IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

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Pedro Pimentel

Pedro Pimentel

Título: Pedro Pimentel
Ano: 2012
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Vários estereótipos do que se imagina a respeito de música instrumental caem por terra com esse álbum.

Capa abstrata, requintada e poética? Sim, de todos esses adjetivos, mas de um modo completamente independente ao esperado. Anúncios cheios de pontos de exclamação em balõezinhos coloridos, um televisor daqueles que víamos na casa de nossos avós, um formato de videogame cujo qual estudantes colegiais contemporâneos nunca viram mais gordo na frente. Pedro Pimentel optou por uma arte que lembra os anos nos quais se assoprava fitas de videogame para que essas funcionassem, cujas embalagens vinham cheias de informações e de cores. Assim, Pedro entrega a seu modo uma capa abstrata, poética e requintada - abstrata pelo nó na cabeça proposital, requintada pelo estilo retrô e poética por tudo que significa.

Uma das definições que Pedro Pimentel deu ao CD foi "uma documentação da época", e isso está - não nas entrelinhas, e sim bem exposto - na capa e nas composições. O retrato de alguém que nasceu na segunda metade dos anos 80, foi criança nos anos 90 e adolescente nos anos 2000. Curiosamente o álbum não tem nenhum título além do nome próprio de seu criador, o que torna tal retrato mais personalizado e direcionado ainda.

Apesar de todos os instrumentos terem sido tocados por um único Pedro, não soa como um álbum solitário. Não saberia dizer se é pelos instrumentos estarem tocando conjuntamente em formato de banda, mas creio ir além disso e ter a ver com os 7 anos que o mesmo passou compondo, provavelmente conhecendo e se despedindo de bastante gente no período.

Assim como no álbum "Time's Up" de Mauricio Cailet, quem tem preguiça de discos instrumentais por achar que escutará um som de intelectual irrisório com monóculo nos olhos vai se surpreender com os caminhos possíveis. O disco de Pedro Pimentel vai do agressivo ao emotivo, e faz referências nostálgicas à cultura pop de quem viveu nas épocas abordadas.

"Fechou o Tempo", faixa de abertura, desenha todo o plano de fundo de onde e quando se passa o álbum: Pedro a compôs após fugir de assaltantes, ou seja, adrenalina e perigo são reconhecidos na sonoridade. A bateria programada e o baixo dão a velocidade, enquanto a guitarra parece querer gritar. Há atmosfera de game, soando como algo que já fora moderno e se tornou vintage em poucos anos.

A seguinte "Cavalo de Pau", apesar do andamento diferente, preserva o clima de adolescente de cidade grande de duas décadas atrás jogando dentro de um quarto. As notas furiosas da guitarra e o prato enérgico da bateria passam a ideia de muita energia contida, e até de caustrofobia - joga-se um game e com isso vive-se várias emoções inquietas e pulsantes dentro de um cômodo limitado. Os bends batem e rebatem nas paredes do quarto, buscando com ansiedade se expandirem para além dali.

Dois apontamentos se fazem necessários:

O primeiro é o título desta segunda faixa. Não lembro a última vez que vi pessoalmente um cabo de madeira com uma cabeça de cavalo na ponta. Para alguns, da época do Pedro ou de antes ou depois, apenas um cabo velho de vassoura sem nada nas pontas já servia como cavalo de brinquedo. Notável como Pedro Pimentel referencia games, que foram e ainda são itens modernos - como na faixa 6, "Strider", referência assumida a um jogo lançado em 1990 de mesmo nome - como também traz ao álbum este brinquedo de madeira que é mais simples e antigo, porém mais orgânico e palpável, que também permite boas aventuranças ao miúdo que souber criá-las.

O segundo apontamento é o fato de que Pedro gravou as músicas em seu próprio quarto de dormir, contrariando aquela balela de que atividades criativas não devem ser feitas no ambiente em que se dorme. A vivacidade e intensidade enclausuradas despontaram no som.

A terceira faixa, "O Som do Vidro", me fez questionar se não seria justamente o vidro da janela do quarto a vibrar diante de tanta carga. Porém, essa é uma composição mais calma que as anteriores, que após os curiosos e enigmáticos sons de introdução já se mostra bem distante das supostas trilhas de games. Destaque para os dois timbres de guitarras colocados para um dueto esbelto perto dos 3 minutos.

"No Veneno" e "Tarja Preta" parecem faixas parentes. Os títulos fazem pensar no sangue no zóio que pra muitos é necessário num jogo, e na contenção brusca e química a esse mesmo sangue. Ambas começam marrentas, entregando após o primeiro minuto a música para uma guitarra solar - a primeira com frases mais sensíveis, já a segunda mais colérica. Os estados se mesclam, numa com notas altas e longas, noutra com mais agilidade e menos altura.

Estamos falando de um disco instrumental cujo uma das músicas se chama "O Grito Mudo", ou seja, se já não se espera ouvir vozes aqui, não se esperará especialmente numa faixa com "mudo" no título. Mas, ao ouvido entregue e aberto, essa faixa traz vozes sim! O arranjo um tanto sombrio monta o cenário para que uma espécie de suspiro instrumental se manifeste em escala de tempo muito próxima da respiração do ouvinte. Hão suspiros herméticos ao início, ao solo de baixo, e mesmo quando a guitarra ganha completamente a composição o ouvido ainda busca por eles. Um falso final entrega silêncio de alguns segundos antes da conclusão, sendo talvez uma ilustração à referida mudez do título.

"O Beco", apesar do nome que sugere riscos, é uma composição mais descontraída, do tipo que faz dançar morosamente na cadeira, surpreendente pela imprevisibilidade. Tem um longo solo de teclado, revelando um lado mais tranquilo do disco, embora a faixa termine com o mesmo teclado tenso junto a uma guitarra angustiada.

É de se supor que esteve presente durante todo o disco uma certa nostalgia com as épocas e referências que levaram o Pedro a ser quem era no ano em que lançou o disco (2012), mas na faixa "Um Grande Amigo" o tom emotivo assume o lugar de fala com maior maestria. Antes da bateria entrar já é possível sentir colher determinadas áreas internas nossas sem nome as quais apenas a música consegue descortinar. Frases cantáveis, variações muito interessantes delas, e mesmo nos trechos em que há acelaração o tinido emotivo continua ali.

A última faixa, "Nova Era", é a mais diferentona de todas. Talvez arriscasse afirmar que nem parece ser do mesmo álbum que as demais, sem que isso jamais insinue incoerência - a guitarra forte de todas elas continua aqui, o tom comovente da faixa anterior também. A introdução com cordas acústicas suscita o ouvido, a percussão que lembra chocalho - mais um item de brincar, ao lado do cavalo de pau e dos games - muito bem aproveitada ativa a curiosidade e um sorrir interno. A faixa cresce na medida certa, chegando a seu ápice com as mesmas guitarras nervosas da primeira faixa agora mais enlevadas. Apesar de, conforme Pedro contou, o título ter sido gerado um tanto depois da própria composição, este encaixou-se jeitosamente com a missão de encerrar o álbum: após tantos itens de suas memórias serem postos na mesa, a porta já encontra-se aberta para o novo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

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