IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 17.

Decrescente

Crescente

Pedro Pimentel

Pedro Pimentel

Título: Pedro Pimentel
Ano: 2012
Impressão:

Vários estereótipos do que se imagina a respeito de música instrumental caem por terra com esse álbum.

Capa abstrata, requintada e poética? Sim, de todos esses adjetivos, mas de um modo completamente independente ao esperado. Anúncios cheios de pontos de exclamação em balõezinhos coloridos, um televisor daqueles que víamos na casa de nossos avós, um formato de videogame cujo qual estudantes colegiais contemporâneos nunca viram mais gordo na frente. Pedro Pimentel optou por uma arte que lembra os anos nos quais se assoprava fitas de videogame para que essas funcionassem, cujas embalagens vinham cheias de informações e de cores. Assim, Pedro entrega a seu modo uma capa abstrata, poética e requintada - abstrata pelo nó na cabeça proposital, requintada pelo estilo retrô e poética por tudo que significa.

Uma das definições que Pedro Pimentel deu ao CD foi "uma documentação da época", e isso está - não nas entrelinhas, e sim bem exposto - na capa e nas composições. O retrato de alguém que nasceu na segunda metade dos anos 80, foi criança nos anos 90 e adolescente nos anos 2000. Curiosamente o álbum não tem nenhum título além do nome próprio de seu criador, o que torna tal retrato mais personalizado e direcionado ainda.

Apesar de todos os instrumentos terem sido tocados por um único Pedro, não soa como um álbum solitário. Não saberia dizer se é pelos instrumentos estarem tocando conjuntamente em formato de banda, mas creio ir além disso e ter a ver com os 7 anos que o mesmo passou compondo, provavelmente conhecendo e se despedindo de bastante gente no período.

Assim como no álbum "Time's Up" de Mauricio Cailet, quem tem preguiça de discos instrumentais por achar que escutará um som de intelectual irrisório com monóculo nos olhos vai se surpreender com os caminhos possíveis. O disco de Pedro Pimentel vai do agressivo ao emotivo, e faz referências nostálgicas à cultura pop de quem viveu nas épocas abordadas.

"Fechou o Tempo", faixa de abertura, desenha todo o plano de fundo de onde e quando se passa o álbum: Pedro a compôs após fugir de assaltantes, ou seja, adrenalina e perigo são reconhecidos na sonoridade. A bateria programada e o baixo dão a velocidade, enquanto a guitarra parece querer gritar. Há atmosfera de game, soando como algo que já fora moderno e se tornou vintage em poucos anos.

A seguinte "Cavalo de Pau", apesar do andamento diferente, preserva o clima de adolescente de cidade grande de duas décadas atrás jogando dentro de um quarto. As notas furiosas da guitarra e o prato enérgico da bateria passam a ideia de muita energia contida, e até de caustrofobia - joga-se um game e com isso vive-se várias emoções inquietas e pulsantes dentro de um cômodo limitado. Os bends batem e rebatem nas paredes do quarto, buscando com ansiedade se expandirem para além dali.

Dois apontamentos se fazem necessários:

O primeiro é o título desta segunda faixa. Não lembro a última vez que vi pessoalmente um cabo de madeira com uma cabeça de cavalo na ponta. Para alguns, da época do Pedro ou de antes ou depois, apenas um cabo velho de vassoura sem nada nas pontas já servia como cavalo de brinquedo. Notável como Pedro Pimentel referencia games, que foram e ainda são itens modernos - como na faixa 6, "Strider", referência assumida a um jogo lançado em 1990 de mesmo nome - como também traz ao álbum este brinquedo de madeira que é mais simples e antigo, porém mais orgânico e palpável, que também permite boas aventuranças ao miúdo que souber criá-las.

O segundo apontamento é o fato de que Pedro gravou as músicas em seu próprio quarto de dormir, contrariando aquela balela de que atividades criativas não devem ser feitas no ambiente em que se dorme. A vivacidade e intensidade enclausuradas despontaram no som.

A terceira faixa, "O Som do Vidro", me fez questionar se não seria justamente o vidro da janela do quarto a vibrar diante de tanta carga. Porém, essa é uma composição mais calma que as anteriores, que após os curiosos e enigmáticos sons de introdução já se mostra bem distante das supostas trilhas de games. Destaque para os dois timbres de guitarras colocados para um dueto esbelto perto dos 3 minutos.

"No Veneno" e "Tarja Preta" parecem faixas parentes. Os títulos fazem pensar no sangue no zóio que pra muitos é necessário num jogo, e na contenção brusca e química a esse mesmo sangue. Ambas começam marrentas, entregando após o primeiro minuto a música para uma guitarra solar - a primeira com frases mais sensíveis, já a segunda mais colérica. Os estados se mesclam, numa com notas altas e longas, noutra com mais agilidade e menos altura.

Estamos falando de um disco instrumental cujo uma das músicas se chama "O Grito Mudo", ou seja, se já não se espera ouvir vozes aqui, não se esperará especialmente numa faixa com "mudo" no título. Mas, ao ouvido entregue e aberto, essa faixa traz vozes sim! O arranjo um tanto sombrio monta o cenário para que uma espécie de suspiro instrumental se manifeste em escala de tempo muito próxima da respiração do ouvinte. Hão suspiros herméticos ao início, ao solo de baixo, e mesmo quando a guitarra ganha completamente a composição o ouvido ainda busca por eles. Um falso final entrega silêncio de alguns segundos antes da conclusão, sendo talvez uma ilustração à referida mudez do título.

"O Beco", apesar do nome que sugere riscos, é uma composição mais descontraída, do tipo que faz dançar morosamente na cadeira, surpreendente pela imprevisibilidade. Tem um longo solo de teclado, revelando um lado mais tranquilo do disco, embora a faixa termine com o mesmo teclado tenso junto a uma guitarra angustiada.

É de se supor que esteve presente durante todo o disco uma certa nostalgia com as épocas e referências que levaram o Pedro a ser quem era no ano em que lançou o disco (2012), mas na faixa "Um Grande Amigo" o tom emotivo assume o lugar de fala com maior maestria. Antes da bateria entrar já é possível sentir colher determinadas áreas internas nossas sem nome as quais apenas a música consegue descortinar. Frases cantáveis, variações muito interessantes delas, e mesmo nos trechos em que há acelaração o tinido emotivo continua ali.

A última faixa, "Nova Era", é a mais diferentona de todas. Talvez arriscasse afirmar que nem parece ser do mesmo álbum que as demais, sem que isso jamais insinue incoerência - a guitarra forte de todas elas continua aqui, o tom comovente da faixa anterior também. A introdução com cordas acústicas suscita o ouvido, a percussão que lembra chocalho - mais um item de brincar, ao lado do cavalo de pau e dos games - muito bem aproveitada ativa a curiosidade e um sorrir interno. A faixa cresce na medida certa, chegando a seu ápice com as mesmas guitarras nervosas da primeira faixa agora mais enlevadas. Apesar de, conforme Pedro contou, o título ter sido gerado um tanto depois da própria composição, este encaixou-se jeitosamente com a missão de encerrar o álbum: após tantos itens de suas memórias serem postos na mesa, a porta já encontra-se aberta para o novo.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Ricardo Carneiro

Ricardo Carneiro

Título: NY 7577
Ano: 2016
Impressão:

Infantil é um adjetivo cujo qual na maioria das vezes é usado como sinônimo para imaturo, tolo ou instável. Alheia a esta visão pejorativa, a verdadeira definição de infantil é aquilo que diz respeito à infância. Está ligada à proteção, a um ponto de vista mais lúdico da vida.

"NY 7577", de um solitário Ricardo Carneiro nostalgiando através de violões e violas, é um álbum que remete à aurora da vida. Traz a tona a criança que o próprio Ricardo foi um dia, permitindo que o ouvinte resgate também aquele ser que hoje parece tratar-se de um desconhecido ao observá-lo em fotografias. Não apenas o miúdo é apresentado, mas também um local e a maneira como este local era visto através dos olhos de quem está descortinando o mundo.

Quem já revisitou algum local que faça parte das memórias de infância provavelmente se surpreendeu com o tamanho das coisas vistas agora em perspectiva de adulto. Há algum tempo precisei revisitar a escola da qual saí quando tinha 8 anos e lembrei do quanto achava gigante e sinistra uma gruta com a imagem de uma santa que tinham na entrada. A gruta e a santa ainda estão lá, porém, hoje tendo outra altura e outros olhos, achei as mesmas bastante pequenas. Revi também um muro cujo qual era uma aventura dificultosa escalar, e que atualmente bate na minha cintura. Esta perspectiva meninil de visão de mundo se faz presente no álbum, no qual o Ricardo guri e a cidade de Nova York, onde o mesmo vivera de 1975 à 77, são os personagens centrais.

Muita curiosidade de escutar o disco me veio rapidamente quando abri o encarte e percebi do que se tratava. Aquelas imagens tão bonitas de uma Nova York que provavelmente não existe mais, com um filtro antigo verdadeiro que atualmente tanto tenta-se reproduzir nos instagrams da vida, tão bem ilustrando o conceito do álbum que é assumidamente uma nostalgia de período e local vividos por Ricardo Carneiro, dando a certeza de estar prestes a apreciar uma obra em que imagens, sons e relatos se complementam. Os pequenos textos no encarte contando sobre a mudança do Brasil para NY dos 2 aos 4 anos de idade, as músicas que escutava em família na época, bem como os depoimentos a respeito da cada composição, aproximam e ambientalizam o ouvinte ao enredo do que será ouvido.

Uma feliz coincidência é que o álbum, por ser instrumental, não tem nenhuma fala audível, e isso remete à própria palavra infância que, do latim infantia, pode ser definida como "indivíduo que ainda não aprendeu a falar". Ricardo Carneiro, na época agraciada no disco, provavelmente estava no período de aprender a verbalizar e as músicas que escutava na época e cita no encarte (Bob Dylan, Peter Seger, e outros) devem ter tido uma eficiente participação nisso. Aqui ouviremos portanto explanações sem frases palavreadas, sem o verbo, mas de um pequeno indivíduo que já observava, sentia e se expressava de alguma forma.

Ao colocar para tocar a primeira faixa, "Voo 7577", a animação da criança já aparece, na euforia e curiosidade típicas de quem ainda encara o planeta como uma grande diversão a desvendar e aproveitar. Não é de se estranhar o fato de que tal música foi utilizada como tema para um app que mostra a história e cultura americana para crianças e bebês, pois tem tudo a ver. Já se percebe de cara o grande domínio do violão e o clima regional, saudoso e petiz que envolverão o disco.

No hemisfério norte as estações do ano costumam ser bem mais definidas e características do que no hemisfério sul, onde nem estranhamos precisar se agasalhar no verão ou se queimar no inverno. Duas estações do ano vividas no norte estão retratadas no álbum. "Paisagens Americanas", de título que auto explica a inspiração, tem timbres muito curiosos, alguns lembrando chocalhos. É bastante imprevisível, alterando o andamento a bel-prazer sem escapar ao ambiente desenhado. Passa a ideia de frio que é confirmada pelo depoimento no encarte falando de cachoeiras congeladas. Outra que também está envolta por uma estação climática e curiosamente também tem andamento fortuito é "Uma Folha para Nena", sendo esta sobre o outono que presenteou a avó de Ricardo com uma folha caída de uma de árvore enviada por carta ao Brasil.

"Tati na Rede", embora não seja exatamente sobre os anos de Ricardo Carneiro criança e sim uma composição feita para embalar o sono de sua esposa numa rede, ainda assim remete à infância pois é uma canção de ninar. Tem conforto, ingenuidade e meninice. A seguinte também é dedicada a uma pessoa, "Feliz Aniversário, Jan", e apesar de ser, como todas as demais, uma composição de um instrumento só, é uma das mais solitárias. Notas bem espalhadas, sem alvoroço, momento de bonança.

"Belle" faz fantasiar o faroeste que se vê nos desenhos animados, com casas de madeira, as típicas portas de arestas dos saloons, poços, areia e, do próprio título da composição, um furacão. Belle é o nome do furacão que passou por NY justamente no ano que fica entre 75 e 77. Ricardo conta no encarte ter lembrança de esperar na janela o tornado passar, e esta é uma imagem muito rica. Um tornado pode ser assustador a um adulto já que este conhece as possíveis consequências, mas a uma criança de 3 anos, idade de Ricardo na época, pode ser algo aventuroso e mais contemplativo do que preocupante. A composição é bem preenchida e revela uma característica também identificada em outras deste álbum que é a parada, o rápido silêncio, a respirada para uma retomada enérgica.

Outro evento novaiorquino presente no disco é um apagão que ocorreu em 1977 lembrado na faixa "Blackout '77". É um blues atiçador, livre e divertido. Visto que o blackout facilitou a ação de muitos ladrões, a faixa acaba dialogando não apenas com a anterior, por retratarem momentos históricos, mas também com o título da próxima, "Forasteiro". A introdução desta é bem interessante, com uma nota única soando baixa e constante, demorando a entrar a melodia. É feita de diversas frases bonitas, quebras bruscas e singulares momentos de notas solitárias sendo pontes entre os recintos mais fartos.

"Asa Branca", composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, é uma clara referência às origens enquanto estava fora. A percussão deixou a faixa dançante e brasileiríssima. Por ter feito seu próprio arranjo e trazido sua própria leitura para tão celebrado hino, Ricardo Carneiro conseguiu, intencionalmente ou não, materializar o espectro da música brasileira em terras americanas, na surpresa do gringo que escuta tal música tão diferente do que está acostumado, ou do brasileiro em terras distantes com saudades do Brasil.

A décima, que também é faixa título, "NY 7577", tem revelada no encarte ter levado um tempo para ficar pronta, assim como o próprio CD que sempre foi um desejo de Ricardo Carneiro. É uma faixa animada e que, imagino, seja a homenagem definitiva à cidade que Nova York era nos anos citados e às memórias ali vividas, como se condensasse toda a ideia nostálgico-afetiva (e existe nostalgia não afetiva?) do disco e desembocasse aqui. Composição desprendida e celebrativa.

O encerramento se dá com "Farewell...e Bem Vindo", lembrando que os ciclos terminam para que se iniciem novos. Se a faixa anterior reunia e contemplava todo o período vivido em Nova York numa coisa só, esta última é a partida após a despedida. Uma viola e melodia simpáticas acenam para os três anos vividos na gringa, sem melancolia e sim com satisfação de ter vivido um período bom, e olham com ternura às terras tupiniquins para onde os bons filhos retornam. Um dado curioso é que tanto essa como a primeira são as faixas mais breves, tematizando chegada, partida e nova chegada.

Ao soar da última nota do disco, e sabendo que Ricardo Carneiro nunca retornou a Nova York, a sensação é de umas tantas variadas saudades - de algo não vivido, de algo mentalizado através destas composições, dos pequenos seres que fomos antes de nos tornarmos adultos supostamente civilizados, de todas essas memórias que são do Ricardo mas durante a audição pareceram nossas e que resistimos em deixar partir.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta

Rodrigo Chenta

Título: Concepção
Ano: 2016
Impressão:

Fiquei bem curioso para escutar o EP do Rodrigo Chenta ao saber que seria lançado. Por já conhecer tuas músicas do duo com Ivan Barasnevicius, bem como por já ter assistido apresentações do mesmo acompanhado em trio e quarteto, algo que peculiarmente me despertou curiosidade para ouvir foi o fato de que o EP leva apenas teu nome.

Existe uma responsabilidade a assumir quando um músico assina uma criação desta forma que chamam de "solo", cuja definição do espanhol é "puro, sozinho, sem nada a mais". É dar a cara a tapa e se expor, fazer jus solitariamente aos conceitos de autor/autoridade. Mesmo que hajam participações, como hão no caso, serão exclusivamente teu nome e sobrenome que bancarão e etiquetarão o que será ouvido.

A primeira faixa, "Concepção", condiz com esse comprometimento: é solitária, de apenas um único instrumento, mas é uma solidão preenchida. O baixo da guitarra presente, mais de três sons sendo escutados ao mesmo tempo em alguns momentos, terminando com apenas um. Interessante saber, através do encarte, que esta composição nasceu em plena performance, conseguindo manter o tom tenso proposto desde o início. Por algum motivo sonoro curiosamente me lembrou relógio, como se representasse uma espera por algo ou alguém. Esperas costumam ser solitárias, porém, são preenchidas por expectativas, da mesma forma que esta composição o é: solitária e cheia de sons.

Se a faixa-título causou impressões diretas, em contraponto a "Suite for Schafer" causou diversas.

No 1º Movimento, ao entrar a voz de Roberto Agnelli a primeira sensação foi de estranhamento. Quando soube que haveria uma voz participante nesta faixa imaginei que a mesma entraria cantando, e provavelmente uma melodia sem letra. Mas aí a voz escapou ao esperado e entrou falando, inserindo palavras em um ambiente onde não eram esperadas. A quem acostumado estava com as músicas lançadas nos últimos anos por Rodrigo Chenta, cuja voz-mor é a guitarra, a entrada da voz falante foi um salto pro lado de fora da zona de conforto. Logo na primeira frase pensei receoso "será que esta voz citando frases trará um tom didático e pouco artístico?". Segui escutando.

Já no 2º Movimento chamou de cara a atenção o "dueto" das cordas com a madeira da guitarra sendo materialmente usada, característica facilmente reconhecida aos que estão familiarizados com as composições de Rodrigo Chenta no duo com Ivan Barasnevicius. Em certo momento é citado pela voz um relógio, a mim dialogando com a primeira faixa e o suposto relógio que havia enxergado naquela composição. "Fazemos de nós mesmos uns pobres relógios" - pois é!

A partir do 3º Movimento até o 6º e último já havia me acostumado com a estética desta Suite, curioso a escutar as próximas frases que seriam ditas por aquela voz cuja qual reconhece-se sotaque bastante puro e inominável e as respostas da guitarra à elas. Merece menção honrosa o 4º Movimento, onde há até uma mise-en-scène vocal e o flagrante de me ver aproximando o ouvido da caixa de som para melhor escutar os sussuros falando a respeito dos que, como eu, estavam se esforçando para ouvi-los.

Não é tão raro nos depararmos com um áudio onde haja uma voz declamando algo acompanhada de um fundo musical, geralmente sendo frases bonitas e uma harmonia que ajuda no tom de comoção ou de engrandecimento à beleza do que está sendo falado. Mas raramente voz e música de fundo estarão tão diretamente ligados como no caso desta Suite, pois tudo que é dito pela voz de Roberto Agnelli reflete nas improvisações de Rodrigo Chenta na guitarra acústica e vice-versa. Necessariamente voz e guitarra estão falando da mesma coisa: se cortejam, confabulam e palavreiam. Cada uma dá forma ao que a outra está narrando.

Rodrigo Chenta não apenas merece cumprimentos pelo compromisso de lançar uma obra levando tão somente teu nome, como também pelo desembaraço de prover essa Suite de proposta sonora rara e inabitual.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Standards?
Ano: 2017
Impressão:

Interrogar é quase cantar: há um ritmo específico para se falar em voz alta uma frase interrogativa. Se a entonação de dúvida não for ouvida, a frase perderá o sentido e a comunicação também. Assim, o EP "Standards?" do Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius Duo já o é musical desde o título. Tal ponto de interrogação no nome sugere falta de cerimônia e informalidade: um título que se auto questiona e uma obra que aparenta ser resultado de diversão.

O EP traz duas faixas já conhecidas de quem frequenta os shows do duo, e que beleza poder tê-las agora em registro!

É bastante divertido notar a surpresa da plateia quando o duo toca a primeira faixa do EP, "Cantaloupe Sandman", logo que "Enter Sandman" do Metallica é reconhecida. A inconfundível linha de guitarra não está ali como mero chamariz, pois se faz presente por praticamente toda a música, cedendo espaço algumas vezes mas sempre retornando. Há o que se impressionar com a facilidade na qual passam da tensão patente e até sombria do riff de Kirk Hammett para uma levada jazzística animosa. O bom humor do jazz e a fúria do metal encontram espaço e diálogo na mesma música. Para quem já é familiarizado com o som do duo é fabuloso como, mesmo partindo de um sucesso do Metallica (entre outros, como "Welcome Home (Sanitarium)" que Rodrigo cita em seu solo, e também frases do pianista Herbie Hancock no solo de Ivan), é perceptível o estilo próprio consolidado, a impressão digital garantida.

Já a outra faixa, "Saga of Harrison Crabfeathers", também carrega responsa pois sua harmonia é bastante conhecida dos fãs e músicos de jazz. Lembrar que seu compositor Steve Kuhn vem de um dos bairros mais icônicos de Nova York, o Brooklyn, faz pensar na relação do local de vivência com a composição, e o quanto a cidade de São Paulo pode também ter influenciado Rodrigo e Ivan nesse standard.

O início é bem a-lá duo e cinzento como a cidade em que residem, meio nublado, abafado, sonorizando o escurecer do céu que anuncia chuva. Segue assim até entrarem as frases famosas de Steve, afastando as nuvens e clareando/colorindo já aos 40 segundos de música. Essa variação climática, brusca como o é na capital paulista, está em toda a gravação enfatizando a falta de medo do duo de arriscar notas aflitivas sob uma composição famosa dessas.

Aos 4:18, após momento de muito som e agitação, instala-se uma calmaria comandada pelos próprios sons, quase sem precisar utilizar-se do silêncio, lembrando aquele professor que todos já tiveram cujo qual, apenas com o olhar, fazia os alunos entenderem suas ordens.

Dos 6 minutos em diante o que se ouve são as tais alterações meteorológicas revezando-se até o final, do acinzentado ao ensolarado, das notas aflitivas às confortáveis. O final é atípico, com um acúmulo muito interessante de notas - visto não ser tão comum pensar em muitas notas próximas ao encerramento -, para deixar que as ultimas escolhidas soem até o final de si próprias sem corte. A mistura da beleza com aflição, presentes em todo o standard, aqui estão NAS MESMAS NOTAS, simultaneamente. Alcançam um ponto sensível do ouvido que consegue incomodar e encantar conjuntamente.

Os palitos de fósforo na capa do EP talvez remetam ao próprio conceito do que significa standard, afinal, este padrão de palito que hoje em dia conhecemos demorou bastante a aparecer. Já houveram outros bem maiores e até perigosos, que chegavam a queimar sozinhos dentro da embalagem. Curioso como, apesar do nome ser "palito", já chamamos direto de "fósforo", sendo que NÃO há fósforo no palito e sim na lateral da caixa onde o acendemos.

Encerrando com uma interrogação: será que, do mesmo modo que o palito de fósforo precisa necessariamente da caixa para acender, não precisaria também o standard de jazz de improvisos e alterações para ser efetivamente um standard?


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Antítese
Ano: 2016
Impressão:

Diferenças em relação ao primeiro álbum do duo era uma das promessas de "Antítese". Com apenas duas guitarras seria possível lançar um conjunto de dez músicas novas que se diferenciassem notavelmente das anteriores?

É um tanto clichê apontar essa característica, mas creio caber bem: foi necessário ousadia por parte de Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius. Se o primeiro disco indicava a abertura de novos caminhos, como o próprio título sugerira, conquistando conforto e estilo, este segundo foi a virada inesperada em uma curva acentuada, a debandada da área de proteção. É quase uma instalação sonora.

O primeiro contato que tive com o que viria a se tornar o disco "Antítese", meses antes de seu lançamento, fora com as faixas "Novos Caminhos 2" e "Nove Horas" disponibilizadas pelo YouTube. "Nove Horas", na época, me chamou muito a atenção por conta da quebra: a música começa, cria um ambiente ao seu redor, constrói um cenário rapidamente para então quebrá-lo. O próprio som da frase que muda a música bruscamente lembra um som de quebra. Mas o rompimento é rápido, e logo és inserido novamente no ambiente de antes, agora já território conhecido. Este é o enredo: ambientaliza, desperta com uma "quebra", para em seguida retornar.

A "quebra" está bastante presente no álbum. A começar pela capa na qual as imagens estão invertidas em relação ao nome do duo - Ivan primeiro, Chenta depois. Já nisto, intencional ou não, pode ser revelado que não estou em mãos com uma obra fechada. Não é para ser concreto, geométrico, facilmente digerível. A interrogação é parte do conjunto. Nas duas faixas curtas esta indagação é bem visível: "Quartais" começa, parece que pegará força, e quando o ouvinte já a compreendeu e quer ouvir o que tem a dizer, ela simplesmente o abandona, terminando sem se explicar muito; já "Antítese", a faixa título, intriga! A guitarra é fisicamente usada ali. A própria madeira vira som - é orgânico, palpável, tateável. Sempre espero que a faixa título traga em si a razão para dar nome ao álbum. Sempre espero que não se revele como escolha aleatória, e sim que intuitivamente sejam percebidos os motivos para que aquela faixa nomeie toda a obra. No caso, a quase caótica "Antítese" cumpre tal expectativa.

Conversando com Ivan a respeito do primeiro disco na época que foi lançado, disse a ele que havia percebido como um álbum urbano. Mais especificamente começando com uma visita ao interior nas duas primeiras faixas e na sequência voltando à cidade grande. É um álbum ensolarado que tem cara de praça, ruas arborizadas, paisagem da janela do ônibus, raios de sol entrando pela janela da sala. Já "Antítese" percebi como um álbum noturno. Tem o charme da noite. Combina ser ouvido no silêncio da madrugada, solitário. Assim como no anterior, também enxerguei uma storyline: inicia-se de tardinha com as duas mais alegres do álbum, "Fritando Panqueca" (festiva) e "Faça a Luz!", para depois anoitecer. "Faça-se a Luz!", aliás, que tem uma "dança" encantadora das guitas - não diálogo, e sim dança, um passo aqui, um passo acolá - passa ideia de ansiedade. Muito espirituoso foi saber que Ivan a compôs num momento de inquietação quando faltou energia em sua casa e tinha várias coisas a fazer.

É na terceira faixa, "Crossfades", que começa o cair da noite. "Crossfades" é aquele momento em que não é nem noite nem dia. Em que não se sabe se dá "boa tarde" ou já "boa noite". Me levou pra confusão do fim do dia, quando os carros estão em peso na rua, o transporte público cheio, todos querendo escapar rapidamente das obrigações e da burocracia, para ao final me levar à calmaria extrema que fica na cidade quando já é tarde da noite. A aparição de tantas frases e propostas diferentes na música uma seguida da outra, uma quase atropelando a outra, trouxeram à encrenca das 18h de um dia de semana. Até que chega uma calmaria na música e que permanece, como se todos os carros já tivessem deixado as avenidas, o metrô vazio prestes a fechar, os grilos já audíveis.

Daí até o final é noite em "Antítese". Mesmo sabendo que "Nove Horas", por exemplo, segundo o próprio Ivan, refere-se às nove horas da manhã. Taí uma das graças da arte, a possibilidade de atingir cada um de maneira personalizada. Tenho afeto especial por "Nove Horas" devido a um singelo episódio: numa sexta-feira estava parado em um farol da Avenida Dom Pedro I e, então, ao começar a tocar tal música no celular, olhei no relógio do carro e vi que eram exatamente 21h. Foi o momento em que minha impressão a respeito do álbum e desta faixa em particular se materializaram diante dos olhos, andando por aquela avenida naquele exato horário que se apresentava exatamente como havia percebido a música, o momento em que muitos já se recolheram dentro de seus lares enquanto alguns ainda estão circulando.

Quando Ivan me contou que o título de "Nove Horas" se referia na verdade ao período matutino conversamos sobre títulos: o quanto títulos podem, dependendo do ouvinte, direcionar à visualização de imagens mentais a partir do que se ouve? "Sem Água" é uma na qual creio que o título leve bastante importância. Chenta já havia revelado que a inspiração para a própria vem da crise hídrica de São Paulo. É a mais melancólica do duo até o momento, a de maiores vazios. Não há pressa na execução, deixando as notas soarem solitárias até o final, acabarem como a água acabou. Curiosamente me lembrou sertão, apesar da inspiração urbana. Soou quase caipira.

"Novos Caminhos 2" é interessantíssima. O diálogo com a faixa título do primeiro disco é facilmente perceptível. Se a "Novos Caminhos" do primeiro apresentava tom um pouco triste, em "Novos Caminhos 2" as frases que estabelecem o diálogo com a anterior são executadas pra cima, mais esperançosas. A volta toda que esta música dá é longa e cheia de ambiente diferentes, porém, o (novo) caminho entre cada ambiente da música é elegantemente percebido. E é literalmente uma "volta", retornando no final ao primeiro dos ambientes, reencontrando às primeiras frases já familiares. Impossível terminar de ouvi-la sem um sorriso largo no rosto.

"Suite #1 (For Derek Bailey)" é um espetáculo com 3 atos: começa bem, te envolve e é até aconchegante, até que cai. Agoniza legal, sofre, parecendo que vai sucumbir a qualquer momento. E aí renasce. Respira novamente. Belíssima faixa, dramatúrgica, literária. Se é um tanto comum em músicas instrumentais me virem imagens na cabeça, nesta não veio nenhuma, eram os sons e somente os sons contando uma história com começo, conflito e final.

Estava bastante curioso para ouvir "Tema pro Caguaçu" por saber que Caguaçu se trata de um local que fora descaracterizado nos últimos anos graças à urbanização. O que chamou-me muita atenção nesta foi o conflito. Se em "Faça a Luz!" as guitas dançam uma com a outra, nesta tive a impressão de que tudo ia bem, porém, em certo momento, elas propositalmente entraram em desentendimento e deixaram de falar a mesma língua. Não é um duelo, é uma discussão. Mas, claro, logo se entendem. Se é convenientemente esperado que os últimos sons de um álbum façam algo de especial já que carregam a responsa de encerrarem a obra, neste caso, fazendo jus à toda não-obviedade do disco, não ocorre isso: a última faixa termina simples, se retirando apenas, sem muita despedida. Apaga as luzes e vaza com um aceno tímido.

A escolha da estética do encarte foi certeira. Imagens em preto e branco dão ideia de serenidade. É a serenidade da madrugada na qual quem fica acordado é porque está querendo resolver algo. Levei um tempo para compreender que os símbolos ao lado das imagens eram um código para identificar o fotógrafo: tinha achado que eram uma mera opção estética, que condizia - e, mesmo não sendo "só" estética, continua condizendo - bastante com o título "Antítese".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Rodrigo Chenta & Ivan Barasnevicius Duo

Título: Novos caminhos
Ano: 2015
Impressão:

O título do álbum pode, intencionalmente ou não, sugerir ser a justificativa à proposta sonora apresentada. Duos de guitarras não são muito comuns, porém, o que deveras configura o primeiro disco do duo de Rodrigo Chenta e Ivan Barasnevicius como nova possibilidade de caminho à música brasileira é o tanto de características originais e possibilidades manifestas.

Surgir como "novo caminho" pode causar a expectativa de escutar um trabalho quase experimental, timidamente indefinido, quase uma aventura musical que não se sabe bem aonde vai desaguar. Não é o caso: trata-se de um álbum seguro e vigoroso no que se propõe. Os vários meses de pesquisa e preparação para que Rodrigo e Ivan dessem forma e delineassem as ideias tiveram como resultado um disco que adjetivaria como "ensolarado" e "urbano".

A faixa que abre o álbum e a vida do duo é a própria "Novos Caminhos", com um dedilhado levemente triste pela primeira guitarra e uma frase marcante sob o próprio tocada pela segunda. É o carro-chefe e a amostra do que serão esses novos caminhos agora abertos: duas guitarras perceptíveis e diferenciadas entre si, o som da palheta e o da mão batendo nas cordas não como acidentes e sim como integrantes. A extensão percorrida por esta faixa é longa e abrangente, "parando" em diversos locais desses caminhos para conhecê-los, até deparar-se aos cinco minutos da música com o tema principal se repetindo e encerrando o itinerário.

Há um certo deslumbramento nesta faixa de abertura atrelado a uma serenidade. O clima ocasionado se mantém na segunda, "Serra do Cafezal parte 3", composição de Ivan. Tal serra presente na rodovia que liga São Paulo ao Paraná nomeia também a faixa "Serra do Cafezal parte 1", que se diferencia da primeira sendo um tanto mais animada e com uma frase no "refrão" graciosamente cantável e que facilmente fica na cabeça.

Ao conversar com Ivan a respeito de tais faixas mencionei que a parte 3 e a "Novos Caminhos", em sequência abrindo o álbum, me fizeram pensar numa pessoa de cidade grande visitando o campo, contemplando paisagens naturais e o sossego - afinal, muito diferente a estes lugares será o olhar vindo de uma pessoa que mora em uma selva de concreto comparado ao de alguém que já vive em meio ao verde. Ivan surpreso ficou e revelou que a composição batizada com o nome da região serrana foi concebida em frente a uma cachoeira, exatamente durante uma viagem de férias ao interior e de afastamento temporário da vida metropolitana.

"Sente o sete" e "Contrastes" sugerem ser irmãs. São diferentes uma da outra mas são faixas nas quais hão mudanças bastante notáveis ao longo dos poucos minutos que duram, mais curtas que as demais. Quase fazem jus à expectativa mencionada de som experimental e aventureiro.

Se apenas um local é citado no álbum todo - Serra do Cafezal, um "caminho" encontrado pra quem cruza a BR 116 -, mulheres são três as presentes no CD.

A primeira mulher a aparecer é qualificada como "brava", em composição feita por Rodrigo Chenta quando conheceu a mulher que viria futuramente a se tornar sua esposa. A faixa começa bastante doce, podendo facilmente servir de trilha ao clássico momento que todos passam ao menos uma vez na vida do amor à primeira vista - o momento em que se avista pela primeira vez uma pessoa que, por algum motivo inclassificável, faz as demais ao redor ficarem em marca d'água. O contentamento com o acaso por este ter feito vossos passos coincidirem perfeitamente e estarem ali, no mesmo local e na mesma hora. Porém, após a breve introdução de menos de um minuto, a música arrebata e se modifica, acelerando, ganhando ares de folia e agitação, sonoridades que se mostram possíveis em meio aos tantos caminhos das duas guitarras. Seria tal mudança uma representação da surpresa que o "eu lírico" da música teve com a mulher que lhe causou o encanto à primeira vista, revelando esta uma braveza inesperada? Quem sabe... Mesmo a música desviando a um clima mais festivo, não perde a ternura.

A mulher brava também é agraciada em "Minha neném", uma bossa bastante simpática e de tom mais delicado que a outra faixa em sua homenagem. Se na outra o tom dançante é de festa, já nesta é para dançar a dois num bailinho.

A segunda mulher do álbum é na verdade uma menina, a filha de Ivan Barasnevicius que empresta teu nome à cativante faixa "Tema para Pietra". Sabendo que Pietra é uma criança o ouvinte poderia esperar uma música com sonoridade puxada ao infantil, mas como (e não apenas por isso) esta é uma obra de caminhos novos, o caminho escolhido a esta composição também não foi o provável. É uma música de levada funkeada, divertida e que está entre as que mais surpreende pelo fato de possibilitar tantos sons a partir de duas guitarras apenas. Uma curiosa tendência deste que vos escreve ao ouvir esta música é, em alguns momentos, "enxergar" diversas luzes pequenas acendendo e apagando, numa espécie de "giro", um carrossel. Toda a animação se encerra primorosamente com uma canção de ninar, sacada genial que me fez questionar o Ivan se tratava-se realmente disso - "é isso mesmo", o próprio certificou.

"Inocência", que no álbum antecede o tema composto à pequena Pietra, dialoga com o assunto infância e pós infância. É uma faixa que a mim em particular acabou tendo um grande montante na época em que a escutei pela primeira vez. Estava melancolicamente surpreso como o passar do tempo e o tanto que o mesmo deturpa aqueles a quem há pouco viam o mundo como um local legal a ser descoberto. Os locais costumam ter maior resistência a continuarem como são. Os humanos não. Esta música traz todo o tom ingênuo, puro e singelo que o passar do tempo teima em levar dos que não se corromperam com o mundo dos grandes e não inocentes.

Por fim a terceira e última mulher, tendo esta o atributo de encerrar o álbum, é a mãe de Ivan Barasnevicius. "Valsa para Ana" possui variados temas memoráveis, do tipo que se for escutada em uma apresentação do duo ao vivo logo será identificada. A composição segue linha coerente nos quase cinco minutos, com um final em que as guitarras ganham força e se dizimam numa despedida sutil.

"Novos" e "caminhos" são os dois termos que intitulam tal obra. A palavra "caminhos" surgiu diversas vezes ao longo destas impressões, revelando escolhas do duo, um lote rodoviário citado no álbum e o próprio percurso. Já o vocábulo "novos" intervém não apenas na proposta musical inédita trazida para travessia pelo duo, mas também no perceber que este é um daqueles álbuns que, independente de quando for escutado, sempre soará "novo".


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Zeli

Zeli

Título: Voando baixo
Ano: 2002
Impressão:

Aonde você estava na noite do dia 20 de fevereiro de 2002, mais precisamente às 20h02?

De acordo com o pessoal dos astros, este minuto exato era o momento indicado para mentalizar um desejo. Estava ocorrendo uma capicua completa, bem provavelmente a última que presenciamos em vida. Capicua, que no catalã significa "cabeça e cauda", é o termo que batiza um conjunto de números cujo reverso é ele próprio. Assim, eram 20h02 do dia 20/02 do ano de 2002. A próxima é só em 2112, ou seja... quem pegou, pegou.

Além da última capicua, foi também naquele ano a última vitória do Brasil numa Copa do Mundo. Bom, ao menos até 2017. Os buffets que em 2017 realizaram festas de debutante as fizeram para as bebês nascidas em 2002. As nascidas no primeiro semestre presenciaram a conquista do Penta mas não se recordam, se igualando às que nasceram a partir de julho e também (ainda) não fazem ideia do que é ver o Brasil ganhar a Copa.

Em 2002 era lançado o CD "Voando Baixo" do baixista Zéli Silva, na época assinando apenas como Zeli. Ainda sem ter ouvido nenhuma faixa, tendo o encarte em mãos e observando os títulos já se transpira brasilidade. Bastante interessante é a experiência de escutá-lo agora que o álbum está debutando, pensando no contexto do Brasil na época da gravação, tentando desvendar nos entresons e na própria arte do encarte elementos que de alguma forma remetam há 15 anos atrás. Música e seu poder sobrenatural de não envelhecer.

"Voando Baixo" nomeia o álbum e a faixa de abertura, título ao qual é fácil sorrir por se tratar de um disco de baixista. Apertando o play, lá estão o baixo de Zéli e uma cuica que no primeiro ronco já remete a aquele patriotismo exclusivo de época de Copa. Há uma particularidade subjetiva de descrever, mas presente na nossa memória pronta a despertar de 4 em 4 anos. Sonoridades que estão no inconsciente do brasileiro. Menção justa ao solo de bateria de Edu Ribeiro, longo, com alterações no volume, pausas certeiras e mudanças que aparecem mas conseguem retomar ao lugar conhecido.

A mudança de clima para a segunda faixa "Refúgio" é quase brusca, e por isso merece cumprimentos. Faixas 2 tem uma missão, não oficial, de manter o que foi conquistado pela faixa de abertura. É momento de estabilizar o ouvinte na proposta. Colocar uma faixa 2 triste após uma abertura animada é ir sem medo pela contramão. Nesta Zéli toca, além do baixo acústico, violão, e se na anterior abria acompanhado de cuica festiva, aqui entram violão, piano e clarinete amargurados, a desenhar um cenário de noite de chuvinha fraca. A bela e boêmia voz de Simone Guimarães, que junto a Zéli assina a composição, canta para uma moça na janela. Talvez a moça seja uma segunda pessoa, porém - "moça da janela diz pra mim quem sou" - por que não seu próprio reflexo no vidro?

"Suíte" muda novamente o clima e não parece intencionar complementar alguma das propostas anteriores pois trará uma inédita. Tem ares um tanto internacionais. O diálogo de abertura entre o violão de Renato Consorte e o baixo sem trastes é muito bem posto. A faixa se desenvolve no sentido pleno da definição de elegante, uma riqueza harmônica impressionante. Não cabe em uma só audição. Até então é como o disco vem se apresentando, uma diversidade nada econômica de sons e instrumentos. Mas, como já se sabe, modificar completamente não é tabu no cosmo deste disco. "Carinhoso", patrimônio brazuca de Pixinguinha e João de Barro, é reinterpretada por um Zéli totalmente solitário no baixo. Trazer uma composição célebre destas é arriscado, ainda mais responsabilizando-se sozinho pela mesma. Mas o resultado é uma releitura íntima, singela e, fazendo jus, carinhosa.

O título da quinta faixa, "Remexendo", fez lembrar que no início dos anos 2000 era comum uma espécie de Carnaval o ano inteiro pois era momento do axé. Já a composição de Zéli é um samba divertido e requintado, sem poupar a alta roda instrumental. O dueto da voz de Luciana Alves com as flautas, momento no qual os diferentes timbres buscam alcançar um ao outro, é de não acomodar adjetivos. "Julho por Deus" também é um samba com a peculiaridade de transformar um casco de baixo acústico em percussão. Julho injustamente não é um mês valorizado. Deveria! Bom mês para reavaliar como estão indo os planos feitos para o ano que não é mais novo mas ainda está longe de ser velho. Talvez então, graças a falta desse costume, Julho realmente fique "por Deus" apenas.

"Corra e olhe o céu" está interessantíssima. É o tipo que escuta-se e pensa-se como nunca antes havia escutado tal arranjo. O modo como baixo, clarinete e sax tenor conseguem revezar para que cada um possa "fazer o Cartola" é digno de correr e escutar. Uma das poucas faixas com poucos instrumentos, sem fazer dívida às demais. Já a seguinte "Todos Lados (Afroamerica)" retoma o estúdio cheio trazendo congas e djembê, um tambor originário da África Ocidental que se mescla e se caldeia com violão e piano, sublinhando o título entre parenteses.

Antes de escutar a faixa 9, "Luzia", deduzi que este título provavelmente tratava-se de uma senhora, o tal do senso comum de ligar nomes a idades. Ao ver na ficha técnica "Voz: Luzia" pensei "legal, uma cantora cantando uma faixa xará". Esta segunda dedução acertei - mas só essa. Uma introdução instrumental doce de 8 segundos até que entra a voz. Se num dos primeiros parágrafos foram citadas bebês que nasceram por volta de 2002, aqui se escuta uma delas! Cantando na linguagem dos bebês, com risos, balbucios, exclamações soltas. Há também a voz do próprio Zéli junto a uma pluralidade de timbres de baixos diferentes que são um presente aos ouvidos. Luzia pode ainda não ter visto o Brasil ganhar uma Copa, mas terá para sempre esta canção de ninar primorosa.

"Mulher", releitura da composição do maestro Custódio Mesquita com o ator Sadi Cabral, assim como nas demais releituras do disco opta por poucos instrumentos. Formação mais clássica de quarteto com baixo, sax, piano e bateria, com longa introdução do baixo de Zéli bastante confortável. Um violão é adicionado e o quarteto se torna quinteto nas faixas seguintes e autorais "Balada Capital" e "Samba Amigo". Dois títulos que, talvez, propositalmente se oponham: uma balada outra samba, uma capitalizada outra amigável. Condiz com as sonoridades, uma mais formal e lúgubre, outra mais animada e celebrativa, na única repetição de formação do disco.

"Estrada Branca", igual ocorre com "Mulher", também é releitura e também abre com longo baixo solitário. Uma composição em duo de Tom Jobim com Vinicius Moraes relida num duo de Zéli com o guitarrista Marcelo Gomes. Não há pressa e sim audível curiosidade em explorar as possibilidades que ali estão. Serena e que resgata fácil a alegria triste típica de Tom.

Por fim, "Oculto", não apenas é uma das mais bonitas como também traz a curiosidade de ter sido gravada em 1994 no Canadá. Coincidentemente, o penúltimo ano em que o Brasil foi campeão da Copa. Optou-se por encerrar o disco com a mais longa e mais antiga, que muito bem poderia ter sido gravada hoje. Há um "quê" de retrô em especial na guitarra de Marcelo Gomes, um timbre que leva a algum local entre as décadas de 80 e 90, com a exuberância de saber que não trata-se de efeito e sim de gravação feita realmente no período.

A foto de capa, em duas olhadas a ela (realizadas uma logo após a outra), rendeu duas cenas diferentes. À primeira vista pareceu tratar-se de um arco-íris sob um lago com paisagem urbana ao fundo. À segunda, os chafarizes do lago do Parque do Ibirapuera. Porém, quando a foto é transformada no desenho que aparece por diversas vezes no encarte e no CD físico, pode ganhar uma nova interpretação: o próprio voo baixo do título do disco, representado pela curvatura do arco-íris/chafariz. O trajeto do besouro ou avião voando próximo à cidade.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 17.

Decrescente

Crescente

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