IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 16.
Impressões iniciando com 'L': 1.

Decrescente

Crescente

Leandro Cabral

Leandro Cabral

Título: Sobre tradição
Ano: 2015
Impressão:

A tradição não existe por si só, independente e sozinha. Para que exista é preciso que haja transmissão. Vem do latim tradítio, significando "passar adiante" - implica ação nos dias atuais, movimento, o não esquecimento. Vida, vivida e vívida. Muito se debate atualmente sobre família tradicional, arquitetura moderna, "na nossa época era melhor", "não sei como eu vivia sem isso antes", manter ou abandonar tradições. E, em meio a discursos apaixonados e de desapego, a música: uma tradição em si própria e ponto importante em inúmeras outras tradições.

De cara no título de seu primeiro EP solo lançado em 2015 o pianista Leandro Cabral compromete-se a fazer jus a esta condicional da tradição: trazê-la ao agora, reconhecível, e mesclá-la com o moderno sem que se perca aquilo que nossos ouvidos reconhecem como tradicional. Nostalgia da contemporaneidade. Os músicos que o acompanham são conhecidos dele de anos tocando juntos na noite paulistana (tradição) e as composições tomaram forma durante a feitura de uma série musical ao YouTube (patrono da modernidade).

São seis faixas, mas também pode-se dizer que são três pares, visto que cada uma delas tem parentesco com outra.

No encarte, Leandro Cabral diz que buscou trazer "melodias gravadas no inconsciente coletivo". É interessantíssimo confirmar isso logo que se põe a tocar a primeira faixa, "Corcovado": todo brasileiro que se preze terá a sensação de estar em casa, de reconhecer de algum local aqueles sons, a melodia ensolarada do piano. O Cristo Redentor, situado no morro que nomeia a composição, estampa algum local da nossa mente e civilismo, mesmo a quem nunca o viu de perto. Bastante curioso é o primeiro momento protagonizado pelo baixo acústico de Sidiel Vieira: um tanto agoniado, uma aparente falta de folego proposital em cordas que sugerem se esforçar para soarem, abatendo o clima há pouco ensolarado com nuvens escuras chegando sem informe. Com a posterior retomada do piano e o destaque da bateria mais adiante, a faixa se revela um verdadeiro sobe e desce de tensões: do ensolarado ao melancólico ao festivo e ao tristonho de novo. Condizente com a capital que abriga o Corcovado: bela, que sofre.

Próximo ao final, quando os instrumentos estão próximos de se estabilizarem, um novo entra: a voz de Leandro Cabral! É um instrumento intruso e convidado ao mesmo tempo. Ao ouvido atento é possível ouvir Leandro cantando a melodia junto ao piano, recordando como faz o pianista estaduniense Keith Jarrett. É um fenômeno bastante interessante de assistir em vídeo a tamanha entrega corpórea-musical de Jarrett, performático involuntário, um pianista cujas câmeras não focam apenas nas mãos mas também dão closes nos pés, na coluna, fazendo do próprio corpo um instrumento participante. Ao permitir que ouçamos tua voz, Leandro deixa, como Jarrett, a música ainda mais humana, braçal e maciça.

"Stella by starlight" é a faixa que faz par com "Corcovado", não apenas pela mesma formação de piano, baixo e bateria, mas também pela forma desobrigada: sai para caminhar sem destino esclarecido e no andar que bem quiser, explorando as vielas sem critério pré definido. Os solos de baixo e bateria colaboram com a imprevisibilidade e mudanças de direção, sendo o de baixo bastante independente do rumo que o piano vinha traçando até ali, e o de bateria materializando através dos sons a auto desconstrução constante da faixa. Ainda assim, passa longe de ser confusa e tem encerramento clássico.

"Minha saudade" e "Eu e a brisa" formam o segundo par de faixas, sendo assim parentes graças ao sax de Cássio Ferreira e ao fato de serem mais diretas, lineares, inclusive na duração mais correspondente à média.

"Minha saudade", como Leandro explicara em entrevista, é um samba jazz sessentista, uma tradição palpável e, ao pé do nome, saudosa. As pausas do sax são bem valorizadas e em primorosa medida, com o piano nunca deixando a peteca ir ao chão. Já em "Eu e a brisa" há apenas piano e sax sem os demais parças, fundamentando o título que sugere só o autor e outro elemento. O sax soprano calmo, que aparenta querer dar forma a uma coisa bonita, emite poucas e longas notas enquanto o piano emite muitas e breves, aglomeradas, gizando juntos uma paisagem sonora. E o sax vai sem medo até as notas mais altas, sem perder a sobriedade que a composição propôs. É brazuca, gringa, familiar mundo a fora. Encerra-se com o sax sugerindo querer repousar, mas recusando-se a fazê-lo para deixar propositalmente inconcluso, como a brisa do título que também vai embora sem interesse num gran finale.

As duas últimas do EP são faixas solo, nas quais Leandro sonorizará tua mente pelas teclas. Cada uma de suas mãos é um componente convidado a manter o diálogo com o ouvinte e o movimento que cada composição inicia a partir da primeira nota.

Ambas tem títulos lúdicos: "Someday my prince will come" seria relacionado a contos de fadas? Paternidade? As notas graves estão bem presentes e carregadas, em polifonia com as mais agudas, colocando tensão e bonança a ajustarem-se. Não é triste, prevalecendo ares esperançosos sugeridos pelo título. Esperança vem de espera, tal qual o personagem do título espera teu príncipe, com esperança.

"Moon River", diferente da anterior em que o personagem está fisicamente presente mas com a cabeça em outro local, é mais contemplativa e paisagística. Consegue ser bastante imprevisível mesmo sendo faixa de um instrumento só, com destaque aos 2:15 em que o piano corre com notas em disparado, causando deslumbre certeiro no ouvinte. Se aproximando do fim as notas se apresentam mais lentamente, parecendo espécimes vivas a buscar o silêncio. E o encontram.

A escuta é rápida, mas evidencia: enquanto houverem composições apaixonadas como estas, e ouvintes, a tradição está garantida. Já dissera o espirituoso e saudoso cabeleireiro do meu bairro chamado Adão, falecido em 2013, quando uma cliente reclamou por ele ouvir no salão músicas que ela achava "muito velhas": "Que bobeira, menina, música é a arte que nunca fica velha, vai pra sempre se reinventar".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 16.
Impressões iniciando com 'L': 1.

Decrescente

Crescente

Página 1 de 1