IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 17.
Impressões iniciando com 'M': 2.

Decrescente

Crescente

Manu Cavalaro

Manu Cavalaro

Título: Cantora não
Ano: 2016
Impressão:

"A gente canta a nossa saúde", escutei certa vez de um professor de canto. "Ao observar um pianista ou violonista em ação, piano ou violão são os instrumentos, e pianista ou violonista os instrumentistas. Já no cantor, o instrumento está dentro do instrumentista, então é inevitável a saúde dele aparecer no resultado", completou. Alguns podem discordar no que compete à influência da saúde do cantor no canto. Talvez seja mesmo algo a se discutir. Porém, o que mais pode causar polêmica - e é bem pouco discutido - é que provavelmente há quem estranhe o modo cujo qual o profesor se referiu ao cantor: como um instrumentista.

Ao receber para escutar o disco de estreia de Manu Cavalaro das mãos do meu xará Rodrigo Chenta, as exatas palavras dele foram: "Trata-se de uma cantora que não precisa de letras. Usa a voz como instrumento". As letras aparecem em algumas composições, porém, Manu dedica-se antes de qualquer pré etiquetagem ou sofisticação à função primordial e vital do cantor: cantar a melodia. Daí o título "Cantora não", em provocação ao senso comum de que cantores só cantam canções. Assim, apesar de poder ser considerado como um disco de música vocal, é antes um disco instrumental.

Apertando o play da primeira faixa, "Era pra ser maior", uma manada instrumental atropela o ouvinte que abria uma frestinha na porta para espiar: uma brevíssima virada na bateria e todos os instrumentos entram juntos, dispensando propositalmente as tradicionais introduções do ameno ao crescente feitas para o ouvido se ambientar. O bonde andando apanha de imediato o ouvinte do local onde sua mente e ouvidos estavam a pouco direto à música. O andamento acelera logo, revelando que os trilhos pelos quais caminhará a composição - e, conforme as próximas faixas mostrarão, o próprio disco - estão mais para uma montanha russa cuja surpresa está sempre ali do que uma linha reta de trem. Curiosamente esta é, segundo Manu, a primeira composição que ela teve coragem de mostrar às pessoas, condizendo não só ser a primeira do disco, como também a este "chegar chegando" da faixa.

Todas estas informações surgindo duma vez, ordenadas pela bonita voz de Manu, correspondem ao colorido do encarte: assim como a música, consegue ter muitos informes nas diversas cores e formas sem que disperse ou dê a impressão de bagunça. Há uma ordenação respeitável nas muitas notas cantadas, nos demais instrumentos todos muito presentes, e no encarte multicor e urbano.

Esta primeira faixa tem letra da própria Manu, e o que é muito notável é que o instrumento Voz - com letra maiúscula, em primeira pessoa, nome próprio - se confunde com o eu lírico. Versos como "Senti a sensação de um ré maior e assim, fiquei por aqui" podem ser interpretados como uma alegria, e em outros como um pranto, da protagonista Voz. É esta o personagem a nos relatar experiências pessoais, reconhecíveis até mesmo no verso em que cita músicos que a influenciaram: se Manu assume influência deles, tua Voz assume também.

A segunda faixa, "Saudade Federal", tem um clima bastante diferente da primeira, com piano e canto tristes na introdução. O fato de não possuir letra, com exceção de uma única frase ("Que saudade, federal"), confere à própria indefinição do que é saudade. Aí está sublime representação desta palavra no canto de lamento de Manu, que a compôs em memória de um federal citado no encarte.

"A Lua", faixa 3, inicia-se com piano entusiasmado favorável ao ambiente de fantasia infantil que se dará. Com versos que graciosamente caberiam na boca de uma criança, como "Quem que fez a Lua e botou ela lá?", recordou-me de uma mulher com quem convivi na infância chamada Gessina. Ela afirmava convicta: "Pode vir qualquer cientista falar pra mim que o homem pisou na Lua, eu não acredito de jeito nenhum". O motivo: São Jorge, também lembrado na composição de Manu no verso "Será que São Jorge mora lá?". Gessina, ao contrário, não tinha dúvidas disso e afirmava (com uma segurança difícil de descrer) conseguir enxergar, daqui, São Jorge espetando o dragão na Lua! "Até parece que o homem foi até a Lua e não filmou São Jorge".

Outra menção sobre esta faixa é o modo como a letra cantada por Manu está perfeitamente encaixada aos demais instrumentos. É comum na música vocal uma certa independência, mas neste caso a voz caminha nos mesmos passos, fazendo raro jus ao que se pode chamar de "todos uma coisa só".

A quarta, "Pra me visitar", tem no arranjo o conforto caseiro, aconchego, café na mesa, roupa de cama, sugeridos não só pela letra mas também por todo o instrumental. Há diálogo da voz de Manu com o clavinet, cujo qual responde com notas a cada frase por ela cantada, com interpretação que muito bem convence tratar-se de alguém na cama sem vontade de abandonar tal conforto e tentando convencer o/a visitante ficar. Ao final, após a última frase com letra, Manu entrega notas mais altas - "entrega" em todos os sentidos do termo, como quem entrega um presente, quem denuncia algo, quem se rende. Cantar é se expor e aqui talvez seja um dos momentos do disco em que Manu mais se expõe.

Na metade do disco, em "Olha Iemanjá" são ouvidas diversas Manus a cantar com um piano. As várias vozes colaboram com a aura mística que envolve tal entidade. Ao dizer que uma coisa é ritualístico é comum pensarmos em religiões, porém, já não seria o próprio fazer música, de qualquer tipo, individual ou coletiva, um ritual?

A faixa 6, "Funk com tudo", dialoga com a faixa 8, "Cantora não", por não possuírem nenhuma letra, nenhuma palavra. São faixas com diversos atos, separados por mudanças no andamento que ambientam cada novo rito. Manu contou em entrevista que "Funk com tudo" nasceu como um funk, mas se transformou em baião e depois jazz. Isto muito recorda escritores revelando como, em certo ponto, seus personagens começam a "falar sozinhos" e guiam a história para um rumo diferente do planejado a princípio. Assim o é com música também: adquire autonomia, decide sozinha onde ir e, de acordo com Manu, "a gente ouve e obedece ao que ela pede".

"Diminuta", sétima faixa, tem parentesco com a primeira: na primeira, a Voz pode ser interpretada como eu lírico da composição; já nesta, a Música, aqui também como substantivo próprio, é o assunto de si mesma. A opção, ou falta de opção, por viver financeiramente dela. A letra é um "Justifique sua resposta" pronto aos que costumam perguntar para músicos se estes trabalham "só" com música. A voz de Rinah Souto, cantora que participa da faixa, é um verdadeiro achado, caprichando na interpretação/dramatização, algo tão cobrado dos cancioneiros.

Se aproximando do final, "Frevendo" tem ritmo festivo, alegre, carnavalesco. Há considerável espaço para os demais instrumentos além da voz solarem, e um espaço apertado próximo ao final onde entram algumas frases velozes não só no andamento mas no próprio conteúdo da letra, sugerindo muita pressa.

A última, "Gratidão", composta pelo baixista Itiberê Zwarg, diferente da faixa de abertura (que, como dito, começa com o bonde já andando), tem uma introdução solene, como se estivesse preparando o público a um pronunciamento importante. E o é realmente. Os agradecimentos finais em áudio e musicados. Mesmo quando o andamento dá lugar a outro mais animado, não perde o tom de celebração. "Dividir com vocês, é tudo que sonhei". Manu dividiu e agora agradece. Gratidão é um rito bastante importante nas religiões tradicionais. Religião, antes de qualquer pré conceito da moda, é religação. Agradecer nesta última faixa é se religar com o que motivou e motiva tudo isso que acabou-se de escutar.

Se o professor citado ao início estiver certo (e, pessoalmente, creio que está) e nós, realmente, "cantamos nossa saúde", solicito que a cada aniversário de Manu Cavalaro teus afetos não esqueçam do voto de "muita saúde".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Mauricio Cailet

Mauricio Cailet

Título: Time's up
Ano: 2013
Impressão:

Um dos mais comuns pré conceitos em relação à música instrumental é a crença de que este tipo de música é som de gente cult, intelectual, elitizada. Que necessariamente precisará ter instrumentos refinados e eruditos, executando coisas complexas, que somente um gosto que despreza o popular se agradará ao ouvir. Levando em conta isso, o álbum "Time's up" do guitarrista Mauricio Cailet pode ser uma convidativa porta de entrada ao universo do instrumental para os ouvidos que creem nessa lenda urbana.

É um álbum essencialmente de rock, embora alguns outros estilos manifestem-se em certas faixas. Os instrumentos em cena - guitarra, baixo, bateria, percussão e teclado - são conhecidos do grande público e facilmente reconhecíveis na audição.

Mauricio Cailet assumidamente não se interessa em apresentar no disco frases de alta complexidade e difícil absorção, mas sim composições que cheguem em locais do ouvinte que só a música tem eficiência de chegar. O resultado é um álbum de melodias muito bonitas, em que Mauricio se entrega e expõe bastante de si. O rock tem várias facetas e uma delas é justamente a faceta emotiva, muitas vezes auto biográfica, que faz o fã de rock se identificar com a experiência pessoal retratada, a alegria ou a tristeza do compositor. Tal faceta está nesse disco que, sem nenhuma voz audível, consegue relatar muitas inspirações, implícitas e explicitas.

Foi dito em entrevista pelo próprio Mauricio que muitos contam-lhe pegar estrada ouvindo o álbum. As primeiras faixas, "Cadillac" e "Return", dão a atmosfera de road album. Retornar tem a ver com estrada, estradas tem a ver com rock, carros antigos como Cadillacs tem a ver com os chavões de rock. Já nessas primeiras se tem um panorama do que será ouvido: faixas enérgicas, guitarra de timbre muito bonito, bateria bastante presente e forte, pausas valorizadas. Os riffs poderiam facilmente estar presentes em hits de bandas roqueiras com vocal, daquelas quais ovacionam guitarristas ímpares que levantam a plateia. "Cadillac" termina com um solo de bateria, modo bem clássico do rock, e "Return" curiosamente com um fade out, algo que se tornou raro nos dias atuais e, portanto, remete também ao clássico.

"Sleepless city" me fez pensar, pelo título, se estaria falando de São Paulo, que empresta de New York o subtítulo de "cidade que não dorme". A faixa possui diversas pontes, assim como São Paulo de várias pontes e viadutos. Penso todas as contradições da cidade terem sido retratadas pelas mudanças da música: algumas mais agressivas e aceleradas, outras mais calmas e contemplativas com auxílio das teclas, chamando a atenção o fato de serem um tanto breves, como as paisagens na cidade grande, tantas e tão variadas que cada uma parece pequena e rápida de se observar pois logo ao lado tem outra bastante diferente pra ver.

A de número 4, "Only this", é a primeira que mais se diferencia das anteriores. Percussão na introdução, teclado bem vistoso e um tanto vintage, oitentista. Os instrumentos vão chamando um por vez, se unindo em trechos dançantes que se contradizem legal ao tema principal mais tenso.

"Smiles" tem título sugestivo. Mauricio deixou claro que pretende, através das composições, contar histórias, e o título acaba direcionando bastante a esta dramaturgia. Não é preciso manjar de linguagem corporal para perceber que o ato de sorrir para outra pessoa é o ato de baixar a defensiva, abrir as portas, romper alguns tijolos da parede invisível do nosso espaço particular. Nesta faixa os instrumentos parecem bradar frases uns aos outros, se comunicando, como se dessem permissão uns aos outros para avançarem e fraternizarem. Há muita vida expressa na harmonia da composição. O final, onde guitarra e bateria se manifestam rapidamente entre algumas pausas, me lembrou um brinde coletivo, em que se escutam várias batidas de copos espalhadas.

Mesmo o álbum em questão sendo de um guitarrista, a faixa 6 é apenas do contrabaixo de Edson Barreto. Tal ato, quando realizado em um show, tem bastante virtude: auxilia na dinâmica do espetáculo, afinal, por mais que o nome no letreiro seja o do músico considerado principal, o outro também faz parte daquilo e tem então o canhão de luz direcionado a si. Permitir esta mudança de "cara" em um álbum é muito relevante, silenciando todos os instrumentos que até então muito presentes e altos estavam, para que o contrabaixo conte uma história sozinho. "Father and Mother" é esse momento de calma, conseguindo com apenas um instrumento uma breve peça de pequenos atos, com notas que definem bem o final austero. Achei esta uma faixa bastante visualizável, pois parecia conseguir "enxergar", imageticamente, os dedos atacando as cordas. Curiosamente uma mãe está presente no título e, graças aos ares eruditos, acabei associando com a minha, cuja qual tocava violão erudito há anos atrás e uma das primeiras vezes que a vi tocar uma peça fiquei impressionado com o dedilhar rápido e colado um no outro, cena bastante parecida com a imagem citada que me veio à cabeça nesta composição.

"Time's up" é faixa título e imagino que leve este nome por conta do próprio elemento tempo, muito presente na criação e concretização do álbum. Pensar que as composições começaram no final dos anos 90, quando termos como Wifi e Facebook nem existiam, quando celular ainda era coisa de granfino, indo iniciar as gravações na década de 2000, pra tudo estar pronto e ser lançado somente em 2013! Quem presenciou um bebê nascendo em 1997 o viu em 2013 se preparando para logo tirar carta de motorista. A faixa possui diversos ambientes diferentes um do outro, mesclados em uma das passagens por um solo do baterista Johnny Moreira, retratando o passar do tempo e seus intercalares, suas veredas e encantamentos.

Além de "Father and Mother", outras figuras paternais aparecem no final.

"My Light" é dedicada à mãe de Mauricio, Yvonne F. Cailet. Celeste poderia adjetivar a composição, que se inicia e permanece emotiva, não perdendo o tom sensível mesmo com a entrada de uma guitarra de mais peso e das aceleradas no andamento. Possui cor una, é forte e engrandece. Já o pai de Mauricio, Oglai Cailet, tem em dedicatória a última faixa "In Memorian". Interessante o fato de que a mesma começou a ser composta enquanto o homenageado ainda estava vivo, e foi continuada e finalizada após tua partida. O momento da partida é o momento em que o elemento tempo, citado e dignificado no disco, termina para quem partiu, mas ainda assim continua a passar - assim como esta música, que continuou sendo escrita após a partida. É repetido algumas vezes um trecho compassado levemente tenso cujos dedos começam a acompanhar sozinhos após a terceira ou quarta vez que é tocado na música. A temática de falar de alguém que já partiu poderia sugerir tristeza, mas esta acaba sendo, na verdade, uma composição para celebrar uma vida.

O encarte possui arte simples e direta, assim como o é o álbum: o tempo ilustrado na capa através de um relógio com números romanos no qual Mauricio e guitarra estão ao centro. Clássico e novidade estão aqui intrínsecos, se completando, sendo tempo e passar do tempo conjuntamente.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 17.
Impressões iniciando com 'M': 2.

Decrescente

Crescente

Página 1 de 1