IMPRESSÕES DE RODRIGO VETTORAZZO

Esta coluna não objetiva apresentar análises técnicas sobre as músicas do álbum, mas sim impressões particulares do autor a partir da escuta do próprio, colaborando com a divulgação e a valorização da música independente no Brasil.

Total de impressões: 22.

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Yuval Ben Lior

Yuval Ben Lior

Título: Natureza urbana
Ano: 2015
Impressão:

Existe um filme francês de suspense chamado "Tom à la ferme" (Tom na fazenda) dirigido por Xavier Dolan cujos créditos finais exibem, do primeiro ao último crédito, uma espécie de plano sequência da paisagem da janela de um carro que sai de uma área rural dirigindo até um centro urbano. Vê-se a natureza selvagem se transformando aos poucos em natureza urbana, as árvores altas iluminadas por frestas de Sol que as atravessam dando lugar aos arranha-céus cheio de janelas acesas, a terra e o mato sendo substituídos por asfalto e concreto, os diversos sons naturais indecifráveis cobertos por buzinas, anúncios, entre outros também indecifráveis. Há uma beleza complexa na natureza urbana a qual foge um pouco à definição formal de "belo" que implica em "formas e proporções harmônicas", mas condiz com uma definição mais informal de que "produz viva impressão de deleite e admiração".

Yuval Ben Lior, israelense radicado no Brasil, chama seu primeiro álbum lançado em 2015 de "Natureza Urbana" já se identificando como pessoa urbana - "dos teatros, bares, botecos, ruas asfaltadas". Após conseguir ser dispensado de servir o Exército de Israel devido às habilidades musicais, migrou para Los Angeles onde pôde ter aulas com Pat Metheney e contato com Hermeto Paschoal e o choro brasileiro. Tamanha diversidade de terras e influências está bem substanciada no disco, que assim como uma cidade grande congrega também variações estéticas, sotaques bairrísticos, costumes e culturas.

Em "Choro do Curvelo" logo nos primeiros segundos de violão e sanfona o ouvinte já é despachado no Rio de Janeiro, centro urbano adotado como residência por Yuval e cidade berço do choro. Curvelo é o nome de um largo situado no bairro de Santa Tereza no qual ainda passa bonde, endereçando um tipo de natureza urbana quase extinta no Brasil. Ao escutar a faixa a impressão é de estar realmente sentado a assistir uma apresentação do quarteto de Yuval no próprio largo em questão, que tradicionalmente ainda abriga encontros musicais. A gravação foi toda ao vivo e nota-se pelo toque afiado e entendido. As dobras entre os dois instrumentos que iniciam a composição e a guiam são muito bem feitas e bem servem de conectoras das narrativas apresentadas.

"Parlando Muito" inicia com um riff de baixo interessantíssimo de Berval Morais, meio roqueiro que caberia muito bem num hit de um White Stripes da vida. Mas a composição surpreende com a entrada dos demais pois são diversos estilos que grudam um ao outro com certa fúria, parecendo em alguns trechos música eletrônica pela batida e violão enérgico, e em outros música altamente regional, meio cigana. Como o título sugere é um falatório instrumental que na juntura ganha sentido, como os variados sons urbanos se tornam sintônicos aos ouvidos acostumados com eles.

As faixas 3 e 5, "Una Vez Mais" e "Made in Israel", merecem ser comentadas conjuntamente: ambas tem longas introduções com instrumentos solistas e cheias de tensão. A primeira apresenta acordes cheios de aflição, a outra sugere aura melancólica. Trazem duas culturas distintas e longíquas, a argentina com o tango que se forma na faixa 3 e a israelense pelo próprio título da 5. O tango foi uma das primeiras músicas a retratar sensualidade, sempre acompanhada de certa apreensão e inquietação, mas a composição não se define como um tango puro e simples pois o violão lembra um choro unindo mais uma cultura nesta já mixórdia audição. Já a faixa que cita Israel carrega nostalgia, um certo lamento pelos conflitos da região difíceis de serem esquecidos ao pensar no país, e recorda da curiosidade sobre o quanto a música israelense é, segundo o próprio Yuval, bem cosmopolita, por conta do grande número de judeus espalhados pelo mundo absolvendo sortidas culturas.

"Granada", faixa 4, tem pesada constatação de música flamenca, mas que, como já se mostrou o disco até então, não ficará presa em um estilo somente, sem dispensar o intercâmbio. É uma composição animada e cuja breve participação da voz de Ana Sola parece genuína diversão, bem como as vozes que se escutam ao final em tom comemorativo.

"Cubanas" também tem consideráveis adereços culturais e destacam-se os improvisos bem virtuosos de Chico Chagas, as pausas longas, e a voz de Yuval que, como na faixa comentada anteriormente, tem rápida atuação. Talvez pela música vocal ser tão popular é do senso comum esperar que a entrada da voz irá guiar e protagonizar a composição a partir dali, mas neste disco as vozes são convidadas de gala em aparição e extravio - como na própria natureza urbana em que tão comum é o movimento e o que apareceu ao lado e chamou atenção tão breve pode já não estar mas ali pois nós ou a própria aparição se deslocou.

Capricho constitui bem a penúltima faixa, "Capricio pro Pancho", devido ao tanto de transmutações. Introdução solo de 1 minuto e meio, até entrar a percussão e abrir caminho para variados campos e contextos. Aqui toda a mestiçagem que se falou e ouviu a respeito chega ao auge num caos organizado. Caótico não é defeito, é característica. Caos caprichado, modo de vida urbano que conta com infraestrutura moderna, opções e ofertas, mas enfrenta também as consequências de aglomerações.

Aglomerações trazem certa segurança, o conforto em saber que haverá quem lhe socorrer por perto em caso de necessidade. Trazem alternativas de conversas e pensamentos. Mas é quase impossível falar sobre cidades grandes sem falar sobre solidão, são temas ligados e manifestos em várias obras. Pertencer a um grupo é busca quase instintiva do ser humano que por natureza prefere andar em bando. Mas se sentir só é mais interno que externo. Não implica no ato físico e sim na compatibilidade. É mais empatia que companhia. E se fisicamente há muitos outros seres por perto e a solidão é condição humana de cada um, nos centros urbanos estamos "Juntos na solidão", título que encerra o disco.

Yuval deixa o violão e apanha a guitarra para solar pelo meio minuto de introdução numa lamúria resignada. Nesta composição o instrumental está mais sereno, não triste e sim firmado. Solidão é um ato de se firmar, assumir-se como indivíduo que é um só desde o momento em que o cordão umbilical foi cortado. Pausas longas já se mostraram comuns no disco e há uma dessas aos 4:25, um momento de silêncio necessário até a música retornar. Como quem nota que, apesar de condicional e comum nas cidades grandes - ou então como Yuval que foi de Israel a Los Angeles e ao Rio enfrentando provavelmente experiências clássicas de solidão ao deixar parentes, amigos e lugares para trás -, na natureza urbana é sempre possível formar uma microliga, uma conexão entre seres através da música ou de uma boa conversa. Um local onde a solidão nunca será totalmente plena pois sempre haverá outro a cruzar o caminho.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Zeli

Zeli

Título: Voando baixo
Ano: 2002
Impressão:

Aonde você estava na noite do dia 20 de fevereiro de 2002, mais precisamente às 20h02?

De acordo com o pessoal dos astros, este minuto exato era o momento indicado para mentalizar um desejo. Estava ocorrendo uma capicua completa, bem provavelmente a última que presenciamos em vida. Capicua, que no catalã significa "cabeça e cauda", é o termo que batiza um conjunto de números cujo reverso é ele próprio. Assim, eram 20h02 do dia 20/02 do ano de 2002. A próxima é só em 2112, ou seja... quem pegou, pegou.

Além da última capicua, foi também naquele ano a última vitória do Brasil numa Copa do Mundo. Bom, ao menos até 2017. Os buffets que em 2017 realizaram festas de debutante as fizeram para as bebês nascidas em 2002. As nascidas no primeiro semestre presenciaram a conquista do Penta mas não se recordam, se igualando às que nasceram a partir de julho e também (ainda) não fazem ideia do que é ver o Brasil ganhar a Copa.

Em 2002 era lançado o CD "Voando Baixo" do baixista Zéli Silva, na época assinando apenas como Zeli. Ainda sem ter ouvido nenhuma faixa, tendo o encarte em mãos e observando os títulos já se transpira brasilidade. Bastante interessante é a experiência de escutá-lo agora que o álbum está debutando, pensando no contexto do Brasil na época da gravação, tentando desvendar nos entresons e na própria arte do encarte elementos que de alguma forma remetam há 15 anos atrás. Música e seu poder sobrenatural de não envelhecer.

"Voando Baixo" nomeia o álbum e a faixa de abertura, título ao qual é fácil sorrir por se tratar de um disco de baixista. Apertando o play, lá estão o baixo de Zéli e uma cuica que no primeiro ronco já remete a aquele patriotismo exclusivo de época de Copa. Há uma particularidade subjetiva de descrever, mas presente na nossa memória pronta a despertar de 4 em 4 anos. Sonoridades que estão no inconsciente do brasileiro. Menção justa ao solo de bateria de Edu Ribeiro, longo, com alterações no volume, pausas certeiras e mudanças que aparecem mas conseguem retomar ao lugar conhecido.

A mudança de clima para a segunda faixa "Refúgio" é quase brusca, e por isso merece cumprimentos. Faixas 2 tem uma missão, não oficial, de manter o que foi conquistado pela faixa de abertura. É momento de estabilizar o ouvinte na proposta. Colocar uma faixa 2 triste após uma abertura animada é ir sem medo pela contramão. Nesta Zéli toca, além do baixo acústico, violão, e se na anterior abria acompanhado de cuica festiva, aqui entram violão, piano e clarinete amargurados, a desenhar um cenário de noite de chuvinha fraca. A bela e boêmia voz de Simone Guimarães, que junto a Zéli assina a composição, canta para uma moça na janela. Talvez a moça seja uma segunda pessoa, porém - "moça da janela diz pra mim quem sou" - por que não seu próprio reflexo no vidro?

"Suíte" muda novamente o clima e não parece intencionar complementar alguma das propostas anteriores pois trará uma inédita. Tem ares um tanto internacionais. O diálogo de abertura entre o violão de Renato Consorte e o baixo sem trastes é muito bem posto. A faixa se desenvolve no sentido pleno da definição de elegante, uma riqueza harmônica impressionante. Não cabe em uma só audição. Até então é como o disco vem se apresentando, uma diversidade nada econômica de sons e instrumentos. Mas, como já se sabe, modificar completamente não é tabu no cosmo deste disco. "Carinhoso", patrimônio brazuca de Pixinguinha e João de Barro, é reinterpretada por um Zéli totalmente solitário no baixo. Trazer uma composição célebre destas é arriscado, ainda mais responsabilizando-se sozinho pela mesma. Mas o resultado é uma releitura íntima, singela e, fazendo jus, carinhosa.

O título da quinta faixa, "Remexendo", fez lembrar que no início dos anos 2000 era comum uma espécie de Carnaval o ano inteiro pois era momento do axé. Já a composição de Zéli é um samba divertido e requintado, sem poupar a alta roda instrumental. O dueto da voz de Luciana Alves com as flautas, momento no qual os diferentes timbres buscam alcançar um ao outro, é de não acomodar adjetivos. "Julho por Deus" também é um samba com a peculiaridade de transformar um casco de baixo acústico em percussão. Julho injustamente não é um mês valorizado. Deveria! Bom mês para reavaliar como estão indo os planos feitos para o ano que não é mais novo mas ainda está longe de ser velho. Talvez então, graças a falta desse costume, Julho realmente fique "por Deus" apenas.

"Corra e olhe o céu" está interessantíssima. É o tipo que escuta-se e pensa-se como nunca antes havia escutado tal arranjo. O modo como baixo, clarinete e sax tenor conseguem revezar para que cada um possa "fazer o Cartola" é digno de correr e escutar. Uma das poucas faixas com poucos instrumentos, sem fazer dívida às demais. Já a seguinte "Todos Lados (Afroamerica)" retoma o estúdio cheio trazendo congas e djembê, um tambor originário da África Ocidental que se mescla e se caldeia com violão e piano, sublinhando o título entre parenteses.

Antes de escutar a faixa 9, "Luzia", deduzi que este título provavelmente tratava-se de uma senhora, o tal do senso comum de ligar nomes a idades. Ao ver na ficha técnica "Voz: Luzia" pensei "legal, uma cantora cantando uma faixa xará". Esta segunda dedução acertei - mas só essa. Uma introdução instrumental doce de 8 segundos até que entra a voz. Se num dos primeiros parágrafos foram citadas bebês que nasceram por volta de 2002, aqui se escuta uma delas! Cantando na linguagem dos bebês, com risos, balbucios, exclamações soltas. Há também a voz do próprio Zéli junto a uma pluralidade de timbres de baixos diferentes que são um presente aos ouvidos. Luzia pode ainda não ter visto o Brasil ganhar uma Copa, mas terá para sempre esta canção de ninar primorosa.

"Mulher", releitura da composição do maestro Custódio Mesquita com o ator Sadi Cabral, assim como nas demais releituras do disco opta por poucos instrumentos. Formação mais clássica de quarteto com baixo, sax, piano e bateria, com longa introdução do baixo de Zéli bastante confortável. Um violão é adicionado e o quarteto se torna quinteto nas faixas seguintes e autorais "Balada Capital" e "Samba Amigo". Dois títulos que, talvez, propositalmente se oponham: uma balada outra samba, uma capitalizada outra amigável. Condiz com as sonoridades, uma mais formal e lúgubre, outra mais animada e celebrativa, na única repetição de formação do disco.

"Estrada Branca", igual ocorre com "Mulher", também é releitura e também abre com longo baixo solitário. Uma composição em duo de Tom Jobim com Vinicius Moraes relida num duo de Zéli com o guitarrista Marcelo Gomes. Não há pressa e sim audível curiosidade em explorar as possibilidades que ali estão. Serena e que resgata fácil a alegria triste típica de Tom.

Por fim, "Oculto", não apenas é uma das mais bonitas como também traz a curiosidade de ter sido gravada em 1994 no Canadá. Coincidentemente, o penúltimo ano em que o Brasil foi campeão da Copa. Optou-se por encerrar o disco com a mais longa e mais antiga, que muito bem poderia ter sido gravada hoje. Há um "quê" de retrô em especial na guitarra de Marcelo Gomes, um timbre que leva a algum local entre as décadas de 80 e 90, com a exuberância de saber que não trata-se de efeito e sim de gravação feita realmente no período.

A foto de capa, em duas olhadas a ela (realizadas uma logo após a outra), rendeu duas cenas diferentes. À primeira vista pareceu tratar-se de um arco-íris sob um lago com paisagem urbana ao fundo. À segunda, os chafarizes do lago do Parque do Ibirapuera. Porém, quando a foto é transformada no desenho que aparece por diversas vezes no encarte e no CD físico, pode ganhar uma nova interpretação: o próprio voo baixo do título do disco, representado pela curvatura do arco-íris/chafariz. O trajeto do besouro ou avião voando próximo à cidade.


Rodrigo Vettorazzo

Aos seis anos pediu um violão de brinquedo ao avô e ganhou um de verdade. Não lembra o título da primeira música que escreveu, apenas que era sobre uma ilha. De lá pra cá segue escutando, traçando linhas, realizando eventualmente oficinas de musicalização e tocando.

Total de impressões: 22.

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