IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 16.
Impressões iniciando com 'I': 2.

Decrescente

Crescente

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Continuum
Ano: 2014
Impressão:

A capa do primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio é bastante simples, porém efetiva no que se intenciona: o nome do trio mais o nome do álbum com fundo amarelo, "Ivan" e "Trio" grandes, "Barasnevicius" e "Síntese" menores. A ideia era apresentar o grupo e tal capa bem servia o cartão de visitas, franca e reta. Já o segundo, lançado em 2014, traz na capa uma pintura vistosa e colorida, cheia de detalhes a apurar. Após o "oi, muito prazer", o segundo disco é a oportunidade para conhecer melhor e relacionar-se com a sonoridade e essência do trio.

Um elemento curioso é que as composições deste álbum já existiam anos antes do lançamento - algumas, inclusive, antes do primeiro -, o que mostra que chegaram ao ponto que estão graças à continuidade que Ivan, Dé Bermudez e Thiago Costa dedicaram às mesmas. Do nascimento até a gravação foram tocadas várias vezes, experimentadas, recebendo ingredientes novos e reinvenções resultadas de dedicação contínua. Assim, "Continuum" é título certeiro.

O CD abre com a homenagem de Ivan para tua esposa e baixista do trio em "Groove pra Dé": o prato é atacado e então a bateria inicia sozinha e ansiosa, apesar dos toques bem centrados e reincidentes deste início. O baixo da homenageada surge, a exemplo da bateria primeiro atacando agressivamente uma das cordas anunciando tua chegada para em seguida instaurar a melodia. Por último a guitarra de Ivan, declarando a própria chegada com notas aflitivas e rápidas, então ingressando o tema principal. Não demora para que a música pire, sobressaindo-se o momento perto dos 3 minutos quando guitarra e bateria enlouquecem juntas, exigindo fôlego até de quem escuta. Não há pausa para uma água, apenas mais desatino, guitarra ganhando distorção, bateria estrondando fúria. Aos 4:30 silenciam-se todos e o baixo os reconduz, em linha diferente à inicial, a um pequeno flashback dos ambientes apresentados na primeira parte, numa espécie de "melhores momentos", breves, impactantes.

"Hipnose" já merece de cara felicitação por começar atipicamente com um fade in: revela-se então que a música já começou em algum lugar, silenciosa aos nossos ouvidos, e agora vem se aproximando, o volume aumentando, gerando um cativante mistério de como será que é teu início, de onde está vindo, há quanto tempo começou. O efeito de atenção e curiosidade que pode causar no ouvinte este fade in é comparável ao efeito hipnótico, já que a hipnose traz o hipnotizado integralmente aos comandos da voz do hipnotizador. Cheia de frases cantáveis, mudanças no compasso e no timbre da guitarra que só aprazeiam, improvisos vívidos no baixo e bom espaço para a bateria perto do final sem que os demais instrumentos se silenciem e interrompam a harmonia.

Esta segunda faixa é composição de Luciano Nobre e revela uma das ligações do álbum com o programa Venegas Music TV apresentado por Ivan Barasnevicius, visto ser possível encontrar nos arquivos antigos do programa no YouTube a versão original desta faixa com apenas Ivan e Nobre a tocando. "Pé de Bode", a próxima, também é de um Luciano e também tem ligação com o programa citado: Luciano Magno a apresentou ao Ivan para que tocassem-na juntos no programa. No vídeo em que a tocam no agora longínquo ano de 2011 já é perceptível o tanto que Ivan havia gostado da música. O timbre distorcido e enérgico da guitarra ficou bastante bonito com a linguagem do baião, funcionando habilmente a mistura deste com rock.

Tive de buscar a definição de "Bizuca", título da quarta faixa, pois até então só conhecia tal palavra como nome de um bar de uma cidade interiorana na qual morei anos atrás. Encontrei diversos significados, desde nome de um doce mineiro até "pessoa tapada". A guitarra começa caustrofóbica, aprisionada num repeat, cujos demais instrumentos buscam puxá-la pra fora e até conseguem. O timbre do baixo está bastante bonito e diferentão nesta, e as harmonias que forma junto à guitarra são realmente graciosas de ouvir.

Fácil é ouvir o CD e ter a impressão de não estar escutando um trio e sim uma banda lotada. E, pra entregar a verdade, o "Continuum" não se trata mesmo de um CD gravado por três pessoas em estúdio mas sim quatro - Pietra, filha de Ivan e Dé, participou também das gravações diretamente do conforto da barriga da mãe. A palavra "acalanto", que nomeia a faixa 5 e é composição de Dé, vem do ato de ninar uma criança, cantar para que ela se acalme e durma. O violão, presente também no álbum anterior, reaparece nesta fazendo a base para que o baixo possa frasear e gerir o aconchego que a faixa proporciona. A sonoridade resultante é bastante rica e incomum. Há espaço também para que o pai se manifeste, saindo o violão e entrando uma guitarra, e em outros momentos ambos agregados. Como se o violão, aqui quarto elemento em uma música de trio, representasse a pequena que logo mais chegaria.

Se no primeiro disco o aceno ao passado (e presente e futuro também) no metal de todos os integrantes se dava com "Machine", neste disco se dá com a última faixa, "Granizo". O tema principal pesado caberia bem em qualquer hit do metal, mas aqui se junta no melhor estilo mestiçador - nessas alturas já típico e reconhecido - do trio com um samba, sem a guitarra precisar esconder a distorção nem bateria e baixo perderem a fúria para que o samba role. As encurraladas nas quais o tema principal se coloca são muitas, como um pedestre a buscar um toldo para se proteger de uma chuva de granizo.

Vale mencionar a faixa bônus lançada separadamente em 2015, "Minuano", arranjo de Ivan Barasnevicius para composição de Pat Metheny. Infelizmente há - e provavelmente não são poucos - quem enxergue o termo "abrasileirar" como pejorativo, às vezes nem por crença própria mas por costume adquirido. Ivan afirmou em entrevista que, com o trio, não teve preocupação de criar solos mirabolantes, e sim realizar a mescla de estilos distintos que se ouve nos dois álbuns. E isso foi possível, sem que perdesse a a concordância do conjunto. Logo, pode-se dizer que Ivan requintadamente abrasileirou a composição de Metheny. Destaque a um vilão de nylon de 1998 do próprio Ivan utilizado na gravação, cujo qual não sei se traz ligação fraterna, mas é a sutil impressão que ficou nas entrelinhas do que se escuta.

A sensação ao concluir a audição do disco é a mesma que se tem ao conhecer alguém, ter uma primeira boa impressão e não se decepcionar conforme dá continuidade ao contato.

Continuar pode ser, em boa parte das vezes, bem mais complicado do que recomeçar ou mudar completamente. Pra continuar é preciso manter o vínculo. É preciso ir em frente com o que já se tem. Continuar é preciso.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ivan Barasnevicius Trio

Ivan Barasnevicius Trio

Título: Síntese
Ano: 2012
Impressão:

Um dia qualquer de 2012. Deparo-me com um meme daqueles de "coisas que farão você se sentir velho". Uma das "coisas": a constatação de que 2007 já tinha sido há meia década. Caramba! Em 2007 eu fazia parte de uma banda cujo estilo definíamos debochadamente como "hardcore universitário" chamada LøF (é, com o "ø" cortado, esses jovens...) e aquele meme me fez cair a ficha de que já fazia meia década do fim dela! Esse tempo que só voa... tanto voa que atualmente faz meia década não do fim da LøF, mas sim QUE EU VI AQUELE MEME! Taca-le mais cinco anos na conta. Qual o espanto, não?

Tais anos se ligam com o primeiro álbum do Ivan Barasnevicius Trio: 2007 foi o ano de início das atividades do trio e 2012 o lançamento do disco. Esta meia década que se passou do lançamento até hoje nos permite observar uma característica de Ivan, iniciada com este álbum "Síntese" e repetida nos demais discos lançados pelo guitarrista ao longo destes cinco anos: intitular os álbuns com a descrição do momento pontual que representavam!

"Novos Caminhos" (2015), título do primeiro disco de Ivan em duo com Rodrigo Chenta, indicaria novos caminhos para ambos - tocando com esta formação de duas guitarras - e também para a música brasileira; "Continuum" (2014), segundo álbum do trio, indicaria continuidade da sonoridade do primeiro; e "Síntese", o pioneiro, era portanto o mesclar de estilos que os levaram até ali, a juntura das diversas influências e referências dos três integrantes em uma unidade, a apresentação da banda.

"Tatuí" é o abre alas, atiçando os ouvidos ao entrechoque de estilos musicais: na primeira parte da faixa o rock domina o maracatu, com a guitarra alvoroçada de Ivan narrando o tema; já na segunda parte, chegando aos 4 minutos, o maracatu se sobrepõe através da bateria engenhosa de Thiago Costa e o baixo bastante exposto de Dé Bermudez que é quem dita o tema agora. Ainda assim, a distorção da guitarra e a rala microfonia conservam o rock junto ao ritmo pernambucano, num diálogo denso e completivo. Tatuí, além de nomear a capital da música do interior de São Paulo, também é o nome de um dos crustáceos mais inteligentes já que consegue produzir diversas respostas a situações diferentes - assim como os instrumentos desta música conseguem fazê-lo com dois ritmos tão díspares.

"Valsa para Ana" já indica, desde o título, um novo estilo posto na mesa. O baixo bem vigoroso prepara e decora todo o terreno, revezando graciosamente com a guitarra o lugar de fala, sem pressa nem fobia. A bateria é o mais agitado dos instrumentos nesta, mas em momento nenhum perde a itinerância. Me veio a mente uma cena do livro "O Apanhador no Campo de Centeio", na qual o protagonista observa um casal a conversar caminhando pela rua em ritmo normal enquanto o filho pequeno deles caminha pulando, se divertindo, cantarolando, bem mais agitado que os pais mas sem ninguém ultrapassar ninguém. É inclusive a cena que justifica o título do livro, já que na visão do personagem principal o pequeno está atravessando o campo de centeio.

A terceira faixa, "Machine", são várias em uma - e não contraditoriamente e sim justamente por isso, a mais singular do disco. O pesado tema principal? Provável reverência e saudação às auroras musicais de Ivan, Dé e Thiago, todos com passagem significativa pelo metal. São diversos ambientes intercalados por este tema colérico. Tem jazz, tem funk, tem desdobramento do metal à uma linha mais melódica e menos tensa, provando o quanto as referências musicais podem se encontrar e se entender.

Não é de meu conhecimento se a Elis homenageada na faixa 4 trata-se da cantora apelidada de Pimentinha por Vinicius de Moraes cuja mera menção ao primeiro nome já traz automaticamente tua imagem e segundo nome à mente, ou se estão homenageando a carismática vira lata de Ivan e Dé que é xará da cantora. Optei por não confirmar diretamente e sim considerar que a música é para ambas pimentinhas. Começa no melhor estilo "cada um com seu cada qual", com cada instrumento executando uma ação diferente na introdução de 40 segundos, até entrar o tema. Cantável, espaçoso, colorido. O timbre diferenciado do baixo prende bastante a atenção em seus momentos de destaque, também merecendo menção o modo bem visível com que o tema principal se encerra a cada execução conduzido pela bateria. No desenredo, aos mesmos moldes da introdução, por um bom tempo os instrumentos se deleitam cada um cada um, quase independentes entre si sem pecar harmonicamente.

"Novos Ares" redesperta o ouvido até daquele que colocou o CD para ouvir e se distraiu rolando a timeline do Facebook por motivos de: um violão! Após o ouvido já estar íntimo da guitarra, um violão muito bem posto traz, como o título assume, novos ares. Faixa animada e serena mutuamente. Destaque para uma espécie de interlúdio que ocorre ao centro da música no qual o compasso muda, ficando mais plácido e insinuando o recolhimento.

A última, "Girando Lâmpada", releitura de Ivan Barasnevicius para a música de mesmo nome d'O Terço, faz jus ao estilo rock progressivo apontado em boa parte das resenhas a respeito deste álbum. Apesar de não ser a mais pesada, é a mais estrondosa do disco, numa espécie de caos/tumulto organizado. Há espaços para solos da bateria, eco e uma curiosa distorção acentuada da guitarra ao final da execução dos temas: a eletricidade chegando e acendendo repentinamente a lâmpada que se girou e girou para encaixá-la. Nos 40 segundos finais a bateria, que iniciou o disco em ritmo nordestino festivo, assume um breve andamento de marcha militar conduzindo os demais ao encerramento. Desfecho classudo e clássico do rock, pratos soando, baquetas por toda a cozinha, distorção e a última nota das cordas alta e seca!

E está entregue a síntese, do simples ao composto. Das causas às consequências. De meia década atrás a uma contemporaneidade atemporal. Dos estilos com nome a uma junção que não necessita de novo nome.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 16.
Impressões iniciando com 'I': 2.

Decrescente

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