastante nervoso, e a guitarra vai na onda, destruindo a serenidade oriental ambientada parindo sons, imagens e sensações tudo junto. Até o final da faixa o desconforto vai do grave ao agudo e ao grave de novo, passeando pelas alturas, amenizando pra depois agredir mais, sugerindo que ambos instrumentos foram rebentados a exaustão e abandonados.

Se a primeira faixa já começava quebrando as expectativas do que um ouvinte poderia esperar de um disco de sax e guitarra, a última, "3136", entrega o esperado pelo senso comum a um duo destes dois instrumentos: iniciam juntos, melodia bonita, sax agitado e guitarra amena, as devidas inversões de intensidade, o que se repete em alguns momentos ao longo da faixa. Há acordes da música "Giant Steps" do saxofonista John Coltrane e trechos do jazz "All The Things You Are" composto por Jerome Kern, jazz este que breve completará centenário.

Alguns momentos merecem destaque, como o raro coro aos 2:38 em que ambos instrumentos vão e param juntos algumas vezes. Já perto dos 4 minutos vem a aflição e, enquanto a guitarra vai pra uma levada mais rock, o sax emite longas notas que lembram distorção de guitarra. Há breve citação de Metallica e interessantíssimo momento em que o sax sola sob a base da guitarra com tamanha altura e vivacidade de modo que caberia muito bem em qualquer metal, bastante criativo e arrojado. Mas neste disco os cenários duram pouco e logo adiante, em meio aos 6 minutos, outro momento é proposto, bem confortável e contemplativo. Segue-se um longo tempo com o que, conforme dito mais acima, talvez seja o que boa parte dos ouvidos espera de um dueto instrumental desses.

Se aproximando dos já 13 minutos de peça, após dedilhados e dedilhados de guitarra, o sax também a passa ser utilizado fisicamente como percussão gerando timbres inéditos e curiosos. A guitarra aprecia a ideia e ouve-se então um excepcional solo de batucadas feito por guitarra e saxofone - curto, mas muito significativo. Em seguida Rodrigo permanece na percussão enquanto Cássio fraseia, e é impressionante pensar que tais batidas são feitas apenas por duas mãos e um instrumento, tamanha variedade e disparidade. A sequência final é de suspense, em que a essência do disco vem a tona com tantas notas pouco usuais. Ambos, neste encerramento, conseguem soar tão sutis e tão presentes que é de se admirar. As notas vão parando aos poucos e então as vozes de quem as produziam são ouvidas.

Música independente é assim chamada quando não depende de investimento institucional, dependendo exclusivamente da força de vontade de seus realizadores. "3136" é uma obra duplamente independente: não só nos termos burocráticos de mercado, mas certamente tão inquietante e misteriosa aos seus próprios criadores que é quase uma criatura independente.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Cézar Roversi

Cézar Roversi

Título: Entre linhas
Ano: 2014
Impressão:

Anos atrás, ao adquirir um celular que, mesmo para a época, já não era considerado tão moderno, notei que entre as opções de câmera havia o tal do modo panorâmico. Estava na moda registrar imagens de paisagens utilizando esse modo, com visão ampla e girando em torno do próprio eixo. Pela inexperiência, ao tentar tirar a primeira imagem panorâmica - um jardim onde haviam alguns indivíduos sentados em um deck - notei a dificuldade de manter o eixo e as falhas que isso gerava com algumas pessoas saindo com movimentos cortados e figuras perdidas no meio do cenário. Mas artisticamente ficava legal, tinha lá seu charme. Recordei-me desta involuntária obra imagética ao escutar a faixa de abertura do disco "Entre Linhas" do saxofonista César Roversi, faixa que leva o título "Panorâmico". Isso porque aos 1 minuto e 10 segundos de música a mesma, que corria muito bem obrigado, tem uma curiosa diminuída de volume e uma brevíssima confusão instrumental, coisa de segundos, que assim como na imagem panorâmica citada teve resultado atrativo.

Colocar este álbum para tocar é sentir o poder de rapidamente modificar o ambiente ao teu redor. Do conforto da tua residência, és levado a outro local realmente, pois diversas são as cidades presentes nas faixas e na sonoridade.

"Panorâmico" e "Corredeira do Rio Pequeno", as duas primeiras, são choros que levam o ouvinte ao arrimo dos bairros boêmios do Rio de Janeiro. Curiosamente César Roversi é de uma cidade paulista cujo nome é o mesmo de um bairro da zona sul carioca, Leme, e estudou no grande empório musical do interior de São Paulo, Tatuí. Na primeira faixa tocando sax tenor e na segunda sax soprando, César traz interessantes diálogos com a flauta de Rodrigo Y Castro, sendo tais instrumentos os protagonistas do álbum. Se na primeira o som dos dois sopros é mais uniforme, na segunda mais dialogam do que fazem coro, perguntando e respondendo, concordando e discordando. Destaque ao ritmo bastante acelerado de correnteza da segunda faixa, com um episódico solo do violão de 7 cordas próximo ao final.

A terceira faixa, "Misto Quente", já tinha me despertado curiosidade de ouvir ao saber que não haveria flauta e sim mais um sax tenor assumido por Nailor Proveta (também compositor da faixa). Como ficarão dois sax iguais na mesma música? Bem, o clima é de amizade, mesa farta, com os dois sax dialogando de modo imprevisível, em frases de pequenas quebras. Violão, cavaquinho, pandeiro e percussão tem todos teus momentos próprios, com a última tendo um timbre bem curioso em certo trecho.

Após três faixas animadas abrindo o disco, chega um momento melancólico com "Saudades de Belo Horizonte" - e mais uma cidade aparece!

Existe certo encargo ao colocar "saudades" no título de uma música. Imagino ser difícil ficar indiferente, já que é uma palavra que muito rapidamente remete ao teu significado e se faz sentir. A própria fonética da palavra já tem esse poder, com o ditongo "au" num "á" que sobe a voz pra descê-la imediatamente com o "u". Sensação boa e ruim juntas, ou então ruim e boa, assim invertido, a depender da preferência e do próprio objeto ou ser de saudade.

Assim, a faixa que exprime a falta de Bê-Agá começa com um sax tenor triste, entrando posteriormente a flauta de Toninho Carrasqueira também a lamentar, mas de forma mais espantada. Este é um feito muito interessante de se observar, os dois modos diferentes dos instrumentos sentirem saudades: o sax mais calmo, mais contido, numa saudade jururu, e a flauta angustiada, gritando mais. O cavaquinho também pranteia a teu modo, com todos os diferentes sentires bem inequívocos, em especial ao final da música.

A melancolia tem continuidade na faixa seguinte, "Doce mente", que chama a atenção de diversas maneiras. Primeiramente por ter o sax acompanhado somente pelo violão e cavaquinho. O compasso então se dá pelas cordas, o que fica bem claro nos dois momentos de mudança de andamento. Posteriormente, o fato de "doce" e "mente" estarem separados no título intriga - doce remete à infância, mas também ao amor e à sensualidade. Enquanto o cavaquinho desta faixa me lembrou uma música de ninar (infância), as duas aceleradas mui breves mudam bruscamente os ares para um tom sensual e adulto, gerando contradição. Seria portanto esse o doce que mente? Vale destacar por fim o quanto é possível escutar o fôlego saindo dos pulmões de César para dar som ao sax tenor nesta gravação. A ausência de tantos instrumentos despiu o sopro.

Na faixa 6, "Jabutunga", o ouvinte que se permitiu viajar pelo Brasil pela escuta será transportado ao Nordeste. O pandeiro dá lugar ao triângulo e forma-se um baião bastante divertido. É significativo como a música não ficou presa apenas dentro deste estilo, evidenciada pelos diferenciados solos de flauta e sax, e também seu final apoteótico onde até exclamações são ouvidas.

Nas seguintes "Coquinho" e "A César o que não é de César" o clima do início do disco é retomado. De volta ao choro mais tradicional, uma clarineta divide as vezes com o sax tenor na faixa 7, enquanto um sax soprano é o único sopro na 8. Bastante espirituoso o título da oitava composição, uma vez que a mesma é de Zé Barbeiro, responsável pela direção do álbum. O sax soprano toca nesta de modo bem enérgico, quase furioso, acompanhado na mesma inquietação pelos demais instrumentos, sem medo de entregarem ao maestro o que lhes exige.

Se em todo este álbum o tradicional e o moderno estão juntos, mesclados e adstritos, no Brasil há alguns anos é possível notar uma prática tradicional retornar às ruas nos primeiros meses do ano após muito tempo esquecida, transfigurando-a numa tradição moderna: os blocos de rua! Na faixa 9, "No Fio da Navalha", o que se escuta é uma deleitosa marchinha de carnaval, que graças ao retorno da tradição dos blocos não precisa ser vista apenas no Rio ou na Bahia, mas também em São Paulo e diversas outras cidades. Esta composição que é parceria de César com Zé Barbeiro lembra confetes, máscaras, baile a fantasia, e faz pensar como equivocado é quem acredita que apenas a música erudita exige esforço e a popular não. Aqui o popular prova ser também dificil, de arranjo bem sofisticado e trabalhoso. E divertido.

A décima e última faixa é "Valsa para Edi", composição de Toninho Carrasqueira na qual o terceiro e último tipo de sax (sax alto) aparece. Nesta, muito audível é o afinco dos pulmões de Toninho trazendo ares para a flauta. O tom é de ternura com sax e flauta dando espaço um pro outro, fraseando de modo próximos. A valsa mais tradicional se manifesta aos 2:50, sem perder a referência do que vinha sendo apresentado antes. Um minuto depois há um curioso e discreto silenciamento dos instrumentos, para uma espécie de bis breve de encerramento. Assim termina o disco, ainda nos últimos segundos sendo possível escutar o som de sopro humano citado. Literalmente o último suspiro após esta experiência que além de sonora também é turística e viajante no tempo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 17.
Impressões iniciando com 'C': 2.

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