IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 22.
Impressões iniciando com 'F': 2.

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Fernando TRZ

Fernando TRZ

Título: Vol. 2
Ano: 2016
Impressão:

O tecladista Fernando TRZ fez, em entrevista, observação bem interessante: o profissional de trilhas sonoras costuma ser bem compreendido e valorizado quando presta serviço para ramos como cinema, teatro e dança; já em outros, como por exemplo o publicitário, o entendimento é diferente. Ainda há bastante preferência por utilizar trilhas já prontas e disponíveis do que investir em um trilheiro para compor algo inédito e exclusivo. Talvez isto signifique, em conclusão um tanto óbvia, que ramos ligados à arte estão mais inteirados do poder de uma trilha - o quanto ambientaliza o público, dá o tom do humor intencionado e carimba uma identidade.

A primeira faixa do disco intitulado "Vol. 2" do TRZ Trio, "Limiar", tem um tanto cara de trilha. Virada na bateria de Paulo Almeida chama os demais para uma introdução entusiasmada e apressada. O timbre do teclado de Fernando TRZ talvez possa ser adjetivado como pós moderno, sem ligação com o conceito histórico do termo e sim por parecer algo que, em algum momento, já fora moderno, mas hoje se junta ao vintage. Como um videogame ou software cuja aspiração de ter sido inovador no passado é seu charme hoje. Com menos de 30 segundos a introdução dá lugar ao que será a linha da música, muito bem qualificada pelo baixo de Fabiano Nunes com certeiras interações do teclado e tema praticável, fácil de "cantar". A percussão bem audível faz com que o elemento humano e o senso comum sobre trilhas de softwares propositalmente se confundam. A piração eletrônica que toma conta do final desmaterializa qualquer ordem e sobriedade sonora esperada em um site comercial, recordando tratar-se de uma faixa de disco.

O termo "limiar" que nomeia a faixa de abertura está ligado ao início de algo, mas também pode se referir à portas e soleiras. Começo do disco, primeira porta aberta, e outros inícios: a gravação foi em São Carlos, cidade cuja qual Fernando TRZ tem como início de si próprio e voltou a ter como residência pouco antes das gravações em fevereiro de 2016. Atravessar em retorno uma porta que deixou aberta durante os 15 anos vividos fora dali. Pensando nas diferenças entre uma capital como São Paulo e uma cidade interiorana como São Carlos, "Alvorada", título da segunda faixa e também composição de Fernando, traz matutações.

Uma noite silenciosa no interior a se escutar grilos e vento é corriqueira. Já em São Paulo uma noite silenciosa é até mais possível do que se imagina, mas a impressão é que sempre haverão sons distantes de caminhões cruzando alguma avenida próxima ou sirenes. E é um instigante som que parece misturar vento uivante com uma sirene distante que abre a segunda faixa. Os instrumentos soam como se estivessem acordando após uma noite de sono, erguendo-se peça a peça. A condução crescente passa toda a ideia da cidade ganhando ritmo pouco a pouco. O sax e flauta de Everton Pêra trazem conforto, semelhante a segurança que o cotidiano também traz. Após um solo de baixo bastante vivente e íntimo onde sugere-se ser permitido escutar de perto os dedos relando nas cordas, há espaço para o sax entregar belo final, sem receio de ir ao estridente, como uma ave preocupada em fazer o anúncio da alvorada chegar o mais longe possível.

"Ueare", composição do baterista Paulo Almeida, é curiosíssima: consegue unir tantos ritmos brasileiros diversos um no outro sem causar estranhamento que parece um desfile alegórico de estilos. Em grande parte mérito do próprio baterista que puxa as batidas características e estabelece os cenários, mas também o bandolim de Lucas Neves quando um choro é apresentado, mais o teclado que ora soa como máquina antiga de música, ora como gaita, fazendo também as vezes do instrumento de choro em divertida mixórdia.

A quarta e última é uma releitura de "Terra de Ninguém" de Marcos Valle, uma marchinha triste como a letra assumia já em seus longínquos anos de composição, aqui em versão contemporânea intrigante. O teclado está psicodélico e provocativo. Difícil ficar indiferente à melodia de lamento chocante enquanto percussão e baixo animados a contrariam. A cuíca manifesta na parte B soa irônica, embaralhando festividade com tristura e protesto. Sons eletrônicos e manuais no que se oferece como ato final se somam para depois irem, seguidos pelos demais, cada um a um lado, a lembrar diversos blocos de rua espalhados e independentes fazendo a sonoridade desvairar mais. Tem-se realmente uma terra anárquica de ninguém, até os sons se ordenarem novamente na longa virada final, encerrando. Já alertaria a letra de Marcos Valle: se a terra é boa o dono sempre (re)aparece.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Fernando TRZ

Fernando TRZ

Título: Vol. 1
Ano: 2015
Impressão:

Estariam tão distantes o tributo monetário e o tributo de homenagem? O primeiro é obrigatório por lei e alvo de protestos, impondo ao indíviduo o dever de entregar parte de sua renda para manter nossa estrutura. Já o segundo, por presumir-se de cara que é espontâneo, já sugere ir na total contra mão. Mas será?

Por mais que raramente alguém obrigará alguém a proporcionar homenagem a outro, muitas vezes sente-se a necessidade de prestar tributo como reconhecimento. "Isso é tão legal que eu PRECISO gravar". Precisar. Assim como o tributo federal, também pode ser alvo de protestos de quem crer que a releitura não está a altura ou os que acham que apenas o original merece valor (aaah, esses radicais...). E como no tributo monetário, quem se prestar a reler uma obra obrigatoriamente terá de doar parte de sua bagagem própria para tal feito.

O disco "Vol. 1" do TRZ Trio reúne dois tributos com uma faixa autoral de guião, "Flanando". O teclado de Fernando TRZ inicia confirmando o título da faixa: flanar é perambular sem pressa e sem rumo definido, e é exatamente esta a impressão, alguém que chegou ao ambiente despreocupado e disposto a descobrir com serenidade o que haverá a oferecer. Tem-se então o baixo de Fabiano Nunes sério e ritmado anunciando acesso, e com a bateria de Paulo Almeida inicia-se de vez o passeio. A bateria está bastante humana, visto os propositais ataques sugerindo quebrar o tempo, como quem caminha observando, decidindo, se distraindo e retomando, virando o rosto e olhando adiante de novo. Próximo aos 4 minutos o teclado mais tenso e bateria frenética formam um redemoinho que conduz aos poucos ao ato final, brando e satisfeito.

Vem então o primeiro tributo, "Malandro" de João Donato, composta em 1970. Curiosamente é a última faixa do disco "A Bad Donato", que tem no título esta gíria "bad" ainda bastante contemporânea, e na época se destacou pela fusão de MPB com eletrônica. O TRZ Trio a traz dos eletrônicos setentistas aos modernos, em timbre de teclado retrô porém com efeitos que nos recordam estarmos nos anos 2010. Graves e agudos gingam com bastante malandragem.

A esta altura o ouvinte já notou o quanto o som do trio é biológico e vivo - passa proximidade, diferente de gravações que mostram-se longínquas e remotas. O ouvinte sente estar na sala com os instrumentistas, sendo o teclado responsável pelo lúdico. Seus timbres invadem as entradas corporais de quem escuta, passa pela mente e expande as sensações e percepções.

O segundo tributo e última faixa relê uma composição advinda do início do governo militar. De 1964, "Coisa Nº 4" do pernambucano Moacir Santos, cuja original soa simultaneamente imperial e irônica. Nesta releitura de 2015 inicia-se com um ataque sombrio do teclado, e então o baixo puxando o tema cinquentenário, ainda a ser assombrado algumas vezes até entrada da bateria. Há uma fusão de estilos dentro da própria faixa, trechos bastante intrigantes e uma riqueza de variantes que, puxando a ironia da original, juntando-as bem se acomodam no termo "coisa".

Se uma obra cinematográfica completa seria aquela que o espectador se esquece de onde está sentado e participa plenamente do universo em tela, sente tensão e emoção que se mantém após o início dos créditos finais, este "Vol. 1" cumpre todas essas funções aqui migradas para a música.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 22.
Impressões iniciando com 'F': 2.

Decrescente

Crescente

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