IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 17.
Impressões iniciando com 'Z': 1.

Decrescente

Crescente

Zeli

Zeli

Título: Voando baixo
Ano: 2002
Impressão:

Aonde você estava na noite do dia 20 de fevereiro de 2002, mais precisamente às 20h02?

De acordo com o pessoal dos astros, este minuto exato era o momento indicado para mentalizar um desejo. Estava ocorrendo uma capicua completa, bem provavelmente a última que presenciamos em vida. Capicua, que no catalã significa "cabeça e cauda", é o termo que batiza um conjunto de números cujo reverso é ele próprio. Assim, eram 20h02 do dia 20/02 do ano de 2002. A próxima é só em 2112, ou seja... quem pegou, pegou.

Além da última capicua, foi também naquele ano a última vitória do Brasil numa Copa do Mundo. Bom, ao menos até 2017. Os buffets que em 2017 realizaram festas de debutante as fizeram para as bebês nascidas em 2002. As nascidas no primeiro semestre presenciaram a conquista do Penta mas não se recordam, se igualando às que nasceram a partir de julho e também (ainda) não fazem ideia do que é ver o Brasil ganhar a Copa.

Em 2002 era lançado o CD "Voando Baixo" do baixista Zéli Silva, na época assinando apenas como Zeli. Ainda sem ter ouvido nenhuma faixa, tendo o encarte em mãos e observando os títulos já se transpira brasilidade. Bastante interessante é a experiência de escutá-lo agora que o álbum está debutando, pensando no contexto do Brasil na época da gravação, tentando desvendar nos entresons e na própria arte do encarte elementos que de alguma forma remetam há 15 anos atrás. Música e seu poder sobrenatural de não envelhecer.

"Voando Baixo" nomeia o álbum e a faixa de abertura, título ao qual é fácil sorrir por se tratar de um disco de baixista. Apertando o play, lá estão o baixo de Zéli e uma cuica que no primeiro ronco já remete a aquele patriotismo exclusivo de época de Copa. Há uma particularidade subjetiva de descrever, mas presente na nossa memória pronta a despertar de 4 em 4 anos. Sonoridades que estão no inconsciente do brasileiro. Menção justa ao solo de bateria de Edu Ribeiro, longo, com alterações no volume, pausas certeiras e mudanças que aparecem mas conseguem retomar ao lugar conhecido.

A mudança de clima para a segunda faixa "Refúgio" é quase brusca, e por isso merece cumprimentos. Faixas 2 tem uma missão, não oficial, de manter o que foi conquistado pela faixa de abertura. É momento de estabilizar o ouvinte na proposta. Colocar uma faixa 2 triste após uma abertura animada é ir sem medo pela contramão. Nesta Zéli toca, além do baixo acústico, violão, e se na anterior abria acompanhado de cuica festiva, aqui entram violão, piano e clarinete amargurados, a desenhar um cenário de noite de chuvinha fraca. A bela e boêmia voz de Simone Guimarães, que junto a Zéli assina a composição, canta para uma moça na janela. Talvez a moça seja uma segunda pessoa, porém - "moça da janela diz pra mim quem sou" - por que não seu próprio reflexo no vidro?

"Suíte" muda novamente o clima e não parece intencionar complementar alguma das propostas anteriores pois trará uma inédita. Tem ares um tanto internacionais. O diálogo de abertura entre o violão de Renato Consorte e o baixo sem trastes é muito bem posto. A faixa se desenvolve no sentido pleno da definição de elegante, uma riqueza harmônica impressionante. Não cabe em uma só audição. Até então é como o disco vem se apresentando, uma diversidade nada econômica de sons e instrumentos. Mas, como já se sabe, modificar completamente não é tabu no cosmo deste disco. "Carinhoso", patrimônio brazuca de Pixinguinha e João de Barro, é reinterpretada por um Zéli totalmente solitário no baixo. Trazer uma composição célebre destas é arriscado, ainda mais responsabilizando-se sozinho pela mesma. Mas o resultado é uma releitura íntima, singela e, fazendo jus, carinhosa.

O título da quinta faixa, "Remexendo", fez lembrar que no início dos anos 2000 era comum uma espécie de Carnaval o ano inteiro pois era momento do axé. Já a composição de Zéli é um samba divertido e requintado, sem poupar a alta roda instrumental. O dueto da voz de Luciana Alves com as flautas, momento no qual os diferentes timbres buscam alcançar um ao outro, é de não acomodar adjetivos. "Julho por Deus" também é um samba com a peculiaridade de transformar um casco de baixo acústico em percussão. Julho injustamente não é um mês valorizado. Deveria! Bom mês para reavaliar como estão indo os planos feitos para o ano que não é mais novo mas ainda está longe de ser velho. Talvez então, graças a falta desse costume, Julho realmente fique "por Deus" apenas.

"Corra e olhe o céu" está interessantíssima. É o tipo que escuta-se e pensa-se como nunca antes havia escutado tal arranjo. O modo como baixo, clarinete e sax tenor conseguem revezar para que cada um possa "fazer o Cartola" é digno de correr e escutar. Uma das poucas faixas com poucos instrumentos, sem fazer dívida às demais. Já a seguinte "Todos Lados (Afroamerica)" retoma o estúdio cheio trazendo congas e djembê, um tambor originário da África Ocidental que se mescla e se caldeia com violão e piano, sublinhando o título entre parenteses.

Antes de escutar a faixa 9, "Luzia", deduzi que este título provavelmente tratava-se de uma senhora, o tal do senso comum de ligar nomes a idades. Ao ver na ficha técnica "Voz: Luzia" pensei "legal, uma cantora cantando uma faixa xará". Esta segunda dedução acertei - mas só essa. Uma introdução instrumental doce de 8 segundos até que entra a voz. Se num dos primeiros parágrafos foram citadas bebês que nasceram por volta de 2002, aqui se escuta uma delas! Cantando na linguagem dos bebês, com risos, balbucios, exclamações soltas. Há também a voz do próprio Zéli junto a uma pluralidade de timbres de baixos diferentes que são um presente aos ouvidos. Luzia pode ainda não ter visto o Brasil ganhar uma Copa, mas terá para sempre esta canção de ninar primorosa.

"Mulher", releitura da composição do maestro Custódio Mesquita com o ator Sadi Cabral, assim como nas demais releituras do disco opta por poucos instrumentos. Formação mais clássica de quarteto com baixo, sax, piano e bateria, com longa introdução do baixo de Zéli bastante confortável. Um violão é adicionado e o quarteto se torna quinteto nas faixas seguintes e autorais "Balada Capital" e "Samba Amigo". Dois títulos que, talvez, propositalmente se oponham: uma balada outra samba, uma capitalizada outra amigável. Condiz com as sonoridades, uma mais formal e lúgubre, outra mais animada e celebrativa, na única repetição de formação do disco.

"Estrada Branca", igual ocorre com "Mulher", também é releitura e também abre com longo baixo solitário. Uma composição em duo de Tom Jobim com Vinicius Moraes relida num duo de Zéli com o guitarrista Marcelo Gomes. Não há pressa e sim audível curiosidade em explorar as possibilidades que ali estão. Serena e que resgata fácil a alegria triste típica de Tom.

Por fim, "Oculto", não apenas é uma das mais bonitas como também traz a curiosidade de ter sido gravada em 1994 no Canadá. Coincidentemente, o penúltimo ano em que o Brasil foi campeão da Copa. Optou-se por encerrar o disco com a mais longa e mais antiga, que muito bem poderia ter sido gravada hoje. Há um "quê" de retrô em especial na guitarra de Marcelo Gomes, um timbre que leva a algum local entre as décadas de 80 e 90, com a exuberância de saber que não trata-se de efeito e sim de gravação feita realmente no período.

A foto de capa, em duas olhadas a ela (realizadas uma logo após a outra), rendeu duas cenas diferentes. À primeira vista pareceu tratar-se de um arco-íris sob um lago com paisagem urbana ao fundo. À segunda, os chafarizes do lago do Parque do Ibirapuera. Porém, quando a foto é transformada no desenho que aparece por diversas vezes no encarte e no CD físico, pode ganhar uma nova interpretação: o próprio voo baixo do título do disco, representado pela curvatura do arco-íris/chafariz. O trajeto do besouro ou avião voando próximo à cidade.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 17.
Impressões iniciando com 'Z': 1.

Decrescente

Crescente

Página 1 de 1